Perfil de Herói – Angélico de Castro

No meio do fogo do inimigo não havia muito em que pensar. Algumas trincheiras ofereciam vistas privilegiadas. Dava para ver os fogos da artilharia cruzando o céu. Dava para ver os alemães correndo. Dava para ver as posições amigas sendo bombardeadas. Dava para ver o deslocamento das tropas tentando desbordar as linhas de defesa. Dava pra ver o céu, a lua e as estrelas. Por outro lado, dava para ver a morte carregando amigos e inimigos. Tratava-se de um teatro ao ar livre cujo enredo interpretado não tinha nada de fictício.

Foi dentro daquele buraco que o veterano Angélico de Castro passou boa parte do conflito. Um dos lugares mais perigosos para se estar quando a artilharia inimiga disparava sua chuva de artefatos mortais. A opção era ficar e rezar para que o alvo não fosse atingido. Na hora do bombardeio era comum vir à mente duas expressões populares: “se correr o bicho pega e se ficar o bicho come” ou “saltar da frigideira para o fogo”. A frigideira era a trincheira, o fogo, eram os projeteis de fuzis, pistolas e metralhadoras que varriam o terreno.

Ser municiador do 6º Regimento de Infantaria da Força Expedicionária Brasileira não era nada fácil. Exigia-se precisão, sangue frio, ousadia, fé, entusiasmo, insistência, rapidez e principalmente coragem para enfrentar os inimigos e a indesejada e sempre presente morte.

O morteiro era inquietante. O ritual do carregamento da peça era metódico como uma dança macabra coreografada. Um soldado regulava o alvo. O municiador pegava a granada cuidadosamente e soltava na boca do cano. Ambos se abaixavam e numa fração de segundos ela partia veloz, cortando o vento rumo a um destino ignorado.

O silvo da granada cortando o ar era a senha para aliança da gravidade com a morte. A dupla se encarregava trazer o artefato de volta a terra. A ironia também se fazia presente em forma de fragmentos mortais que desfazia a alegria momentânea de aliados e inimigos que julgavam ter escapado do estouro destruidor. Apesar do som ensurdecedor dos tiros e explosões era possível ouvir gritos desesperados. Diferente não poderia ser, era uma guerra. Uma guerra não: era a Segunda Grande Guerra Mundial.

Nascido em 04 de janeiro de 1917, na cidade de Dourados, Estado de Mato Grosso do Sul, o capricorniano Angélico de Castro sempre se destacou pela determinação e vontade que tinha ao desempenhar suas tarefas. Talvez esse ímpeto responda a frase que o veterano sempre repete quando a situação convém:

– Aproveite a vida em quanto pode, pois não sabemos o dia de amanhã.

Há 51 anos o herói vive com Selanília Amaral Pinheiro. A união deu ao casal três filhos, seis netos e três bisnetos. Quando incorporou no 10º Regimento de Cavalaria, em 1941, não imaginou que chegaria tão longe. Ainda mais quando recebeu a notícia do comandante do pelotão que iria compor a unidade do 6º Regimento de Infantaria e partiria em breve para Europa. A missão: lutar na Segunda Guerra Mundial contra os alemães.

Partiu para Itália no 6º Escalão. Da viagem só recordações ruins: “Foi terrível. Não conseguia dormir. Era muito quente dentro do navio. Toda a jornada foi muito dura. Foram 14(Quatorze) dias e 14(Quatorze) noites intermináveis. Não via a hora de desembarcar”, conta o herói.

O herói relembra quando chegou o dia de pôr os pés em terra firme começou uma série de treinamentos com os Americanos:

– Tudo voltado para prática. Agimos de forma que quando encontrássemos os inimigos, deveríamos agir com rigor para que pudéssemos nos salvar. Estávamos sempre com as baionetas caladas no fuzil.

 

A HORA DA COBRA FUMAR

 

Demorou para acontecer o primeiro combate, mas quando ocorreu a cobra fumou literalmente. Montese e Monte Castelo foram às batalhas mais ferozes. Angélico conta que o pior momento na guerra foi às vésperas do ataque à Monte Castelo: “Não lembro bem como os italianos chamavam o monte se não estou enganado era Monte Acasso (um monte de forma arqueada que os italianos chamavam de nariz do monte por causa de sua forma). Eu estava de serviço em meu posto, no meu quarto de hora, quando avistei o fogo inimigo. Quando começou os primeiros tiros do combate da TOMADA DE MONTE CASTELO, a cena foi impressionante”.

Triste mesmo foi à perda do grande amigo Sebastião Ribeiro. Eles saíram juntos de Ponta Porã – MS e fizeram todos os trajetos até a Itália. Na unidade de origem ambos eram atiradores e no 6º RI assumiram a função de municiadores. Angélico conta como se fosse hoje o fatídico episódio:

Estávamos em combate. Eu com a equipe do meu atirador e Sebastião na equipe do outro atirador. Progredíamos com extrema cautela praticamente com as equipes lado a lado. O silêncio incomodava. E incomodava muito. A respiração parecia uma forte ventania. Os locais dos passos dados eram escolhidos com capricho. Até que para nosso desespero ouvimos o indesejável som da temida e incógnita granada cruzar o ar. Preferíamos o som da tensa respiração. Restava-nos fazer o que o treinamento e o instinto nos ensinaram. Abrigar-se e torcer para que a maldita caísse longe de nós.  Porém, nem tudo que desejamos se realiza. Toda a equipe do Sebastião foi atingida, em cheio. A morte foi precisa e acabou com a vida dos amigos. Depois dos combates retornei para juntar os restos mortais de meu grande companheiro. Foi triste, mas como eu disse antes, isso é a guerra, e graças a Deus, eu não sofri nenhum ferimento.

Mas a guerra não teve somente fatos tristes. Angélico conheceu os lugares históricos e maravilhosos como, Roma e de lá guardou grandes lembranças: “São lugares lindos, mas não tenho vontade de voltar. A impressão é que lá ainda existe a guerra”, conta o veterano. A recepção dos Italianos era sempre calorosa, mas nada que se comparasse com o que o Brasil lhe reservaria no retorno. Com um largo sorriso no rosto Angélico relata como foi à volta ao Brasil:

– Quando estávamos chegando, quer dizer antes mesmos de avistarmos a terra, houve uma linda recepção por parte da marinha brasileira com salvas de tiros. Depois ao chegarmos a terra, sinceramente eu nunca tinha visto tanta gente. A alegria tomava conta de todos. Comigo estava somente meu primo Pompilho de Castro, natural de Ponta Porã.

O Exército Brasileiro reconheceu os feitos do herói condecorando-o com a Medalha de Campanha. Quando o conflito terminou exerceu a função de pedreiro. A estudante Kelly Christina Pinheiro, 27 anos, destaca a importância de ser neta do veterano: “Bem, ele é um herói, somos e isso é uma honra para a família. Meu avô, o Sr Angélico de Castro, é o meu maior orgulho”.

Da guerra ficou a lição que o herói divulga de forma simples:

– Guerra não é brinquedo.

A entrevista e as fotos foram realizadas pelo Contador Gledson Douglas Ferreira Araújo

O texto é do jornalista e colaborador Vanderley Santos Vieira

Colaborador:  Vanderley Santos Vieira, é Jornalista, especialista em Comunicação, Oficial R2 (Infantaria) do Exército Brasileiro, Tecnólogo em Administração de Empresas, Escritor, Pós-graduado em Planejamento Estratégico e possui o Curso de Política e Estratégia da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra. Atualmente desempenha a função de Gerente em uma Multinacional, Voluntário da Defesa Civil de Campo Grande – MS e Sócio Especial da ANVFEB/MS.

Possui as seguintes honrarias: Medalhas: de Serviço Amazônico; Mérito da Força Expedicionária Brasileira; Marechal Machado Lopes; Medalha Cruz da Paz; Marechal Cordeiro de Farias; Mérito da Força Expedicionária Brasileira da Câmara dos Vereadores de Campo Grande – MS Mérito Legislativo de Campo Grande e Mérito Rondon – Academia de Estudo de Assuntos Históricos – MS.

E-mail: vandsav@hotmail.com



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