Perfil de Herói – Alcides Jardim Chagas

De repente a dor lancinante. De repente o desespero e a pressa da família para dar uma pronta resposta. Cada segundo contava. Cada minuto parecia longo demais para ser desperdiçado, pois um herói agonizava e precisava de atendimento médico urgente. Mais do que tudo queria apenas viver. Sobrevivera a mais sangrenta de todas as batalhas da humanidade, a guerra de 55 milhões de vítimas que até hoje ninguém esqueceu. Mas o destino, como sempre, gosta de pregar das suas. De forma irônica e imprevisível, no mês de maio de 1986, a história encerrava um ciclo e iniciava outro. O mundo se despedia do expedicionário Alcides Jardim Chagas e o Brasil começava a conhecer a desejada Democracia.

No hospital da Santa Casa de Campo Grande, por causa de um erro de diagnóstico, a despedida da vida foi antecipada. A causa apendicite marcou alguns “adeus” que merecem destaque: adeus ao sorriso sempre presente; adeus aos dribles desconcertantes; adeus a comissão técnica do amado time do coração, o Operário; adeus as partidas de futebol no Belmar Fidalgo e Estádio Morenão; adeus ao cafezinho delicioso que a esposa fazia quando carpia o quintal; adeus as reuniões com os amigos veteranos realizadas na Associação que ajudou fundar; adeus aos gostosos churrascos de família; adeus as brincadeiras e os passeios com o mais leal dos animais, seu cão; adeus aos adoráveis filhos; adeus a alegria dos netos; adeus ao bate papo agradável no Bar do Zé; adeus aos desfiles de 7 de Setembro; adeus a querida e tantas vezes usada Boina com o símbolo da FEB e adeus a fiel, dedicada, especial e amada esposa: Adalira Lopes Chagas, apelidada carinhosamente de Neta.

Passaram-se 26 anos desde a partida do herói. Mesmo assim, Alcides continua presente nas crônicas futebolistas; em cada tijolo da ANVFEB/MS; numa das ruas de Campo Grande que recebeu o nome em homenagem ao herói e nos filhos, netos, bisnetos e esposa. Impossível esquecer a determinação, a teimosia, a dedicação, a persistência, a honestidade, a sabedoria, a franqueza, a sinceridade, a amizade, a versatilidade e o orgulho de ser um ótimo pai, marido exemplar e herói expedicionário.

Nascido no dia 7 de outubro de 1923, na cidade de Três Lagoas. Criado em Miranda, o filho de Alfredo Chagas e Dalila Jardim Chagas, era caçula de quatros irmãos. Quando completou a idade de alistamento, Alcides apresentou-se no 9º Batalhão de Engenharia, em Aquidauana. Ao saber da intenção do País em participar da 2ª Guerra Mundial, não teve dúvidas, imediatamente voluntariou-se e logo foi incorporado no 6º Regimento de Infantaria em Caçapava. A esposa comenta que ele por conta dos amigos perdidos detestava lembrar do front. Dizia que muitas vezes os bombardeios provocavam a péssima sensação de impotência. Alcides ressaltava que os únicos ferimentos que nunca saravam eram as lembranças da mente e coração. Quando lhe pediam para resumir a experiência em uma frase, ele respondia: “estou vivo, graças a Deus”. Quando lhe perguntavam qual o pior momento vivido na guerra, a primeira imagem que vinha a sua cabeça era a viagem de volta para casa. Adalira relata:

– Já no Brasil, quando voltava para casa, recebeu a noticia no vagão que seu pai falecera. A viagem ficou mais longa do que costumava ser. Ao chegar em sua residência, ficou sabendo que o pai recebera a falsa informação de que o filho havia morrido na Itália. Foi um golpe duríssimo que precisava ser superado. E foi.

Para Alcides Jardim Chagas a guerra havia acabado. Queria ver o pai e contar que motivo fazia as pessoas o chamarem de herói. Infelizmente seu genitor não o esperara e a conversa foi adiada para outro lugar. Certamente no céu. A vida precisava seguir seu rumo natural. O que fazer? Alcides guardou a boina provisoriamente. Em breve ela se tornaria um dos principais símbolos da sua vida. A esposa Adalira conta: “vocês precisavam ver com que orgulho e satisfação ele colocava a boina na cabeça, principalmente no dia 7 de setembro”.

O Veterano trabalhou nos Correios, labutou como carpinteiro e foi servidor da Noroeste, onde, em 1951 no time da companhia, a pelada de infância tornou-se profissional. A carreira foi exemplar como relata Adalira: “Ele jogou no time da Noroeste, na equipe Operário, na Seleção Matogrossense, no Santa Cruz, na Seleção Campograndense. Foi campeão e vice-campeão como jogador e técnico. Após encerrar a carreira atuou como árbitro. No dia de seu enterro a bandeira do Operário cobria o caixão tamanha era a paixão de Alcides pelo clube. No campo teve a felicidade de jogar com Pelé e Beline. Os cronistas esportivos e os amigos o apelidaram de macaco imaginem só”. Não é preciso ter vivido na época para imaginar o motivo do apelido: O herói futebolista era imprevisível, forte e ágil. Fazia aparecer pênalti do nada. Imitava os craques que admirava com tanta perfeição que não dava para distinguir a imitação da realidade. Fazia parte do espetáculo por amor e não por dinheiro. Tinha personalidade de campeão e a alegria de um menino quando vestia o uniforme mesmo que fosse um simples amistoso. Não era craque, mas fazia sua parte da melhor maneira possível. Quando fazia um gol, dava para ver a marca registrada do jogador de qualquer lugar da arquibancada: o sorriso do tamanho do mundo estampado no rosto.

Alcides era um homem de múltiplas qualidades. Foi herói na guerra e nos campos de futebol. Era amigo em todos os sentidos. Em 57 anos de casamento, um exemplo de marido e pai. Tinha na honestidade o norte de suas condutas; não tinha a experiência dos bancos da escola, mas a experiência da vida o fez único. Há 26 dois anos a esposa Adalira freqüenta a Associação que o herói ajudou a fundar e ali, as amizades, o culto a FEB, a memória de todos os heróis, inclusive Alcides se mantem vivas. Emocionada Adalira encerrou o bate papo sobre seu eterno marido combatente: “Enquanto viver freqüentarei este lugar que traz alivio para o meu coração. Quando partir sei Alcides está me esperando para vivermos na eternidade”.

Colaborador:  Vanderley Santos Vieira, é Jornalista, especialista em Comunicação, Oficial R2 (Infantaria) do Exército Brasileiro, Tecnólogo em Administração de Empresas, Escritor, Pós-graduado em Planejamento Estratégico e possui o Curso de Política e Estratégia da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra. Atualmente desempenha a função de Gerente em uma Multinacional, Voluntário da Defesa Civil de Campo Grande – MS e Sócio Especial da ANVFEB/MS.

Possui as seguintes honrarias: Medalhas: de Serviço Amazônico; Mérito da Força Expedicionária Brasileira; Marechal Machado Lopes; Medalha Cruz da Paz; Marechal Cordeiro de Farias; Mérito da Força Expedicionária Brasileira da Câmara dos Vereadores de Campo Grande – MS Mérito Legislativo de Campo Grande e Mérito Rondon – Academia de Estudo de Assuntos Históricos – MS.


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4 comentários

  1. Belo e sensível texto. Meus parabéns

  2. Maria do Socorro Sampaio M. de Barros /

    Vanderley como gosto de sua escrita! Quando eu crescer rsrsrsrs (tenho 60 anos) quero ser “igual” a você. Parabéns!

  3. onore ai morti e ai pracinhas vivi.hanno saputo anche fare della guerra uno strumento per vivere in modo allegro la tremenda realtà della guerra

  4. A próxima colaboração dele será a biografia de uma Enfermeira de Campanha

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