O RETORNO “O heróis pertencem à sua pátria”

Repatriamento dos brasileiros mortos na Itália ( 1944-1945).

Por Carmem Lúcia Rigoni

mascarenhas

Mascarenhas de Moraes

 

“Eu os enviei para o sacrifício; cabia-me trazê-los de volta”.

 

São poucas as pesquisas aqui no Brasil que tratam de um tema tão delicado  a todos, aqui neste caso, nos propomos a tratar do tema referente ao repatriamento dos combatentes brasileiros mortos na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, entre os anos de 1944-1945.

Pela análise documental, percebemos que no término da guerra, houve uma preocupação de informar as ocorrências na Itália. Os livros escritos ainda sob a efervescência dos fatos, pouco diziam a respeito dos mortos. Geralmente, partindo dos fatos, tratavam-se de livros técnicos escritos pelos oficiais brasileiros da FEB, em seu retorno ao Brasil, onde, em sua maioria tratavam da formação dos quadros da FEB, a seleção médica, o treinamento dos batalhões, a chegada à Itália, os primeiros combates, sucessos e insucessos da tropa, e finalizava-se com a Ofensiva  da Primavera, onde a FEB depois de consagrar-se combativa em Monte Castello, finalizava sua etapa guerreira em Montese e a rendição final dos alemães em Colecchio e Fornovo de Taro em abril de 1945.

Poucos oficiais tratam do assunto referente aos feridos e mortos, esta dificuldade eu mesmo encontrei quando da organização da obra Anjos de Branco, uma parte da minha tese do doutorado sob o tema Diários de Guerra: Memórias e Testemunhos dos soldados brasileiros que combateram na Itália durante a 2ª Guerra Mundial em 2009.Foi pinçando os diários dos pracinhas, que consegui alguns dados importantes.

Alguns blogs sobre a 2ª Guerra Mundial aqui no Brasil divulgam alguns dados sobre o tema em questão, e as fontes ficam cada vez mais reduzidas, dificultando o trabalho do pesquisador.

Neste aspecto, a presente pesquisa vai focar de forma resumida alguns fatos e datas, com material ilustrativo que possam orientar o leitor. Vamos nos guiar por pesquisas efetuadas logo no pós guerra, pelos jornais da época e abordagens mais recentes tomadas por pesquisadores.

Um dos trabalhos mais completos sobre o levantamento dos mortos na Itália, recebeu o título de Expedicionários sacrificados na Campanha da Itália- mortos e desparecidos, do jornalista Aluízio de Barros em 1957. Segundo o próprio autor, foram anos de pesquisa e investigação, nunca interrompidas, que tinha por objetivo não deixar desaparecer a memória dos compatriotas

Por que homenagear os homens da FEB?

“Porque durante longos meses de agonia e sobressalto eles resumiram e transportaram a honra, a dignidade e a esperança da Pátria.[…] Vai perpassar nesta página a doce e carinhosa sombra constituída pela evocação dos que partiram por entre bênçãos, mas não voltaram para receber o reconhecimento e a glorificação da pátria. Era imperioso que nos inclinássemos aqui ante os longínquos e sagrados túmulos dos que tiveram de ficar dormindo o ultimo sono em solo estrangeiro do outro lado do oceano”( ANDRADE NETO, Belisário Leite de.1955,p.11).

Como organizar as buscas e o sepultamento dos brasileiros mortos em combate, foi uma preocupação dos dirigentes da FEB. Era muito claro para o comando, que a campanha em si, provocaria mortos e feridos, neste pensamento foi criado o Pelotão de Sepultamento

 

O PELOTÃO DE SEPULTAMENTO DA FEB-

Criado em 4 de julho de 1944 estava ligado à Intendência da FEB, foi responsável pela coleta dos corpos, reconhecimento e realização dos ritos funerários. Os combates em que se envolveu a FEB, ainda em setembro de 1944, após a chegada dos 5 mil combatentes do 1º Escalão, acabaram acelerando os preparativos e treinamentos deste pelotão de sepultamento, junto do exército norte-americano.

A Chegada na Itália do Pelotão de Sepultamento foi 9 de outubro de 1944. Estavam agrupados com os 10 mil soldados brasileiros que haviam partido do Brasil, formando o 2º e 3º Escalões da FEB.  O Pelotão de Sepultamento era composto de 3 grupos de trabalhos, que se revezavam após merecido descanso. Era necessário, por força da burocracia norte- americana estarem preparados para os procedimentos responsáveis em relação aos mortos. Foram organizados estágios em cemitérios norte americanos e postos de coletas. Esses estavam distribuídos nas cidades de Porreta Terme, onde mais tarde ficou localizada a retaguarda brasileira e o Q.G. do alto Comando do Marechal Mascarenhas de Moraes.

Ainda outros locais complementaram esses treinamentos que ocorreram na cidade de Silla e Valdiburra. Como não dispúnhamos de um cemitério brasileiro na Itália, os primeiros mortos em combate foram sepultados nos cemitérios norte- americanos de Folonica e Vada até dezembro de 1944. A dificuldade maior do pelotão era de acompanhar a ‘guerra de movimento’, pois a FEB, em sua missão muitas vezes estava a mais de 300 quilômetros de distância o que dificultava a coleta, o resgate a recuperação, a identificação dos corpos, bem como os rituais necessários antes do sepultamento. Nesse sentido, cogitou-se em criar um cemitério para os combatentes brasileiros mortos em ação, em um local mais próximo das linhas brasileiras.

Encontrado o local, o terreno foi requisitado, a 2 de dezembro de 1944 na cidade de Pistóia, em documento firmado pelo proprietário Pietro Ladini e o comando da DIE, coronel Osvaldo de Araujo Mota e da Real Estate Section do 5º Exército norte americano, ten. R.F.Fitzgerald.

O terreno era todo fechado com arame farpado, internamente dividiu-se o espaço em quatro partes, parte desse para os soldados brasileiros e duas para os soldados inimigos. As estreitas alamedas entre as divisões, foram aos poucos sendo pavimentadas. Cruzes brancas foram colocadas, de início 60 delas, e ao redor da cerca, foram plantadas trepadeiras verdes e organizados canteiros de flores, dando assim ao ambiente, um ar digno, de respeito e beleza. O cemitério de guerra foi desativado em 1945.

A 21/12/1944- INSTALAÇÃO DO CEMITÉRIO DE PISTÓIA.

Além das quadras já demarcadas, foi substituída a barraca de lona que servia de necrotério, por uma construção de madeira. Projetaram uma pequena capela para os ritos funerários e 9º B.E, ajudou a organizar os espaços do novo cemitério. Foi preponderante nas cerimonias lá realizadas, a presença dos capelães brasileiros no total de 25 católicos e 3 protestantes.

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O cemitério de Pistóia  em  1945.

 

O CEMITÉRIO DE PISTÓIA E SUA HISTÓRIA NO PÓS GUERRA.

O Monumento Votivo.

A história do cemitério de Pistóia está ligado ao nome do sargento Miguel Pereira, que até o seu falecimento em 2001 foi seu administrador. Miguel Pereira foi combatente da FEB, no pós guerra casou-se com a italiana Juliana e constituiu família. Segundo depoimento do próprio Miguel, que durante todo o tempo que lá permaneceu, não mediu esforços na tentativa de procurar em outras localidades, brasileiros que por ventura, estivessem enterrados fora de Pistóia, era a busca dos desaparecidos.

Com o traslado dos corpos dos brasileiros para o Brasil. Em junho de 1966, no mesmo local ( Pistóia) foi erguido o Monumento Votivo Militar, criado pelo arquiteto Olavo Redig de Campos. Com forte simbologia dos heróis que lá estiveram tanto tempo, retrata ainda hoje a atmosfera de tristeza e consternação. Atrás da plataforma central, há um espelho d´água e uma parede com os nomes dos 465 combatentes gravados. Hoje o monumento é administrado e subordinado à Embaixada do Brasil em Roma.

 

OS MORTOS E SEUS FERIMENTOS.

As zonas de combate onde os brasileiros foram mortos, compreendia os primeiros embates ao nordeste da Itália, próximo a Bolonha. Nas investidas ao Monte Castello, no total de 5 ataques, ocorreram o maior número de baixas de novembro de 1944 a fevereiro de 1945. Depois, já na Ofensiva da Primavera, a Tomada de Montese até a rendição dos alemães em abril de 1945, marcaram os fatos do fim da guerra para os brasileiros, mas multiplicaram-se o número de feridos e mutilados, com mais baixas.

Os graves ferimentos que resultaram na perda de vida foram provocados por:- Estilhaços de granadas (granadas de canhões e morteiros), deslocamento de ar, minas e armadilhas.

O serviço religioso era prestado pelos capelães. O corpo do combatente era coberto pela bandeira nacional, e orações eram efetuadas, o féretro acompanhado pelos presentes e o pelotão de sepultamento.

As responsabilidades do Pelotão de Sepultamento.

Cabia ao pelotão de sepultamento a organização de um relatório individual para cada combatente morto. Eram listados também os pertences dos falecidos, o que se encontrava nos bolsos, geralmente pertences particulares como fotografias, cartas santinhos e amuletos, eram recolhidos. Em muitos casos, poderia ter ocorrido, pelo tempo do resgate do cadáver, a degradação do ou a dispersão de objetos, bem como das partes do corpo, em função da alta letalidade provocada pelos estilhaços de granadas e morteiros, estes últimos renderam as maiores baixas da tropa.

Até ocorrer o resgate o corpo do soldado estava à mercê das populações civis ou inimigas e facilmente poderia ser violado. O pelotão de Sepultamento, tinha consciência de quanto seria importante para as família o recebimento destes objetos e a afetividade que poderia estar presente em cada um desses pertences.

 

A COMISSÃO DE REPATRIAMENTO.

O Marechal Mascarenhas de Moraes, há muito vinha trabalhando no sentido de trazer de volta à pátria os soldados mortos em combate. Da sua efetiva participação, seus objetivos foram coroados de êxito a partir da década de 1950. A Comissão de Repatriamento, finalmente foi criada a 10 de outubro de 1952 pelo presidente Getúlio Vargas, mas efetivamente iniciou seus trabalhos a 20 de julho de 1960.

A chefia da comissão foi dada ao general Osvaldo de Araújo Mota e composta por oficiais do Exército, da Aeronáutica, de ex-combatentes brasileiros como Cordeiro de Farias, Plinio Pitaluga e Nero Moura. Os trabalhos iniciaram na Itália no dia 5 de outubro de 1960 e foram concluídos a 30 de novembro de 1960.

Foi importante a colaboração italiana no resgate desses corpos, seja pela via diplomática e trabalhadores italianos que ajudaram na exumação dos corpos. Tarefa complicada, pois eram mais de 400 corpos, que foram identificados um a um, por meio das medalhas de identificação que na época foram colocadas com os restos mortais, mais os documentos e relatórios de registros de cada corpo, que se encontravam dentro do cemitério de Pistóia.

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A exumação – na foto o ge. Osvaldo de Araújo Mota ao seu lado oficiais do Exército, nov.1960.

 

O RETORNO AO BRASIL.

No dia 11 de dezembro de 1960 os aviões brasileiros aterrissaram no aeroporto de Roma para conduzir as urnas mortuárias para o Brasil.

Neste dia após uma cerimônia religiosa na cidade de Pistóia, as urnas são embarcada em caminhões italianos rumo a Roma. A saída dos aviões aconteceu no mesmo dia. Ao atravessar o mar Mediterrâneo, uma das aeronaves apresentou problemas e quase pegou fogo, o que obrigou o piloto a descer em Lisboa. A tripulação e os bombeiros portugueses conseguiram deter as chamas, salvando então as urnas funerárias de madeira, algumas pessoas ficaram feridas.

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CAPELA DE SÃO DESIDERIO ( sec. XII) PISTÓIA.

 

A CHEGADA NO RIO DE JANEIRO.

No Brasil as três aeronaves chegam ao Rio de Janeiro no dia 16 de dezembro de 1960. As caixas mortuárias ficaram expostas no 2º Grupo de Transportes Aéreos do Galeão, depois para visitação pública foram levadas para o Palácio Tiradentes.

 

urnas

AS URNAS EM MADEIRA.

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O PRESIDENTE DA REPÚBLICA – JUSCELINO KUBITSCHEK;

 

Monumento aos Mortos no Rio de Janeiro.

O Monumento Nacional aos mortos da II Guerra Mundial, foi idealizado pelo marechal João Baptista Mascarenhas de Moraes, comandante da FEB, graças ao seu sonho, esforço e dedicação em trazer de volta a pátria os heróis brasileiros mortos na Itália.

O Início das obras  foi a 24 de junho de 1957 e concluída a 24 de junho de 1960, o projeto da obra foi dos arquitetos Hélio Ribas Marinho e Marcos Konder Neto. A 22 de dezembro de 1960 o Monumento Nacional aos Mortos foi inaugurado, ocupa uma área de 6.850m2, situado em três planos: Plataforma, Patamar e Subsolo. Integrado a um belíssimo cenário natural, forma um complexo urbanístico-arquitetônico de grande valor para a cidade do Rio de Janeiro e a FEB.

O Mausoléu- De amplas dimensões, pavimentado com arenito de Ouro Preto, as paredes laterais revestidas de quartzo verde da Bahia e as do topo com granito preto da Tijuca, conferem ao ambiente um local sacrário. Lá estão agrupados em 11 quadras alternadas de 48 a 36 jazigos, num total de 468.

Chama a atenção o grupo escultórico representando as três Forças Armadas, contidas na figura do marinheiro, do soldado e de um aviador, o conjunto foi projetado pelo escultor Alfredo Ceschiatti.

Mais informações sobre o monumento consulte a Associação Nacional dos Veteranos da FEB no Rio de Janeiro.

aterro flamengo

REFERÊNCIAS.

AMIDEN, Jamil. Eles não voltaram. Rio de Janeiro: Gráfica Riachuelo Editora, 1969.

BARROS, Aluizio de. Expedicionários sacrificados na Campanha da Itália ( mortos e desparecidos)Rio de Janeiro: Editor Bruno Buccini, 1957.

GUALANDI, Fabio. Monumenti dedicati al soldato brasiliano dela Forza di Spdizione Brasiliana in Italia.( FEB).Vergato (It): Stampa Tipografia Ferri, 2005.

INNOCNTI,Michela. Miguel Pereira e a Força Expedicionária Brasileira no apenino Tosco- Emiliano. Pistóia: Editrice C.R.T.2003.

MIRANDA, Francisco. Blog. Acesso https:// chico Miranda. WordPress. com. Pelotão de sepultamento. 19 /05/2016

Monumento Votivo Militar Brasileiro. Breve Histórico, Aditancia Militar de Roma:  folder, 2005.

MORAES, João Batista. A FEB pelo seu comandante.

PIOVESAN,  Adriana. Devoções individuais dos soldados mortos em guerra, portal FEB.com.br. Acesso a 29 de maio de 2016.

RIGONI, Carmen Lúcia. Bravos Combatentes da FEB: memórias,  monumentos, testemunhos perpétuos de uma história. Curitiba: Imprensa Oficial do Estado do Paraná,2003.

SCHNEIDER, Jacob Emilio. Vivência de um capelão da FEB. Curitiba: Edições Rosário, 1983.


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8 comentários

  1. Sub tenente MANOEL MENEZES /

    Preciso histórico MAJOR MANOEL MENEZES EX-COMBATENTE

  2. Sub tenente MANOEL MENEZES /

    PRECISO DE DADOS DO EX-COMBATENTE – MAJOR MANOEL MENEZES

  3. Maria do Socorro Sampaio M. de Barros /

    A professora historiadora Carmem Lúcia Rigoni como sempre, nos brinda com artigo elucidativo em sua costumeira sensibilidade aos feitos da Força Expedicionária Brasileira. Em sua obra Anjos de Branco constatamos o primor pelo profissionalismo na atuação dos médicos e a ternura que permeou as atividades das enfermeiras, de “nossas meninas” como ela carinhosamente se refere, no exemplar cuidado com os feridos.
    Grata por sua dedicação, a Cobra Fumou!

  4. Carmen Lúcia Rigoni /

    Olá, sub tenente Manoel Menezes.

    Vou tentar dar um indicativo para a sua busca do histórico do combatente Manoel Menezes, acredito ser o seu pai.
    Onde você reside? para que seja possível verificar se existem no local ferramentas de busca.
    Teríamos que saber qual era o Regimento do Major Menezes, em que qual escalão embarcou. Com esses dados seria fácil localizar em livros, ou em outros locais..
    E o histórico ( talvez no Palácio Duque de Caxias) no R. J, consigam levantar os dados da convocação, ou da carreira militar, do embarque e a saída ou não do Exército Brasileiro.

    Espero ter ajudado.

    Att/ Carmen Lúcia

  5. Paulo Afonso Paiva /

    Prezados amigos
    Sou autor do livro “Pistóia, Qauda 28″, sobre jovens soldados da FEB, na Itália. O livro está a disposição através do e-mail paivap50@gmal.com
    Att

    Paulo Afonso Paiva

  6. Paulo Afonso Paiva /

    Aditamento

    O nome do livro é “Pistóia, Quadra 28″.

  7. Luiz Fernando Fagundes Pereira /

    O Ex-combatente Manoel Menezes encontra-se descrito (nome;posto/graduação; Unidade; Divisão; datas de ida e de volta da Itália; e a medalha que ganhou) no ALMANAQUE SEGUNDA GUERRA MUNDIAL – 1939/1945, de Luiz Fagundes, na folha 638. Esse livro, de 829 págs. contém a História da II GM, focada na participação brasileira e os nomes e demais dados dos quase 50 mil brasileiros que participaram mais diretamente do conflito, seja no Teatro de Operações do Mediterrâneo (Itália), seja no Oceano Atlântico.

  8. Selma jose Santana /

    Prezados amigos preciso de ajuda para obter informações sobre o paradeiro e historas ou noticias do meu tio José lopes de Oliveira. Filho de Dionizia lopes de Oliveira e de Pedro Lopes de Oliveira. Que segundo minha mãe e sua irmã Maria da Conceição Santana. Ele foi voluntário da segunda guerra mundial. Retornou vivo e desapareceu em seguida. Há mais de 50 anos.minha mãe está com 86 anos de idade e ainda sonha em saber noticias do irmão ou de sua familia caso ele tenha constituído uma.

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