O Brasil vai às compras: Fried Krupp

O BRASIL VAI ÀS COMPRAS: A AQUISIÇÃO DE MATERIAL BÉLICO PARA O EXÉRCITO BRASILEIRO E AS RELAÇÕES COMERCIAIS ENTRE BRASIL, ALEMANHA E ESTADOS UNIDOS DURANTE O ESTADO NOVO.

Iury Gomes Jatai[1]

 

RESUMO

O estudo aqui apresentado busca abordar a relação entre as necessidades de material bélico do Exército Brasileiro e as transações comerciais entre o Brasil, os Estados Unidos e a Alemanha e o jogo de influências político-econômicas que norteariam as decisões pela aquisição do armamento e as dificuldades para o recebimento do mesmo entre os anos de 1938 e 1942.

 

Palavras-chave: Brasil; Governo Vargas; Estado Novo; comércio; rearmamento; política; Fried Krupp.

 

INTRODUÇÃO

 

Desde o início da década de 1930, diversos países no mundo passavam por crises políticas e econômicas. Neste meio destacaram-se os países europeus, egressos da primeira grande guerra que durara quatro anos, mas cujas consequências ainda se faziam presentes. Buscando contornar as dificuldades econômicas, a Alemanha implantou uma política comercial que facilitava a importação de matéria-prima e a exportação de seus produtos industrializados. Para que esta política tivesse o efeito esperado, o governo alemão teve que estender seus laços comerciais para os países da América Latina e Leste Europeu, países estes que não dispunham de um parque industrial desenvolvido, capaz de suprir as suas necessidades de materiais manufaturados.

Neste contexto, os objetivos alemães vieram a se encaixar nas necessidades brasileiras. O Brasil, neste período, possuía uma economia considerada periférica, agroexportadora e que foi pesadamente prejudicada pela crise de 1929. O governo Vargas impôs então como meta a ampliação dos mercados para seus produtos primários e da soma de divisas em moeda estrangeira.

Diferente dos  Estados Unidos, cujo comércio com o Brasil estava centrado no café, a Alemanha dispôs-se a negociar diferentes tipos de produtos. A diversificação da pauta exportadora era importante para o Brasil, uma vez que sua economia não poderia mais basear-se na predominância quase totalitária de apenas um produto, no caso o café, que sofria constantemente com pesadas desvalorizações no mercado internacional, prejudicando a já onerada balança comercial do país.

Dentro de um panorama local, o Brasil precisava, mais do que nunca, que seu Exército e sua Marinha de Guerra se modernizassem. A Armada contava com poucos navios que já se encontravam totalmente obsoletos e que passavam mais tempos em reparos que cumprindo suas missões no mar. O Exército era uma verdadeira miscelânea de materiais, sem padronização alguma de armamentos, fardamentos ou viaturas. Era necessário, pois, que houvesse um grande plano de reaparelhamento das Forças Armadas e o então Ministério da Guerra estava empenhado para que tal evento se concretizasse.

 

O COMÉRCIO COM O III REICH E COM O TIO SAM

 

A aproximação da Alemanha nazista com a América Latina e o Leste Europeu tem origem na necessidade deste país em expandir seu mercado consumidor e seus fornecedores de matérias-primas. Diferente de outros países europeus como a Inglaterra e a França, que possuíam seus impérios coloniais e neles buscavam boa parte de seus mercados consumidores e fornecedores, a Alemanha não dispunha desta fonte para amparar e auxiliar no incremento de sua economia.

Os conturbados anos do início da década de 1930, com os países capitalistas ainda recuperando-se da crise de 1929, mostraram aos alemães que o grande mercado para seus produtos manufaturados não estava nos países ricos e desenvolvidos da Europa Ocidental, mas sim no outro lado do Atlântico. Sem colônias para onde escoar sua produção e de onde extrair as matérias-primas necessárias para as suas indústrias, a Alemanha viu em acordos comerciais junto aos países latino-americanos e do leste europeu a solução para o equilíbrio de sua balança comercial.

Sendo assim, criou-se em setembro de 1934 o “Neuen Plan”, buscando assim unir as importações alemãs a uma elevação das exportações. Para que isso acontecesse, foi elaborado um conjunto de diretrizes e modalidades de comércio compensado e de reciprocidade. Como a Alemanha não dispunha de reservas cambiais para a aquisição de matérias-primas em bases monetárias, criou-se o sistema de marcos compensados (também conhecida por marcos bloqueados). Este sistema não envolvia dinheiro, mas sim valores atribuídos aos produtos negociados, onde cada uma das partes se comprometia a importar um valor “X” de determinado produto em troca da exportação do mesmo valor de outro produto.

O Brasil, por seu lado, também tinha seus interesses, notadamente o de escoar os excedentes da produção local e na compra de produtos tecnológicos, maquinário industrial e equipamento bélico, vendo na Alemanha uma grande oportunidade comercial. Ao aceitar os termos da política de compensação alemã, o Brasil firma comércio com um novo mercado, mas ao mesmo tempo se vê obrigado a adquirir os produtos produzidos por este.

O que pode soar como uma dependência nacional aos interesses alemães é, na verdade, uma forma de interligação entre as economias dos dois países. Este sistema “comercial tornava quase uma condição sine qua non que os possíveis parceiros comerciais da Alemanha tivessem uma economia, em grande medida complementar à economia alemã”[2], onde o comércio entre o dois países seria relativamente equilibrado, beneficiando ambas balanças comerciais e evitando possíveis conflitos.

As relações comerciais entre Brasil e Alemanha desenvolvem-se em tal magnitude que em 1937 o país latino ultrapassa os Estados Unidos no volume de algodão exportado para os alemães. É válido salientar que o crescimento da exportação de algodão tem início em 1934, quando os estoques alemães ficam reduzidos, fazendo com que houvesse a necessidade da busca de novos fornecedores além dos EUA. Neste contexto o Brasil desponta como grande fornecedor desta matéria prima que é de suma importância para a indústria bélica, uma vez que o algodão é utilizado desde a produção de fardamentos até munições.

Porém o algodão não era o único produto de exportação brasileiro para a Alemanha. O governo de Berlim também importava do Brasil couros, cacau, carnes, borracha, arroz, tabaco e outros tipos de gêneros alimentícios e matérias-primas. Embora os marcos compensados limitassem a utilização do capital advindo das exportações, traziam para o Brasil divisas em moedas estrangeiras as quais o país tanto necessitava.

Comercializar com a Alemanha era muito mais seguro, estável e vantajoso para o Brasil do que o comércio com os EUA. Os Estados Unidos eram praticamente autossuficientes em gêneros agrícolas e minerais, a principal pauta de exportação brasileira. Assim, o governo americano tinha condições de pressionar o governo brasileiro, já que os itens comprados por estes eram de fácil obtenção no próprio território norte americano como também em outros parceiros comerciais.

Já a Alemanha não possuía outras formas de obtenção de matéria-prima que não fosse o comércio internacional, e desta forma a política de compensações fortalecia a economia alemã, uma vez que o valor gasto na aquisição de produtos primários voltava à economia do país na forma de lucros advindos da exportação de gêneros manufaturados para os países fornecedores.

O comércio com a Alemanha, embora impulsionasse o crescimento brasileiro, influenciando positivamente no crescimento da produção local tendo em vista a exportação para o mercado alemão, gerava uma situação bastante peculiar ao Brasil. Já em junho de 1938, o Banco do Brasil possuía uma vultosa quantia em marcos compensados, o que tornava o Brasil um credor da Alemanha. Esse excedente de moeda alemã decorria de um aumento significativo no volume de importações de matéria-prima por parte de uma Alemanha pré-beligerante.

Essa necessidade da ampliação da importação de matérias primas já em 1938 era de suma importância para o governo alemão. Havia o temor (mais tarde confirmado) de que durante a guerra a marinha inimiga fizesse um bloqueio naval, e consequentemente comercial, ao III Reich, impedindo que o país fosse suprido e, com isto, a produção industrial voltada tanto para a guerra quanto para a população civil fosse prejudicada. O ano de 1938 foi, então, uma ano voltado para a preparação para e guerra e a ampliação dos estoques de matérias-primas, principalmente as importadas da América Latina.

Muito embora ocorra uma maior aproximação do Brasil com a Alemanha, o país não deixou de manter estreitos laços comerciais com os EUA. Para os americanos o comércio com o Brasil era muito mais um assunto de caráter político-estratégico do que uma necessidade. Se por um lado a Alemanha adquiria junto ao Brasil produtos primários que serviam de matéria-prima para a sua indústria, por outro, os Estados Unidos compravam basicamente café, um produto que, para o mercado americano, era perfeitamente dispensável ou de fácil obtenção em outros lugares.

Sendo assim, o comércio com os Estados Unidos era extremamente delicado e até mesmo desconfortável para o Brasil. Não havia qualquer tipo de compensação e a balança comercial sempre pendia favoravelmente para os americanos. Embora houvesse uma enorme exportação de café, a desvalorização deste produto no mercado internacional, contrapondo-se a valorização dos produtos industrializados importados pelo Brasil, fazia com que houvesse déficit para o país latino.

 

AS NECESSIDADES DO EXÉRCITO

 

Antes de se iniciar um estudo sobre as negociações que culminariam com a aquisição de armamento alemão e americano para o Exército Brasileiro, é preciso se ter uma noção a situação em que este se encontrava quanto ao seu equipamento.

No final da década de 1930 o Ministério da Guerra encontrava enormes barreiras geográficas e de infraestrutura que o impediam de possuir um maior controle sobre suas unidades espalhadas pelo vasto território brasileiro. As dificuldades de transporte e comunicação existentes na época dificultavam, por exemplo, que houvesse um inventariado preciso sobre a quantidade e estado de manutenção dos equipamentos militares, os quais se compunham de uma miscelânea de armamentos e viaturas de diferentes procedências, épocas e, no caso das armas, diferentes calibres, o que tornava o suprimento dos mesmos um verdadeiro pesadelo logístico.

Tanto o General Góes Monteiro como o ministro da guerra, Eurico Gaspar Dutra[3], escreveram diversas cartas e relatórios endereçados ao presidente Getúlio Vargas relatando os problemas referentes ao armamento e treinamento das tropas do exército nacional. Dutra relata as deficiências e necessidades de material voltado à defesa do país, enquanto Góes Monteiro concentra-se na valorização de uma nova estruturação militar, expondo as fragilidades do exército frente ao inimigo provável.

As explanações de Góes Monteiro[4] mostram-se intimamente ligadas aos preceitos e teorias da guerra de seu tempo, onde se busca a listagem de inimigos em potencial, suas prováveis alianças e, levando-se em consideração os equipamentos disponíveis a cada uma das forças, projeta-se um possível desenrolar dos combates no decorrer do tempo. Tomando estas informações por base, o supracitado general busca um plano de defesa aliando a elaboração de uma doutrina de emprego em combate própria com a aquisição de novos equipamentos e a criação de novas unidades militares.

Para a realidade em que se encontravam Monteiro e Dutra, o inimigo em potencial não estava do outro lado do Atlântico, mas sim do outro lado do da tríplice fronteira. A Argentina, Uruguai e Paraguai são tidos como os principais inimigos em potencial. Os argentinos, devido a sua grande influência sobre os dois outros países citados, seriam o maior perigo contra as pretensões brasileiras no sul do continente americano.

A situação de atraso e despreparo do Exército Brasileiro eram marcantes. O inimigo em potencial, a Argentina, possuía um exército maior, melhor equipado e treinado que o brasileiro. Enquanto a indústria bélica argentina buscava desenvolver e produzir os seus primeiros tanks, o defasado parque fabril brasileiro não conseguia nem mesmo suprir as necessidades de munição da força terrestre local, o que tornava os estoques de munição insuficientes e precários.

Porém, muito além da falta de equipamento, a falta de treinamento do efetivo era notável. Ainda eram adotadas manobras de combate oriundas da “Missão Militar Francesa”, de 1919, baseada em defesas fixas e na concentração de grandes unidades de infantaria. A doutrina francesa, seguida a risca pelo oficialato do Exército, mostrou-se totalmente ineficaz. Foi incapaz, por exemplo, de deter a Coluna Prestes (1925-1927) e a marcha dos revolucionários de 1930.

Não havia ainda uma doutrina para o uso da recente arma blindada. Os já defasados tanks franceses Renault FT-17, adquiridos em 1921, já estavam quase todos sem condições operacionais. Os recém-adquiridos Fiat Ansaldo CV3-35, assim como os seus antecessores franceses, estavam concentrados todos na capital federal, e não na região de fronteira. Sendo assim, toda a arma blindada do exército era muito mais um utensílio de intimidação e repressão do estado do que uma arma para a guerra em si (Notar a utilização dos blindados FT-17 pelas tropas federais durante a Revolução Constitucionalista de 1932).

 

AS COMPRAS DE ARMAMENTOS

 

Mais uma vez mostrou-se mais fácil negociar com a Alemanha do que com os Estados Unidos. A explicação é simples: enquanto o governo americano se preocupava em reequipar as suas forças armadas com o que havia de mais moderno na indústria local sem ter que esconder isso de ninguém, o governo alemão precisava colocar suas indústrias para trabalhar em ritmo de guerra, camuflando a rápida expansão do parque bélico com as exportações deste tipo de equipamento para outros países. Para tal, aceitava o pagamento de até 75% dos valores através dos marcos compensados, os quais o Brasil possuía em elevada soma.

Além disso, os americanos se dispunham apenas a vender “sucata” para o Brasil, uma vez que o material ofertado era defasado e estava sendo retirado de serviço naquele exército, negando-se a negociar qualquer armamento moderno, enquanto o material alemão era novo, vindo direto da fábrica e composto por aquilo que havia de mais moderno na poderosa indústria bélica alemã.

Criou-se então um plano de reaparelhamento das Forças Armadas, a liberação dos valores para a compra de material foi feita em novembro de 1936, num total de um milhão e quinhentos mil contos de réis que deveriam ser investidos ao longo de 10 anos. Para o Brasil, era importante a possibilidade do pagamento de parte do valor total através de marcos compensados.

Vale lembrar aqui que o governo Vargas encontrava-se ainda em sua política dúbia de aproximação tanto com a Alemanha, quanto com os Estados Unidos, e as compras de material bélico não ficaram de fora desta política. Com isso, o Brasil adquiriu modernas peças de artilharia de campanha e antiaérea da empresa alemã Fried Krupp e, ao mesmo tempo, adquiriu junto ao governo americano, material de segunda-mão para a sua artilharia de costa. Ambos os contratos, tanto o alemão quanto o americano, previam a autossuficiência brasileira na produção das munições para os canhões, uma vez que se tornaria praticamente impossível para o Brasil a aquisição deste material junto aos países fornecedores em caso de guerra.

O “Grande contrato Krupp”

 

Depois de muitas negociações e reajustes de quantidade e preço, em março de 1938 foi assinado o contrato com a empresa alemã Fried Krupp, que previa a entrega de 1180 peças de artilharia (canhões e obuses) de diversos calibres, além de viaturas hipomóveis para tração, transporte de munição e da guarnição das respectivas peças, munição para combate e treinamento, direitos de produção e o maquinário necessário para a produção da munição.

Porém o contrato com a Alemanha incluía também empresas produtoras de automóveis, caminhões e tratores militares. A própria Fried Krupp estava inserida nos contratos para aquisição de viaturas, assim como a Bussing Nag Vereeinigte Nutekraftwagen, Daimler-Benz, Henschel & Sohn e a Locomotivfabrik Krauss & Comp. Deste contrato origina-se a encomenda de 646 viaturas automotoras para a tração, apoio, e transporte de munição de artilharia das peças encomendadas à Krupp.

Embora grandioso e caro (o maior contrato para aquisição de material bélico até então já feito), o contrato com as empresas alemãs ainda ficava muito aquém da real necessidade do Exército. Elas supriam as precisões mais urgentes para a defesa das regiões de suma importância para o governo: o eixo Rio-São Paulo e a fronteira com a Argentina.

Foi formada então uma comissão que, enviada à Alemanha, inspecionaria o processo de fabricação, recebimento e embarque do material fabricado, assim como os testes de tiro das versões desenvolvidas para atender aos requisitos brasileiros. Esta comissão acompanhou de perto o desenvolvimento e fabrico das peças, relatando os resultados das campanhas de testes, entrega de material, deslocamento para locais de embarque e atrasos no cumprimento dos contratos. Foi esta mesma comissão que relatou os primeiros problemas que seriam alguns dos fatores que levariam ao cancelamento definitivo dos contratos em 1942.

Por mais necessário que fosse ao Exército, o reaparelhamento da Força com base nos acordos com a Alemanha teve de ser cancelado. Tendo em vista o início da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939, o material que ainda se encontrava nas fábricas foi requisitado pelo governo alemão. O que já havia sido recebido pela comissão, encontrava-se a espera de alguma forma de transporte para o Brasil. Neste ponto fica clara a falta de recursos por parte do governo brasileiro, uma vez que não possuía verbas para pagar o transporte do equipamento militar adquirido para o Brasil. Além da falta de verbas, o transporte do material adquirido ainda sofreria mais um forte revés: o agravamento da guerra no Atlântico e o bloqueio naval à Alemanha imposto pelos ingleses.

Do total de 1180 peças de artilharia encomendadas, cerca de 64 foram entregues e 11 viaturas automotoras, do total de 646[5], foram recebidas até 1941, data do recebimento da última remessa de material adquirido junto à Alemanha. Os equipamentos adquiridos pelo Brasil, que se encontravam em depósitos, foram incorporados às forças alemãs, ficando sua reposição para quando a guerra acabasse. O que nunca aconteceu.

Compra de prateleira[6]

Como já foi dito, o Brasil recorreu aos Estados Unidos visando adquirir material para sua defesa costeira. O contrato com os americanos englobava a compra de 137 canhões destinados à artilharia de costa e data de 26 de fevereiro de 1940, muito embora as negociações tenham começado em setembro de 1939. Esta compra, como já foi dito, é de material de segunda-mão, retirado de serviço no exército americano e vendido como “ferro velho”  para o Brasil.

Porém, o mau estado de conservação e o desgaste do equipamento adquirido era tão avançado que o mesmo precisou passar por uma extensa revisão (paga pelo governo brasileiro) em empresas americanas1, sendo que muitas destas peças de artilharia foram praticamente reconstruídas dada às partes que faltavam no material adquirido, como nas adaptações feitas para sua operação no Brasil, tornando-o proporcionalmente muito mais caro que o contrato com a Alemanha, embora o equipamento americano tenha sido recebido na íntegra e o alemão não.

 

CONCLUSÃO

 

Longe de se buscar um conciso e coeso rearmamento para o seu exército, Vargas buscou aliar as necessidades locais de um reaparelhamento militar com sua política de equidistância política e econômica com as potências de sua época. Sem dinheiro no tesouro para despender em custosas compras de material bélico, apoiou-se na política de comércio compensado com a Alemanha para conseguir comprar armamento, financiando os mesmos com dinheiro das exportações brasileiras para aquele país e, ao mesmo tempo, incitou o temor por parte dos norte americanos de um alinhamento político e estratégico com o governo de Berlim, o que poderia por em risco hegemonia norte americana no continente.

A famosa astúcia varguista mais uma vez se faz presente e notável em um jogo político que não se encerra com a compra de armamento por parte do governo brasileiro no final dos anos 30, mas que culmina com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Aliados, a construção da usina siderúrgica de Volta Redonda com financiamento americano e a modernização do Exército, Marinha e Aeronáutica através do recebimento de material bélico americano durante e após a guerra.

Se a compra de armamentos junto à Alemanha possa parecer, a primeiro momento, uma total falha de planejamento em longo prazo e o excesso de dependência de apenas um fornecedor seja um risco, em um segundo mostra o quanto o governo Vargas soube lidar com uma necessidade interna, tornando-a uma questão de alcance internacional que, no futuro, beneficiaria o país.

A Alemanha não precisava, em um primeiro momento, do Brasil alinhado com seu ideário, mas sim de um fornecedor de matéria-prima para o seu parque fabril, agora dedicado à produção de gêneros bélicos. Já os Estados Unidos, temendo a necessidade de uma futura intervenção militar no Nordeste brasileiro e, buscando evitá-la, cederá às condições impostas por Vargas, como a negociação para a construção de uma siderúrgica no Brasil e o fornecimento de material bélico moderno.

O desenrolar dos acontecimentos todos nós conhecemos: Submarinos alemães iniciam sua campanha de afundamentos de navios mercantes brasileiros, o Brasil entra na Guerra ao lado dos Aliados e nós recebemos equipamento militar moderno dos americanos para combater na Itália e reaparelhar a defesa.

 

BIBLIOGRAFIA

 

ALVES, Vágner. O Brasil e a Segunda Guerra Mundial: Paradigma de Inserção em conflito total e global para países periféricos e estrategicamente importantes. In: Contexto Internacional. Rio de Janeiro. V. 21, nº 1, jan/jun 1999, p. 63.

BRASIL. Contrato firmado com autorização do Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil, entre os Ministérios da Guerra e da Fazenda e a firma Fried Krupp A. G., de Essen, Alemanha, para fornecimento de material de artilharia ao Exército Brasileiro. Rio de Janeiro: Imprensa Militar, 1938.

DUTRA, Eurico Gaspar. O problema do rearmamento do Exército. Rio de Janeiro, Imprensa Militar, 1936.

DUTRA, Eurico Gaspar. Situação atual do Exército em junho de 1940: Suas principais necessidades. Rio de Janeiro, Imprensa Militar, 1940.

GAMBINI, Roberto. O duplo jogo de Getúlio Vargas. São Paulo, Símbolo, 1977.

MONTEIRO, Pedro Aurélio de Goes. Política de Guerra. Rio de Janeiro, Imprensa Militar, 1938.

SEITENFUS, Ricardo. “O difícil aprendizado do nacionalismo. As relações brasileiras com a Itália e Alemanha, 1930-1942”. In: A Revolução de 30 – Seminário Internacional. Brasília, Ed. Universidade de Brasília, p. 625-643.

 

 



1 Graduando em História pela Universidade Federal do Ceará

2 ALVES, Vágner. O Brasil e a Segunda Guerra Mundial: Paradigma de Inserção em conflito total e global para países periféricos e estrategicamente importantes. In: Contexto Internacional. Rio de Janeiro. V. 21, nº 1, jan/jun 1999, p. 63.

[3] DUTRA, Eurico Gaspar. O problema do rearmamento do Exército. Rio de Janeiro, Imprensa Militar, 1936.

[4] MONTEIRO, Pedro Aurélio de Goes. Política de Guerra. Rio de Janeiro, Imprensa Militar, 1938.

[5] BASTOS, Expedito Carlos Estephani. Primórdios da Motorização do Exército Brasileiro 1919 a 1940 (Parte II). UFJF

[6] Compra de Prateleira ou de Oportunidade é o termo utilizado para compras de itens de defesa novos que já estejam prontos para entrega ou de segunda-mão.


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6 comentários

  1. Muito boa a matéria. Como conseguir com o autor autorização para o uso dessas fotos?

  2. Caro amigo

    Todas as fotos do SdKfz foram tiradas pelo meu pai em Fernando de Noronha. Eu liberei as foto para um artigo do Expedito desde que fosse dado o devido crédito, como realmente ocorreu. Gostaria de saber como você teve acesso as fotos.

    Cordialmente

    Jorge

  3. Olá,
    Muito interessante o material, inclusive a série maior das fotos do Sdkfz. Estou produzindo um livro para o Min da Defesa onde estará incluída a epopéia de Fernando de Noronha. Você pode conhecer mais no Face https://www.facebook.com/osheroisbr e no http://issuu.com/jhbrs11/docs/apresenta____o_geral_libertadores_v
    Por favor entre em contato livrolibertadores@gmail.com
    abraço e novamente parabéns!

    joão Henrique Barone
    Diretor/Editor

  4. Iury Gomes Jatai /

    Olá,

    Respondendo à pergunta do amigo Jorge:

    Jorge, as fotos do Sd.Kfz.7 foram conseguidas na internet, estando elas disponibilizadas em sites cujo assunto principal é modelismo. Nestes sites não havia nenhuma menção aos créditos das fotos, por isto não foram postadas.

  5. Excelente o artigo acima o que nos dá mais subsídios sobre as negociações para a compra de material belico da Alemanha, principalmente a questão dos canhoes costeiro que não havia um documento demonstrando quandos canhoes efetivamente haviam sido entregues. Dos 1180 apenas 64.
    Vou colocar no site esse artigo que é de suma importancia histórica. Os americanos como sempre a nos vender sucatas. Resto de guerra material cansado de guerra.
    ainda não aprendemos a ser independentes em questões militares.
    Abraço a todos.

  6. Tavares /

    Exelente materia ,parabens !

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