Nota de Falecimento: Eliseu de Oliveira

        Nascido em São José dos Campos/SP – filho de Agenor de Oliveira e Trindade de Oliveira, Eliseu cumpriu o serviço militar por dois anos no 4° Regimento de Infantaria de São Paulo no final da década de 30. Entre este período que antecede o declaração de guerra do Brasil para com a Itália e Alemanha, Eliseu retornou a São José assumindo a função de balconista (Silva,2011), no Bar Paulistano, de propriedade de Agenor Fonseca, e seu pai, Agenor de Oliveira.
O Bar Paulistano era o ponto de reuniões dos políticos da cidade, muitas vezes os rumos da São José eram decididos nas mesas do Bar Paulistano (Valeparaibano, 27/04/1972). Amante da vida no campo, Eliseu muda-se para o Bairro do Sertão, na zona rural da cidade, e em parceria com seu primo José Bráulio estabelece um bar naquela localidade. Retornava a cidade para realizar compras, neste ínterim ficava a par dos assuntos correntes da cidade, entre eles a guerra passa a fazer parte da pauta de reuniões do Bar Paulistano a partir de 1° de setembro de 1939. Com certo receio da participação do Brasil na guerra, Eliseu assistia a contra-gosto as calorosas discussões dos amantes do tema, entre eles seu pai, Agenor de Oliveira, defensor ferenho dos Aliados. Durante as manifestações populares de repulsa aos ataques dos submarinos germânicos aos navios mercantes em 1942, Eliseu estava convicto de sua convocação. Foi convocado em agosto de 1942.
Eliseu embarcou no primeiro escalão da FEB em junho de 1944. Integrando o 1° batalhão do 6° Regimento de Infantaria, atuou na 3ª Compania em missões e ocupação dos territórios italianos conquistados pela vanguarda da FEB no Teatro de Operações da Itália. No dia 23 de setembro de 1944 foi batizado a ferro e fogo na ocupação do Monte Valimona. Sua atuação pessoal na captura de cinco alemães escondidos em uma residência, lhe rendeu a Cruz de Combate de Primeira Classe, premiação entregue apenas aqueles que realizavam as maiores façanhas.
As amizades feitas na Itália foram verdadeiros tesouros para o pracinha Eliseu. Os irmãos Remo e Tosca, de Chiatre, dona Maria, de Piazzano, e muitas “signorine” que representavam aos pracinhas o ideal de mulher italiana. Particularmente, Eliseu não se privou dos relacionamentos amorosos colecionando algumas histórias amorosas, mas foi em San Casciano que Eliseu conheceu seu grande amor de guerra. Chamava-se Oreana, vítima de guerra, perdeu os pais nos bombardeios Aliados, vivia sob a proteção de Léo, um ancião de San Casciano. A 3ª Cia recebeu a ordem de se deslocar para a linha de frente, Eliseu separou-se de sua amada, que não tornaria mais a ver (Silva,2011).
Em 28 de outubro, Eliseu participou das operações de tomada de Lama di Sotto e San Quirico, atuando na conquista de Barga juntamente com o 7° grupo tático da 3ª Cia. Composto de 17 homens, o 7° grupo tático atuava na defesa de San Quirico, mas na noite chuvosa de 31 de outubro, toda a 3ª Cia havia sido cercada pelas forças alemãs (Mascarenhas,1947). Durante a ofensiva nazista, o 7° grupo tático permanecia inerte, sem reação, sob a proteção de uma residência. Eliseu e o soldado Waldemar voluntariaram-se a fim de pedir ajuda. Foram orientados pelo capitão Atratino Cortes Coutinho a permanecerem sob sua proteção, mas devido ao juramento de guerra feito sob a bíblia, Eliseu e Waldemar retornaram para junto de seus companheiros de guerra do 7° grupo. Neste episódio, Eliseu assistiu a morte de seu amigo Vicente Batista, de São Francisco Xavier, vítima de uma rajada de metralhadora. Acompanhou o sofrimento de seus companheiros feridos em combate, entre eles José Octaviano Soares, vulgo Noronha, de Campinas, José Rufino, figura de destaque em Caçapava e Amilton da Silva Costa, de Mogi das Cruzes. Os pracinhas do 7° grupo resistiram à ofensiva alemã até o fim de suas munições. Foram aprisionados e seguiram em marcha ao norte, para o campo provisório de Castel Nuovo.
Sem nenhuma refeição, os brasileiros permaneceram sob regime de fome de 31 de outubro até o dia 16 de novembro. A fome e os trabalhos forçados marcaram a passagem dos pracinhas como prisioneiros de guerra. As refeições constituíam-se de pequenas porções de pão preto, marmelada alemã, sopas ou pedaços de salsicha, servidos uma vez ao dia, algumas vezes em intervalos de dias de jejum absoluto. Entre os trabalhos forçados, havia o serviço de padioleiros ou trabalhadores na reparação das estradas bombardeadas (Silva,2011).
No campo de prisioneiros de Mantua, na Itália, as condições de vida tornaram-se cada vez piores. Os brasileiros dividiam as celas com um grande número de prisioneiros das mais distintas nacionalidades. A refeição era constituída de uma sopa de carne de cavalo apodrecida (Motta,2001), a água era escassa, e o frio era constante, pois o prisioneiro de guerra não dispunha de agasalhos adequados para enfrentar o inverno europeu. Para sobreviver, os pracinhas dormiam todos juntos, apenas o calor humano lhes permitir sobreviver.
Eliseu e seus companheiros de guerra foram transferidos para o campo de concentração da cidade de Moosburg, na Alemanha no dia 5 de dezembro de 1944. Na viagem para Moosburg, amontoados nos vagões do trem, os prisioneiros dividiam uma caixa forrada de palha e areia como sanitário. Durante o trajeto, os prisioneiros se amontoavam no campo superior do vagão, pois a caixa transbordou de fezes. Com o tempo, todo o vagão ficou repleto do charco das fezes até os tornozelos dos prisioneiros, tornando o ar irrespirável (Silva,2011).
O campo de Moosburg era conhecido como Stalag VII A, neste local Eliseu conheceu Amynthas Pires de Carvalho. Ambos eram companheiros de beliche, e conversavam muito sobre suas alegrias e amarguras (Motta,2001). Em sua memória, Eliseu não deixa de elogiar seu amigo Amynthas, responsável por estimular seu animo diante das dificuldades.
A fuga do Stalag VII A era uma missão de risco de vida ou morte. Torres de vigilância, cercas, guardas armados compunham a segurança interna. Na parte externa, uma tropa permanecia sempre vigilante junto com sua matilha de cães. Esperançoso em sentir o gosto da liberdade, Eliseu sempre se voluntariava para realizar os trabalhos forçados fora do campo de concentração. Trabalhava na retirada de cadáveres dos escombros das cidades alemãs bombardeadas pela aviação Aliada.
Na manhã do dia 29 de abril de 1945, Amynthas anunciou a Eliseu a liberdade, que podia ser vista ao horizonte diante da marcha das tropas do VII exército norte-americano. Durante a resistência do Stalag VII A, grande parte das forças armadas alemãs haviam se retirado para a defesa desesperada da capital Berlim, apenas os oficiais SS permaneceram no campo. Entrincheirados em diversos vagões ferroviários, as tropas SS declararam a rendição de Moosburg depois de quatro horas de luta.
Eliseu se recuperou do regime de racionamento alimentar no Hospital Militar em St. Vallery. Retornou para junto de seus companheiros do 1° batalhão do 6° RI em meados de maio de 1945 (Silva,2011). Nesta altura a guerra havia chegado ao seu fim, e os pracinhas permaneceram por um curto período como tropa de ocupação do território italiano (Castello Branco,1960). Seus amigos do 1° batalhão não se conterão de alegria, chegando ao ponto de Eliseu permanecer com as costas e as mãos doendo de tantos abraços, pois todos acreditavam que estivesse morto. Esta emoção se repetiu mais intensamente no reencontro de Eliseu com seu pai, Agenor de Oliveira, no desfile de retorno aos pracinhas na Avenida Rui Branco, no Rio de Janeiro em 18 de julho de 1945.
Eliseu retornou traumatizado pela guerra, segundo ele “estava meio tonto sem saber o que fazer”, pretendia descansar por muito tempo antes de retomar sua vida civil. Era atormentado pelas lembranças da guerra, dizia ele: “Viva eu cem anos, eu nunca esquecerei o que foram Mantua e Moosburg […] E se tento volver os dias anteriores ao conflito, o campo de concentração se interpõe martelando-me as têmporas […]” (Bondesan,1947). Esperançoso em vislumbrar seu esforço de guerra e de toda FEB como exemplo para o país, Eliseu é surpreendido por uma grande desilusão. Eliseu encontrou uma população hostil e cética para com os pracinhas, duvidavam do valor e esforço de guerra dos pracinhas na Itália, criando diversas calunias sobre a atuação da FEB na Europa. Outro aspecto de sua desilusão foi à falta de políticas públicas em auxílio aos ex-combatentes. Diante desta revolta, Eliseu conclui que a guerra foi em vão.
De certa forma, Eliseu encontrou outra guerra no Brasil: uma guerra contra o esquecimento (Silva,2011). Para Roney Cytrynowicz, os brasileiros nunca se sentiram agentes participantes da Segunda Guerra, para a grande maioria, a guerra permanecia na Europa, estranha a realidade brasileira (Cytrynowicz,2002). Segundo Skidmore, a FEB tornou-se motivo de preocupação para a ditadura Vargas, devido à ironia de ser um exército defensor da democracia em um país de ditadura (Skidmore,1969). A inibição policial de grupos de pracinhas em vias públicas, a proibição do uniforme da FEB (Brayner,1968), demonstram a intenção em “apagar” a história da FEB da memória nacional. Em justiça aos pracinhas brasileiros pela difamação de sua imagem como combatentes da Força Expedicionária Brasileira, Eliseu concede seu depoimento ao jornalista Altino Bondesan, de São José dos Campos. Suas memórias foram publicadas em crônicas semanais no Jornal de São Paulo no segundo semestre de 1945. Em 1947, o trabalho jornalístico de Bondesan lhe rendeu a publicação do livro: Um pracinha paulista no inferno de Hitler.
O livro: Um pracinha paulista no inferno de Hitler, permaneceu esquecido por mais da metade do século. Após a publicação do livro, Eliseu de Oliveira adotou o regime de silêncio absoluto, protegido por seus familiares este pesquisador compreendeu o seu sigilo e nunca o entrevistou. Utilizando o livro publicado por Bondesan publicamos um trabalho de conclusão de curso na Universidade do Vale do Paraíba em 2011, intitulado: Memórias de um prisioneiro de guerra: uma análise história da participação do joseense Eliseu de Oliveira na Segunda Guerra Mundial.
Eliseu de Oliveira faleceu em 1° de janeiro de 2012 na cidade de Santos, sem poder vislumbrar os frutos de seu trabalho retornar depois de sessenta e cinco anos de “esquecimento”.
Orientadora: Profª Drª Valeria Zanetti.

Referências Bibliograficas:
– BRAYNER, Floriano de Lima. A verdade sobre a FEB – Memórias de um chefe de Estado-Maior na Campanha da Itália. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
– BONDESAN, Altino. Um Pracinha paulista no inferno de Hitler. São Paulo: Bonalume, 1947.
– CASTELLO BRANCO, Thomaz. O Brasil na II Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1960.
– CYTRYNOWICZ, Roney. Guerra sem guerra: O cotidiano e a mobilização de São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Geração Editorial, 2002.
– MORAES, João Baptista Mascarenhas. A FEB pelo seu comandante. São Paulo: Progresso Editorial, 1947.
– MOTTA, Aricildes. História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial. Tomo 8. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2001.
– SILVA, Douglas de Almeida. Memórias de um prisioneiro de guerra: Uma análise história da participação do joseense Eliseu de Oliveira na Segunda Guerra Mundial. São José dos Campos: Trabalho de Conclusão de Curso/História. Universidade do Vale do Paraíba, 2011.
– SILVA, Douglas de Almeida. Guerra contra o esquecimento: Um pracinha da Força Expedicionária Brasileira na busca por sua identidade social (1939-1945). São Paulo: I Seminário Internacional NEHO 20 anos – História Oral: Identidade e compromisso. Universidade de São Paulo, 2011.
SKIDMORE, Thomaz. O Brasil de Getúlio a Castello Branco (1930-1964). Rio de Janeiro: Saga, 1969.

Fonte impressa:
Jornal O Valeparaibano, São José dos Campos, 27 de abril de 1972, n° 4918.

Colaborador: Douglas De Almeida Silva lobdas@yahoo.com.br


COMPARTILHE ESSE ARTIGO!

Facebook Twitter Email Plusone



VEJA ALGUNS ARTIGOS QUE POSSAM LHE INTERESSAR!

1 comentário

  1. isalete leal /

    Mais uma estrela brilhando na Constelação da FEB.

Trackbacks/Pingbacks

  1. Depoimentos de pracinhas de São José dos Campos | Portal FEB - O Portal da Força Expedicionária Brasileira - [...] Nota de Falecimento: Eliseu de Oliveira [...]

Deixar um comentário

WordPress Blog