José Bernardino de Souza da Cia de Canhão anti-carro do 1º RI

A história de um pracinha

As Minas Gerais forjaram histórias, tradições, riquezas, mas também forjaram homens de valor e de grandes aspirações.

Numa casinha modesta, encrustada em uma fazenda de gado na então pequena cidade mineira de Juiz de Fora, em 2 de outubro de 1920, a cozinheira Sofia e o lavrador Sebastião trouxeram ao mundo um desses homens de valor: José Bernardino de Souza.

O menino cresceu com saúde, energia e senso de responsabilidade, tornando-se sustentáculo da mãe e dos irmãos pequenos após a morte prematura do pai.

A família enlutada, buscando melhores condições de vida, vagou pelo interior até se fixar em Pompéia, no Estado de São Paulo, onde José Bernardino de Souza conseguiu o digno emprego de pintor de paredes. Nos finais de semana, deixava fluir sua paixão pelo futebol, sendo o craque de bola conhecido como Procópio nos anos de 1930.

Os irmãos estudaram, cresceram, se empregaram, se casaram, sempre com o apoio daquele irmão vibrante, ativo e trabalhador.

Porém, como muitos jovens nascidos nas primeiras décadas do século XX, o inquieto José Bernardino de Souza tinha o sonho de ser um soldado da Pátria para defender o Brasil a qualquer custo.

Por isso, sob o manto desse ideal, alistou-se voluntariamente no Tiro de Guerra de Três Lagoas, à época no Estado de Mato Grosso, juntamente com outros amigos de Pompéia, entre eles Oswaldo Lellis, seu parceiro de futebol que veio a falecer em combate nos campos da Itália.

O Grupamento do qual ele fazia parte foi incorporado à 2ª Companhia do 33º BC do Exército. Os amigos de Tiro de Guerra, com a veemência e a irreflexão da juventude, sonhavam empolgados com as batalhas que lutariam, se um dia a guerra se abatesse sobre o Brasil. Até então a incursão da FEB Força Expedicionária Brasileira no conflito ainda era apenas uma possibilidade.

Animado com a rotina militar, José Bernardino de Souza, que continuou com a alcunha de Procópio, já frequentava o Curso de Cabos, quando começaram as convocações para a FEB. E o jovem Procópio não hesitou e, não obstante a apreensão de sua mãe Sofia, com quem se correspondia semanalmente por carta, apresentou-se como voluntário para integrar a Força Expedicionária Brasileira.

Após realizar exames físicos preliminares em Campo Grande, o Soldado José Bernardino de Souza aguardou com ansiedade a convocação. Para sua grata surpresa, ele foi enviado para o Rio de Janeiro para integrar a célebre e almejada Companhia de Canhões Anticarro.

Chegado ao Rio de Janeiro, José Bernardino de Souza se encantou com a grandeza do mar. As surpresas se sucediam: as luzes da cidade grande, a circulação intensa de veículos, o transporte público, tudo novo, muito diferente da vida pacata em Pompeia. Também conheceu gente de todo o Brasil que acorreu para compor a FEB. Eram jovens com sotaques engraçados, costumes, crenças, lendas, histórias de vida diferentes. Enfim, parecia que a Guerra seria uma experiência interessante.

Embarcaram para a Itália em 1944 em dois navios americanos USS General Mann e USS General Meigs, e os soldados foram integrados às rotinas de bordo, de modo que a viagem seguiu tranquila. Aquelas jovens almas ainda não entendiam o que as esperava. Até que, após cinco dias de viagem, o navio em que o Soldado José Bernardino de Souza começou a ser acompanhado por submarinos alemães, o que gerou tensão e receio. Mas eles estavam escoltados por destroieres e aviões, que lançaram bombas de profundidade e conseguiram afastar os submarinos. O susto passou.

Enquanto comemoravam aquela frágil vitória, um soldado morreu a bordo de causas naturais e o corpo foi lançado ao mar numa cerimônia tocante.

Diante dos olhos estupefatos do Soldado José Bernardino de Souza, colocaram o corpo dentro de um saco branco. Amarraram um peso ao corpo enrolado. Uma tábua foi inclinada por uma manivela. Foi tocado o soturno toque de silêncio. O corpo caiu no mar e afundou rápido.

O inexperiente José Bernardino de Souza, com o coração apertado, nunca havia imaginado que se jogavam os mortos ao mar. Abordou um Tenente, de quem se tornara amigo desde o Rio de Janeiro, perguntando porque não haviam levado o soldado morto para sepultar em terra. O Tenente, compreendendo a simplicidade do soldado, respondeu que quando um soldado morre em um navio há mais de 48 horas de distância da terra firme, o corpo pertence ao mar. É uma tradição naval.

Esse foi o primeiro contato com a morte. Aquela imagem do corpo afundando e ficando para trás, no rastro do navio ficaria para sempre na mente do Soldado José Bernardino de Souza. Ainda hoje, aos 93 anos, ele lembra daquela cena com clareza.

Passada a depressiva experiência, os soldados tornaram às suas rotinas. A viagem se prolongava, porque o navio não podia seguir em linha reta para não deixar rastro na água, navegando em ziguezague, 15 minutos a bombordo, 15 minutos a estibordo. A embarcação guardava uma distancia de segurança do outro navio, também por questões de segurança.

A melhor hora do dia era quando os soldados podiam se reunir no convés superior para conversar e olhar o mar até às 9 da noite, quando soava o toque de recolher. Eles não podiam acender cigarros após o anoitecer para manter o blackout e garantir que eles não fossem rastreados.

Depois de 16 dias de viagem, a chegada ao Porto de Nápoles foi impactante, em face da imagem de destruição e ….. Os alemães haviam invadido a cidade nas semanas anteriores. Quando foram rechaçados pelos Aliados, sem tempo para retirar os navios, bombardearam o que puderam para afundá-los e inutilizar o porto.

Os soldados brasileiros tiveram que caminhar por uma ponte improvisada pelos americanos até terra firme e dali seguiram em barcos menores em direção à cidade de Livorno. Foram três dias de viagem e a embarcação pequena jogava muito ao sabor das ondas e os brasileiros enjoavam e sofriam muito.

Depois da penosa viagem, chegaram aos arredores de Livorno, onde acamparam próximos ao Rio Arno e montaram o campo para instrução, treinamento e adaptação ao clima, que esfriava mais e mais, dia após dia.

O Soldado José Bernardino de Souza nunca havia sentido um frio como aquele, apesar de a neve ainda não ter aparecido, e a farda dos soldados brasileiros estava longe de ser apropriada para aquelas temperaturas tão baixas. Os uniformes cedidos pelos americanos, mais apropriados ao clima de frio intenso, demoraram muito a chegar.

Enquanto isso, os soldados brasileiros, para se aquecer, improvisavam fogueiras colocando pedras dentro de latas vazias, despejando gasolina dos jipes e viaturas e ateando fogo. O artifício funcionava para aquecer as noites geladas, mas os soldados que se aproximavam muito das fogueiras, sem perceber, ficavam com o rosto escurecido pela fuligem do combustível queimado. Isso rendia estórias engraçadas que animavam aqueles homens que já começavam a sentir saudade de sua terra e de seus familiares.

As condições do acampamento não eram nada boas. Além do frio, não havia banheiros e chuveiros convencionais. Havia latrinas e os soldados tomavam banhos diários com a água aquecida que caía de canos instalados num barracão. O piso de terra estava sempre enlameado e os coturnos umedeciam e ficavam mais pesados. Foram dias difíceis.

O acampamento foi mudando de lugar, de cidade em cidade, Livorno, Pisa, Lucca, Pistoia, Monte Vitorino. Mas sempre nas mesmas condições precárias. O frio se intensificava.

As coisas só foram melhorar quando o 1º Pelotão da Companhia de Canhões Anticarro, ao qual o Soldado José Bernardino de Souza pertencia, passou a ocupar um convento em Porreta Terme.

Agora, sim, eles começaram a entrar em ação de verdade.

O Soldado José Bernardino de Souza passou a sair em patrulhas de apoio à Infantaria e aos Fuzileiros, portando bazucas, onde os canhões de grande porte não conseguiam chegar.

O batismo de fogo do Soldado José Bernardino de Souza foi em um lugar chamado Torre de Nerone, quando tiveram que enfrentar alemães que estavam posicionados no alto. O combate durou muitos dias. Os soldados se alternavam em turnos, atacando sem cessar, atirando de baixo para cima, ganhando terreno, até conquistar a posição, com os alemães batendo em retirada e deixando diversos mortos para trás.

Não houve mais descanso para os pracinhas brasileiros.

As batalhas se sucediam.

Depois da Torre de Nerone, partiram para o ataque de Bombiana e, na sequência, atacaram o Monte Castelo e Monte Belvedere. Na memória do Soldado José Bernardino de Souza, a tomada do Monte Castelo foi a batalha mais longa e mais sangrenta que ele imagina ter visto. Ele viu muitos de seus amigos de rancho perecerem dolorosamente.

Foram noites e dias de intenso combate. Certa tarde, a patrulha composta pelo Soldado José Bernardino de Souza, um Tenente e mais cinco ou seis companheiros conseguiu alcançar uma posição avançada para espionar as ações inimigas. Mas vieram rajadas seguidas de metralhadora zunindo sobre as cabeças dos soldados brasileiros. Os soldados se abaixaram à beira de um barranco e ficaram abrigados dos tiros, mas não podiam se levantar nem sair do lugar. A noite chegou e os alemães não cessavam o ataque a cada movimento que percebiam atrás do barranco. As pernas dormiam, a cabeça doía, a ração acabaria em poucas horas, o desespero começava a tomar conta daquelas almas, quando uma outra patrulha conseguiu alcançá-los, já no raiar do dia, e desviar a atenção dos alemães para que eles pudessem sair do barranco e encontrar outra posição.

Mas foi em Monte Campi Bienzo que o Soldado José Bernardino de Souza teve uma das experiências mais contundentes: seu amigo de Pelotão, o Soldado Aquiles Brasil, foi atingido por uma granada, perdendo uma perna e parte de um braço. O socorro foi o mais imediato possível, sendo que o Soldado José Bernardino de Souza ajudou os padioleiros colocarem o Soldado Aquiles na maca, segurando em sua mão para transmitir força e esperança, mas ele viu que os ferimentos eram muito graves. Aquiles desceu por uma espécie de bondinho, localizado na parte de trás do Monte Campi Bienzo, protegida do ataque inimigo, mas faleceu no trajeto. No dia seguinte, o Comandante do Pelotão comentou com o Soldado José Bernardino de Souza que chegou um pacote do Brasil, enviado pela mãe do Soldado Aquiles Brasil, contendo luvas, gorros e cachecol, tudo na cor verde. Seria aquele o último agrado que ela faria para o seu amado filho.

Isso aconteceu na Semana Santa de 1945.

Vencida aquela batalha, o Pelotão seguiu para Castel d’Aiano e depois para Montese, onde uma luta sangrenta ceifou muitas vidas, entra elas a de Oswaldo Neres, um dos cinco amigos da cidade de Pompeia que forma para a Itália.

Asseguradas as posições conquistadas, seguiram para Zocca e São Damazio, localizadas nos Apeninos, tendo em mira conquistar as cidades que ficavam logo abaixo, no vale do Pó.

Dali em diante as coisas começaram a se amenizar. Os civis italianos ansiavam pelo fim da Guerra e estavam desiludidos com os desmandos de Mussolini, de modo que recebiam os soldados brasileiros com muita festa e alegria.

Eles já não combatiam com frequência. Apenas faziam o reconhecimento do terreno, sondavam os vilarejos, patrulhavam, montavam guarda e eventualmente se ocupavam de prendar e transportar prisioneiros alemães ou colaboradores do nazismo.

Os prisioneiros eram alocados em grandes áreas cercadas, como um campo de futebol que foi bombardeado e sobraram somente os muros e galpões de fábricas destruídas.

Dias, semanas, meses se passaram nessa rotina. O Soldado José Bernardino de Souza teve notícias da morte de Mussolini e, dias depois, veio enfim a boa nova do armistício. Era hora de confraternizar, chorar os mortos e esperar para retornar para a Pátria Brasil, com o sentimento de dever cumprido a acalentar os corações.

Os longos dias da viagem de volta não foram sofridos, porque os homens estavam imbuídos do entusiasmo da Vitória dos Aliados. Os navios foram recebidos com festas e homenagens intermináveis no Rio de Janeiro. Depois os soldados foram dispensados para voltar a suas cidades de origem. José Bernardino de Souza retornou a Pompeia com os companheiros sobreviventes. Eles foram recebidos com festa na cidade, desfile cívico, discursos inflamados, entrevistas para a rádio local, descerramento de placa comemorativa. Tudo muito tocante e emocionante.

Porém, como é natural, a euforia passou e a vida teve que reencontrar seu eixo.

As lembranças dos horrores da guerra e das mortes presenciadas perturbavam o sono do pracinha José Bernardino de Souza. Tomado de aflição, pediu baixa do Exército, deixando para trás direitos e memórias dos dias de luta.

Mas a vida lhe deu uma nova e irrecusável chance. José Bernardino de Souza conseguiu uma colocação como funcionário público do Estado de São Paulo, conheceu a jovem Augusta, com quem se casou naquele mesmo ano de 1946.

José Bernardino de Souza e a esposa Augusta, com pesar, deixaram seus familiares em Pompeia porque ele foi designado para trabalhar para a Secretaria de Educação, no Município de Queiroz-SP. Naquela cidade minúscula, o casal trouxe ao mundo sete filhos, criando-os com harmonia e carinho.

Quando os filhos cresceram, José Bernardino de Souza pediu remoção para a Capital para a família ter mais chances de estudo e de trabalho.

Passadas mais de quatro décadas do fim da Grande Guerra, o Exército Brasileiro deliberou por reintegrar os ex-combatentes aos seus quadros, de modo que José Bernardino de Souza foi reincorporado e alçado ao Posto de 2º Tenente da Reserva.

Hoje o Soldado José Bernardino de Souza está prestes a completar 93 anos e vive em São Paulo com sua esposa Augusta, com quem está casado há 66 anos. Lúcido e ativo, ele ainda rememora muitos casos vividos em combate, encantando seus netos e bisnetos com suas histórias.

Esse é o relato colhido da narrativa oral pelas filhas do Ex-Combatente José Bernardino de Souza, que ainda tem muita estória para contar…

 

São Paulo, julho de 2013

Marliane S. Braga e Lúcia Siqueira

filhas de ex-combatente da 2ª Guerra Mundial 


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7 comentários

  1. Marco Antonio Siqueira /

    Parabéns, vovô!!!
    O senhor merece todas as homenagens que lhe fazem não somente por ter representado nosso País num evento mundial, mas também de ser nosso querido, alegre e amado avô!!!

    Que Deus sempre ilumine seu caminho!!!

    Marco e Fernanda

  2. Marlei F C Braga /

    Parabéns a Marliane e Lucia que com muito orgulho (tenho certeza) escreveram esta narrativa, é um prazer muito grande conhecer essa família maravilhosa, e o Sr. José Bernardino, “Seu Zé” como o chamamos carinhosamente,que é um orgulho para todos nós parentes, conhecidos e principalmente brasileiros. Aí está uma homenagem mais que justa e merecida.Grande homem, marido, pai, amigo e acima de tudo sempre brasileiro.

  3. José Bernadino, tenho muito orgulho do Sr. a unica coisa que queremos do Sr. é o teu sorriso. fico pensando será que iremos esperar o fim desdes herois para lançar o filme deles?
    os jovens de hoje deveriam ter orgulho de vcs.

  4. Também conheço um herói esquecido , nome , Antonio Rufino dos Santos , participou da frente de combate e tendo por isso conquistado varias medalhas , entre elas ,,um soldo pago pelo américanos pelo treinamento e habilidade com arma branco , que recebe até hoje , sendo um dos únicos combatentes a receber . hoje com 83anos feito no dia 30/08/2013.

  5. Irineu de Brito /

    Estive na recepção aos pracinhas na estação ferroviária acenando bandeirolas do Brasil. Estava com 10 anos e estudava no 1″ Grupo Escolar de Pompéia. Posteriormente, já adolescente joguei futebol contra o Procópio em Pompéia e tbem em Queiroz que ainda não era municípipo.

  6. Tenho orgulho de ser filha dos ex-combatente Tenente José Bernardino de Souza, moradora de Itatiba-SP

  7. os melhores soldados de todas as guerras foram os humildes pessoas simples da roca das favelas pobres,eles falaram mal de vc eles riam da sua cara eles difamaram vc mais na hora da luta vc foi vencedor, meus agradecimentos aos pracinhas humildes foram eles a vencer a guerra o melhor soldado americano na SGM por incrivel que pareca era um filho da roca humilde tambem

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