Contradições Históricas da FEB: Os Três Heróis Brasileiros, quem são?

Por Francisco Miranda do Chico Miranda

cm_treshorois_03

Já em vários momentos buscamos lançar luz sobre a obscuridade histórica, que é crônica em nosso país. Parece-nos que há um plano orquestrado de esquecimento, quando se trata do estudo do envolvimento do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Longe de ser objeto de estudo dos nossos cientistas da ciência História, a campanha da FEB é referenciada unicamente dentro dos círculos das associações ou dos grupos de interesse.

Um problema também muito sério ocasionado pela falta de pesquisa abrangente, é o risco que corremos em transformar um mito em fato histórico consagrado. Não podemos admitir que qualquer fato envolvendo a FEB seja diminuído, aumentado ou alterado para satisfazer o apetite verossímil daqueles que adoram desvirtuar os acontecimentos para atender uma demanda cinematográfica ou apenas para vender livros, desapegado da realidade histórica. É a velha mania hollywoodiana e seus personagens quase semideuses da guerra.

A História da FEB e do Brasil deve considerar novas interpretações, baseada em pesquisas sérias, para que o fato histórico possa evoluir; mudando segundo a exposição de novas evidências. Isso é importante para corrigir injustiças, trazer à luz personagens históricos injustiçados ou esquecidos. A História ela é elemento vivo em constante evolução.

Com o objetivo de contribuir para o aprimoramento do Fato Histórico, observamos algumas contradições em determinados acontecimentos que envolveram a atuação da FEB e seus integrantes. Um dos mais conhecidos:

 

OS TRÊS HERÓIS:

cm_treshorois_04

Em 14 de abril de 1944, durante uma patrulha nas proximidades do Montese, três soldados Geraldo Baêta da Cruz, então com 28 anos, natural de Entre Rios de Minas; Arlindo Lúcio da Silva, de 25, de São João del-Rei; e Geraldo Rodrigues de Souza, de 26, de Rio Preto, morreram como heróis em Montese, Itália, palco de uma das mais sangrentas batalhas do conflito com a participação da FEB

Integrantes de uma patrulha, os três pracinhas mineiros se viram frente a frente com uma companhia alemã inteira. Receberam ordens para se render, mas continuaram em combate “até o último cartucho”, como se diz na caserna. Metralhados em 14 de abril de 1945, receberam, em vez da vala comum, as honras especiais do exército alemão.

cm_treshorois_01

Admirado com a coragem e resistência dos mineiros, o comandante mandou enterrá-los em cova rasa e pôs uma cruz e uma placa com a inscrição: Drei brasilianische helden, que em bom português significa “três heróis brasileiros”. Acabada a guerra, eles foram trasladados para o cemitério de Pistóia, na Itália, e depois para o Monumento aos Pracinhas, no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro.

O fato é registrado aqui, no próprio BLOG, e já motivou livros, séries e filmes.

cm_caidos_33

Explicando algumas contradições.

A questão que queremos abordar, que fique bem claro, não se trata de desmerecer ou duvidar dos méritos dos nossos soldados, pelo contrário, buscamos entender os fatos e tornar justo os personagens que estiveram envolvidos.

Vamos para alguns problemas:

O Coronel Adhemar Rivermar de Almeida, então Chefe da 3º Seção, do 1º Batalhão do 11º Regimento de Infantaria registrou o que segue em seu livro: Montese – marco glorioso de uma trajetória:

O inimigo desencadeou uma terrível barragem de fogos de Infantaria e Artilharia entre as encostas Sul de Montese, e suas orlas Leste e a base de partida (Montaurígola), conseguindo deter a ação do Pelotão Ary Rauen, que seu heroico comandante ferido mortalmente na cabeça, quando tentava neutralizar uma incômoda “lurdinha” que barrava o avanço de seu pelotão causando grande baixas em seu efetivo, cujos remanescentes ficaram detidos, sem se moverem, em meio a terrível campo minado

Tomando conhecimento das pesadas baixas ocorridas naquele Pelotão, o Dr. Yvon, acompanhado do Tenente Ary, de padioleiros e do 1º Sargento Alfeu, sargenteante de minha Companhia e que se apresentara como voluntário, iniciaram a sua longa e perigosa caminhada, cortada de campos minados e varrida incessantemente pelo fogo alemão, em busca de elementos daqueles elementos, até alcançar estreita e rala ravina, entre Motaurígola e faldas de Montese, quando foram também detidos por fortes rajadas de “lurdinhas”, morteiros e artilharia.

Logo explodiu uma granada sobre o padioleiro Geraldo Baeta da Cruz, de nossa seção de saúde, que morreu no mesmo instante. (ADHEMAR, 1985, pag. 146).

Nos registros de embarque da FEB, consta o soldado Geraldo Baeta como padioleiro, integrante do Seção de Saúde do 11º Regimento de Infantaria, o que reforça a tese de que ele estaria, conforme relato do Coronel Adhemar, indo em direção ao socorro do pelotão do Tenente Rauen. Outra evidência, é que o militar foi agraciado com a Medalha de Cruz de Combate de 2ª Classe, mérito de bravura em combate (coletivo), diferentemente do Arlindo Lúcio da Silva, recebendo o Cruz de Combate de 1ª Classe, mérito de bravura em combate (individual). Se eles participaram da mesma ação, quais os motivos da diferença nas honrarias?

Sobre o Geraldo Rodrigues de Souza, o interessante é que o local da morte do soldado é identificado como Natalina e não Montese, como os demais.

Classe 1919. 11º Regimento de Infantaria. Embarcou para além-mar 20 de setembro de 1944. Natural do Estado de Minas Gerais, filho de Josino Rodrigues de Souza e Maria Joana de Jesus, residente à rua Cajurú nº 4, Serra Azul, SP. Faleceu em ação no dia 14 de abril de 1945, em Natalina [crivo nosso], Itália, e foi sepultado no Cemitério Militar brasileiro de Pistóia, na quadra B, fileira 9, sepultura nº 98, marca: lenho provisório.

Sobre o Arlindo, temos o relato do Decreto que lhe concedeu a medalha:

“Foi agraciado com as Medalhas de Campanha, Sangue do Brasil de Combate de 1ª Classe. No decreto que lhe concedeu esta última condecoração, lê-se: No dia 14 de abril, no ataque a Montese, seu Pelotão foi detido por violenta harragem de morteiros inimigos, enquanto uma Metralhadora alemã, hostilizava violentamente o seu flanco esquerdo, obrigando os atacantes a se manterem se manterem colados ao solo. O Soldado Arlindo, atirador de F.A, num gesto de grande bravura e desprendimento, levanta-se, localiza a resistência inimiga e sobre ela despeja seis carregadores de sua arma, obrigando-a a calar-se nessa ocasião, é morto por um franco-atirador inimigo”. (Decreto de Concessão da Medalha)

Os detalhes da descrição da ação não se referem a três soldados lutando bravamente por suas vidas em combate contra uma Companhia, se referem a um ataque sobre um ponto fortificado e, com testemunhas dos fatos, que relataram posteriormente.

Por mais surpreendente que seja, outro acontecimento idêntico como o relato dos três soldados brasileiros mortos em Montese. Em janeiro daquele mesmo ano, uma cruz fora encontrada durante o avanço brasileiro, com fantástica similaridade. Portanto, as covas de Montese não seriam as únicas a guardar os corpos de bravos brasileiros que foram honrados pelo inimigo. Assim registra Joaquim Xavier da Silveira em seu livro A FEB por um Soldado:

Ao conquistarem Castelnuovo, as tropas de depararam com um testemunho da coragem do soldado brasileiro. Desde janeiro, três soldados do Regimento Sampaio figuravam na lista dos desaparecidos em combate: Cabo José Graciliano Carneiro da Silva, Soldado Clóvis Paes de Castro e Aristides José da Silva. Em Castelnuovo havia uma tosca cruz de madeira com a dística em alemão: 3 Tapfere – Brasil– 24.01.1945 (Três bravos – Brasil – 24.01.1944). Essa singular homenagem feita pelo inimigo é uma eloquente demonstração da coragem do soldado brasileiro. (SILVEIRA, 2001, pag. 177).

Conclusão

                Não são respostas que movem o mundo, mas as perguntas.

                Ocorreu o fato dos três heróis brasileiros em Montese?

Pelo relato oral dos integrantes do 11º RI, não há dúvidas sobre o fato ocorrido em Montese, contudo, não podemos afirmar de forma concludente que os personagens envolvidos no fato são aqueles consagrados pela historiografia militar. Novamente, isso não tira o mérito do sacrifício dos militares do Regimento Tiradentes mortos, seja no caso da patrulha perdida; seja em outras condições de morte violenta.

O importante seria para a História Militar Brasileira a análise dos acontecimentos e a busca por respostas; ou confirmando o nome dos bravos soldados que morreram naquele confronto, sendo sepultados por seus inimigos, ou trazendo a justiça histórica para aqueles que efetivamente estiveram nessa ação de bravura.

Trata-se de um único episódio Montese /Castelnuovo?

Como anteriormente citado, não há dúvida que trata-se de acontecimentos distintos. Contudo, é necessário que possamos expor evidências que não possibilite margem para debates e interpretações histórica erradas sobre os acontecimentos, objetivando que futuras gerações tenha a possibilidade de vivenciar a clareza histórica do passado de nosso Brasil e saber quem são seus heróis.

Quem foram os três heróis brasileiros em Montese?

De certo que há dúvidas bibliográficas levantadas sobre quem foram os três brasileiros que morreram conforme a descrição relatada do episódio: “Os três Heróis Brasileiros”. O que na prática deverá despertar o interesse de pesquisadores e de pessoas e instituições que possam financiar essas pesquisas para trazer para luz a verdade histórica sobre o fato. Os nomes desses bravos soldados brasileiros devem ser registrados de forma justa, seja os três mineiros atualmente apontado como protagonistas, ou outros que por ventura a História revele de forma inquestionável.

 “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento.”


COMPARTILHE ESSE ARTIGO!

Facebook Twitter Email Plusone



VEJA ALGUNS ARTIGOS QUE POSSAM LHE INTERESSAR!

17 comentários

  1. Rodrigues /

    Dennison de Oliveira, Francisco Ferraz, Cesar Maximiano, Mário Clóvis Aleixo, Marlene de Fáveri, Anysio Henrique Neto, Danilo Prandi, Carmem Lúcia Rigoni, Alessandro dos Santos Rosa, só pra citar alguns pesquisadores brasileiros que, nos últimos anos, se debruçaram sobre a FEB como objeto de estudo. Isso pra não citar o evento nacional da Associação Nacional de História desse ano, que tinha um simpósio inteiro dedicado ao Brasil na Segunda Guerra Mundial, com 3 dias de apresentação de pesquisas, muitas importantíssimas para a compreensão conjectural da situação onde a FEB estava inserida.

    O texto é excelente e muito pertinente (e diga-se de passagem, me será muito útil), mas esse parágrafo inicial é a típica choradeira que já está enchendo o saco. Há SIM muita gente “da ciência História” (e não só de grupos de interesse e associações) interessada na FEB e genuinamente pesquisando o tema, falta é toda essa gente reclamando na internet ir atrás de todo esse material. Não é culpa desses historiadores citados acima que gente como William Wack com aquela “pesquisa” ridícula tentando rebaixara a FEB ganha mais espaço nas prateleiras do que as pessoas que levam os expedicionários a sério, tanto como sujeitos quanto como participantes de eventos históricos dignos de uma pesquisa séria.

  2. Ana Carolina Chaves de oliveira /

    Eu sou neta de um ex combatente chamado Amphilophio Andrade de oliveira , estou sendo meramente honrada com todas essas respostas , muito obrigada !

  3. André Lima /

    Pelo amor de Deus, essas informações precisam chegar as salas de aula.

  4. André Lima /

    Pelo amor de Deus, essas informações precisam chegar as salas de aula.É por isso que temos gerações de alienados, porque nossos jovens perderam a coragem na historia, o governo não quer combatentes votando, quer pessoas vazias e sem objetivos.

  5. Conheço um ex combatente. Não sei muito detalhes sobre a vida dele e a participação que ele teve. O nome dele é João Jonas. Hj ele tem 95 anos. Tem a memória fraca já. Quero que o nome dele fique gravado e honrado aqui…

  6. Paulo Panucci /

    Independente da ordem dos fatos e Local, são Grandes Heróis e devem ser reverenciados e tidos como grande exemplos de Patriotismo, principalmente para nossos políticos, que deveriam se envergonharem pela falta de patriotismo.

    VIVA nossos Grandes Heróis da FEB !!!!

  7. Andrade /

    Tive a honra de servir no 1 Batalhão de Guardas, dando baixa como 3 Sargento, e de guardar o Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial com muito respeito. Conheci e tive longas conversas com vários HERÓIS (Pracinhas) brasileiros que visitavam o Monumento, tive um parente que também serviu na guerra, só lembro o primeiro nome Otacílio, quando morreu tinha a patente de major. Todos, principalmente os jovens deveriam conhecer o Monumento e conhecer sobre a história dos nossos verdadeiros Heróis.

  8. Aprecio textos assim. Objetivo e com bastante informação
    essencial. Parabém e continue de forma.

  9. Gil Hipólito /

    Bom Dia! Estou concluindo minha graduação em História e gostaria de elaborar meu TCC com este tema, para isso preciso do auxilio de vocês pois dependo de fontes para minha pesquisa, nomes de livros, reportagens, e artigos que venham colaborar com meu trabalho.
    Meu interesse no assunto se da por eu ser 3º Sargento do Corpo de Fuzileiros Navais, e gostaria de engrandecer os feitos militares brasileiros.

  10. ANTONIO SABINO SILVA NETO /

    Sou filho de Agostinho Manoel da Silva soldado padioleiro que se apresentou como voluntario no 11ºRI. TENDO PARTICIPADO DA TOMADA DE MONTESE. MEU PAI JÁ FALECIDO CONTOU-ME MUITAS HISTORIAS DOS 11 MESES QUE PASSOU NO TEATRO DE OPERAÇÕES NA ITALIA O QUE ME EMOCIONA E ENCHE DE ORGULHO.ESTOU ESCREVENDO UM LIVRO EM SUA HOMENAGEM E ASSIM QUE TERMINAR DIVULGAREI PARA QUE CONHEÇAM ESTE HEROI.

  11. Jean Michel Jungblut /

    Até os soldados alemãos reconheceram a bravura desses pracinhas, enquanto no Brasil a maioria das pessoas nunca ouviram falar deles. Na Itália muita

  12. Jean Michel Jungblut /

    Na Itália, eles homenageiam os três pracinhas todos os anos, até a crianças italianas sabem cantar o nosso hino nacional. É muito triste saber que no Brasil esses heróis não são reconhecidos como deveriam, pois foram eles que representaram o nosso país na segunda guerra mundial, lutando pela liberdade e pelos direitos civis que hoje nós temos.

  13. juraci serafim quintanilha /

    Só de ter recebido a honra de serem sepultados pelos próprios inimigos, já lhes confere o título de heróis,olhando para a realidade daqueles combates sangrentos, quem iria sepultar inimigos e ainda deixar uma mensagem de louvor a eles.

  14. José do o gueds /

    Com as mudanças de valores desde que um certo partido foi para a situação a nosso história ou istoria da História onde houve uma inversão de valores muito Grande não fazem nenhuma alusao ao nossos heróis pracinhas que derem as suas vidas para dezimar o nazismo. Porém não é estes fatos passados na segunda guerra porem recentemente me entristece ver alguns professores e historiadores. Mudando os fatos do que aconteceu de. 1964 até 1974 respectivamente acho tem contar e relatar os dois lados da Moeda By Jose do O Guedes. Tribologo .Teólogo e Pedagogo. The frest member Ship. Internacional Concyl Manchynery Lubrication I0003. STLE.00076

  15. Genaro Prates /

    A canção Smoking Snakes, da banda sueca de power metal Sabaton, faz referência a esses três soldados brasileiros da FEB (Força Expedicionária Brasileira) que lutaram na Segunda Guerra.

    Um trecho da canção é cantado em português pelo vocalista Joakim Brodén – “Cobras fumantes, eterna é sua vitória”

  16. A musica é sobre eles e não apenas uma referencia, na própria musica eles sao chamados de herois lendarios

  17. Contradições e não contradições na verdade, o grande problema deste período de guerra, é a falta de controle de informações (não no sentido ruim), na época eles tinham preocupação maiores de saber que o soldado específico era fulano e Beltrano, com o agravante de vários soldados com nomes parecidos ou iguais, dogtags que na época eram facilmente perdidas ou até mesmo jogadas fora antes mesmo do combate por conta de nomes. Infelizmente, é algo que dificilmente saberemos 100%

Trackbacks/Pingbacks

  1. Sabaton - Smoking Snakes | LetraCast - […] Drei Brasilianische Helden – O 3 heróis brasileiros […]

Deixar um comentário

WordPress主题