Associações de Veteranos da FEB resistem ao tempo e…

Ao descaso
Ao desinteresse.
A falta de recursos
A falta de patriotismo
A descontinuidade.
Ao abandono.
Impressões colhidas no 27ºEncontro de Veteranos da Força Expedicionária Brasileira na cidade de Santa Rosa ( RGS) de 18 a 21 de novembro de 2015.

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Componentes da ANVFEB de Curitiba.(nov. 2015)

Passados 70 Anos do fim da 2ª Guerra Mundial, contrariando as estatísticas e as previsões nefastas em relação às suas existências muitas destas Associações de Veteranos da FEB, resistem. Sem o apoio das autoridades constituídas em nosso país, abandonados à própria sorte, tornaram-se invisíveis diante da nossa população, pois em um país como o nosso, que jamais sofreu a guerra em seu próprio solo, não existe a memória e como consequência maior restou um hiato na História.

Logo no pós-guerra, os combatentes brasileiros que combateram na Itália buscaram manter-se junto dos companheiros. Sabiam que não poderiam contar com o   governo, o Exército e a comunidade. Os momentos difíceis da guerra, transformaram os jovens recrutas em soldados experimentados, homens cônscios de seus deveres de patriotas e cidadãos, laços de amizades foram fortificados, mas faltava a união.

A melhor ideia era estar protegido por uma associação, esta dialogaria por todos defendendo seus interesses. Neste sentido, foram criadas então a Associação de Ex-combatentes do Brasil criada em outubro de 1945 com sede no Rio de Janeiro. No Paraná surgiu a Legião Paranaense do Expedicionário em 1951. O Rio de Janeiro em 1963 inaugurava o Clube dos Veteranos que mais tarde adotou o nome de Associação Nacional dos Veteranos da FEB em 1969.

Buscando demarcar fatos de sua História e na iminência da perda pela aceleração do tempo, as associações serviram não apenas de pontos de encontro entre seus pares, mas o local ideal para a guarda do acervo vindo da Itália. Organizam-se então pequenos museus com estes pertences particulares “ os vestígios e documentos, as imagens, os discursos, sinais visíveis do que foi, como um dossiê prolifero a comprovar os fatos” nas palavras do historiador Pierre Nora.

Os acervos foram coletados entre os combatentes, as regionais da ANVFEB sentiram-se estimulados a prosseguir. Muitas dessas regionais jamais tiveram sede próprias, funcionaram de maneira precária e após 70 anos e pela impossibilidade dos veteranos em manterem estes acervos, muito destes foram transferidos para o Exército Brasileiro na tentativa de salvaguardar este material, mas a partir daí um fato novo cria barreiras para a visitação, ou seja a dificuldade de acesso da população às unidades militares.

Poucas associações resistiram ao tempo, o caráter militar de início afastou a sociedade civil, não houve renovação nos seus quadros, muitos presidentes se perpetuaram nas diretorias. Também a situação hierárquica nos seus quadros acabou afastando os próprios combatentes de patente mais baixa e os simpatizantes. Não houve interação com a sociedade que foi deixada de lado. Em nossos dias, desaparecida a geração civil do pós-guerra, aos jovens pouco resta do conhecimento da FEB, em nossos pobres compêndios escolares da disciplina de História, a guerra e FEB são superficialmente abordados.

Buscando esta interação perdida, anualmente a Associação Nacional dos Veteranos da FEB, reúne suas regionais em uma das cidades brasileiras nos famosos Encontros da ANVFEB. Estes Encontros funcionam como congraçamento de seus pares, mas também discutem os assuntos pertinentes a cada uma. Este ano Encontro Nacional deu-se na cidade de Santa Rosa no Rio Grande do Sul.

O Encontro em Santa Rosa no Rio Grande do Sul (a resistência)

Entre os dias 18 a 21 de novembro de 2015.

Pela primeira vez na história dos Encontros, este ocorria em uma cidade do interior. A distância para chegar ao local foi enorme, mesmo assim 9 estados brasileiros estavam presentes. A receptividade da cidade foi grande e tudo iniciou com uma sessão pública da Câmara dos Vereadores no dia 19 de novembro.

Eventos marcantes foram proporcionados pelos coordenadores apoiados pelos municípios de Santa Rosa, Santo Angelo, Porto Mauá e São Miguel das Missões. De forma carinhosa nos atenderam com seus prefeitos presentes nos atos. Há que se elogiar a equipe de recepção de Santa Rosa que não mediu esforços para as apresentações que seguiriam dia a dia, nos proporcionando momentos inesquecíveis.

Pensaram em tudo, maravilhosamente esquematizado na locomoção de um evento para outro, apresentações culturais das etnias alemã, russa e gauchesca, uma mistura de representações mescladas à cerimônia militar ocorrida no Batalhão San Martim.

Digno de nota foi o Seminário ocorrido na sede do Hotel Imigrantes onde estávamos todos hospedados, com um tema desafiador. ”O futuro e as perspectivas das Associações de Veteranos e ex- Combatentes da FEB”. Uma razoável plateia participou dos debates, onde constatou-se que as dificuldades de todos são quase as mesmas, são pontuais e dizem respeito ao desinteresse das autoridades constituídas, sejam elas municipais, estaduais ou federais não dando o apoio necessário.

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Hotel Imigrantes- Curitiba e os participantes do Seminário “ O futuro das Associações dos Ex-combatentes Brasileiros”20 de nov. 2015.

Em muitas situações os acervos encontram-se degradados, muitas sedes estão precárias ou funcionam na casa do presidente da seção regional. Fomos obrigados a admitir que tais acervos e suas regionais encontram-se no limiar do desparecimento. Não estamos conseguindo dar continuidade a estes espaços físicos, a falta de interesse é geral e reputo como motivo maior desta desestruturação a ausência dos descendentes pela causa da FEB em prol do esforço para mantê-las. Pelas estatísticas apresentadas no Seminário, acredita-se que os filhos de combatentes sejam hoje no Brasil cerca de 500 mil pessoas, pergunto: onde está esta gente? Por que não envidaram esforços pela história dos seus pais?

O resultado mais importante deste seminário, foi sem dúvida, a escrita da Carta de Santa Rosa*, um verdadeiro libelo dos anseios dos participantes do XXVII Encontro de Veteranos. Lá estão contidas observações e sugestões que dizem respeito ao futuro das associações de veteranos da FEB, bem como das nossas expectativas de um apoio mais expressivo dos diversos segmentos da sociedade brasileira e do próprio Exército. Tal documento será encaminhado em tempo ao comandante do Exército o general Villas Boas e a outras autoridades.

Nossa última atividade no Encontro de Santa Rosa foi uma visita até às Ruinas de São Miguel das Missões, o que maravilhou a todos pelo cenário e a bela catedral. Nesta memorável visita foi possível imaginar a grandeza do que foi aquele território, habitado por milhares de gentios da terra com seus mentores jesuítas. Ali foi no passado um território espanhol nos idos de 1.700. Constatamos nesta visita as dificuldades de estrutura local para receber os turistas. O museu local poderia ser melhor aproveitado e suas condições não são boas, lá estão os sinos de bronze que pertenceram às reduções jesuíticas. À noite, o prometido seria á noite um espetáculo de luzes e cores que não aconteceu, esperávamos uma “mega” produção artistica mas foi até frustrante. Há que se rever com mais atenção este sitio histórico, pensando as questões da exposição em si, da sua manutenção e meios para a visitação. Apelos fazemos aos campos historiográfico e museográfico do local. As ruínas em São Miguel das Missões constituem também um local de resistência, vamos cuidar melhor deste espaço.

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Local das Reduções Jesuíticas Localizadas nas três fronteiras – Brasil, Argentina e Uruguai.

Terminava assim o XXVII Encontro de Veteranos da FEB Foram Momentos significativos de esperança, coesão de ideias e pensamentos, acima de tudo voltados para os valores democráticos e patrióticos tão concernentes à nossa História.

*Organização da Carta de Santa Rosa.

Carmen Lúcia Rigoni, Nádia Ipaves, Irani Ipaves e Maria Emília Goulart Rosendo.

Novos Encontros e resistência.

2016 – no Maranhão.

2017 – em Curitiba.

Vamos resistindo!!

Doutora Carmen Lúcia Rigoni

Seção Regional de Curitiba- Paraná – Brasil

Email- carmenluciarigoni@gmail.com

 


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1 comentário

  1. Carmen Lúcia Rigoni /

    Nossos agradecimentos ao Portal FEB do nosso amigo Derek Destito que nos últimos anos vem prestigiando nossos escritos, sejam artigos, comunicados e convites. Eis um esforço de todos pela memória e história, quando todos nos sentimos envolvidos pela mesma causa.

    Carmen Lúcia Rigoni
    Regional da ANVFEB de Curitiba.

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