As enfermeiras baianas do Corpo Expedicionário

Domingo, 7 de Maio de 1944, Diário da Bahia, Página 3
Enfermeiras de Guerra
As que concluíram, ontem, o curso de emergência serão imediatamente convocadas

As enfermeiras e o Major Paulino Melo, diretor do curso

Realizou-se ontem à tarde, na sede do Circuito dos Militares a solenidade de encerramento do Curso de Emergência para Enfermeiras da Reserva, organizado pela 6ª Região Militar.
A cerimônia em apreço revestiu-se de brilhantismo e de incomum concorrência, notando-se a presença de exmas. Famílias e altas autoridades civis e militares.
A mesa que dirigiu a sessão foi presidida pelo Sr. General Dermeval Peixoto, Comandante da Região, que ficou ladeado pelos srs. Ten-cel Eduardo Chaves, Chefe do Estado Maior, major Paulino de Melo, diretor do Hospital Militar, Cel. Kelly, comandante da Força Pública, major João Fonseca diretor do CPOR, Dr. Alvaro Silva, diretor geral do Departamento de Educação, Dr. Antônio Simões, diretor geral do Departamento de Saúde, Dr. Antônio Uchôa, Delegado do Trabalho, cel. Mendes Sobrinho, chefe da 17ª C. Re comandantes do 18º R. I do 19º B. C. e do 5º G. A. Do. Além de outras autoridades.
Iniciando a cerimônia usou da palavra o Sr. General Demerval Peixoto que aludiu à significação daquele ato. Em seguida falaram a senhorinha Isabel Novais Feitosa, oradora oficial da turma e o Major Dr. Luiz Paulino de Melo, diretor do curso.
Da substanciosa oração do Major Paulino Melo, extraímos o tópico que se segue:
– A luta não é infelicidade nem tortura. É glória. Devemos saber lutar. Uma geração que tem a ventura de viver a epopéia contemporânea com energia e dignidade disposta à luta pelos ideais de humanidade, não é sofredora nem infeliz. Infelizes e sofredores são os que se entregam ao desânimo, os que se deixam empolgar pelo receio e pelo medo. Lutar pela Pátria não é sofrimento. É a mais nobre de todas as formas de se viver. É viver gloriosamente.

O Major Paulino de Melo foi muito cumprimentado ao concluir seu discurso.
Encerrando a reunião pronunciou algumas palavras o Dr. General Comandante da Legião. Logo depois foram servidos doces e bebidas aos convidados.
Relação dos Nomes das Novas Enfermeiras
A seguir, publicamos os nomes das senhorinhas que concluíram o curso de emergência de Enfermeiras da Reserva do Exército, obedecendo à classificação: Aracy Arnaud Sampaio, Isabel Novais Feitosa, Joana Simões de Araújo, Edelzuita de Aragão, Jandira Faria de Almeida, Lenilda Luma Campos, Edna Ferreira de Oliveira, Dalva Jaqueira, Celina de Assis Querino, Cisolina Almeida de Oliveira, Valdete Vieira Silva e Theotonia Maria de Jesus Ribeiro.
Da turma acima, três pertenciam à Cruz Vermelha da Bahia, cinco à Cruz Vermelha do Sergipe, uma à LBA, uma do Hospital Santa Isabel, uma do Hospital de Ponte Nova e uma ao Sanatório S. Jorge, destacando-se sempre, entre as mesmas a senhorinha Aracy Arnaund Sampaio que obteve o primeiro lugar, com a média final de 9,6.
Como foi feito o curso
O Curso de Emergência para Enfermeiras da Reserva do Exército foi realizado durante seis semanas, sendo ministradas aulas teóricas, práticas, instrução militar e educação física. Na parte médica, salientaram-se as aulas sobre cirurgia de guerra, epidemiologia, profilaxia e serviço de saúde em Campanha.
As aulas práticas foram ministradas no Hospital Militar da Bahia (técnica hospitalar e enfermagem)
As enfermeiras que concluíram o Curso de Emergência, serão nomeadas enfermeiras da Reserva do exército e, em seguida, convocadas para o serviço ativo. Serão nomeadas enfermeiras de terceira, podendo ser promovidas a 2ª e 1ª classe.
Ainda de acordo com o regulamento do Quadro de Enfermeiras, poderão ser designadas para servir dentro ou fora do País, em face das necessidades emergentes.
O Diretor e os Professores do Curso
O Curso de Emergência para Enfermeiras da Reserva teve como diretor o Major Luiz Paulino de Melo e como professores os capitães Cerqueira Lima e Fadigas de Souza Junior; Tenentes Hipólito Gomes de Azevedo, Carvalho Melo, Cobas Costas, Parada Beltrão e Gustavo Gomes da Fonseca.

Cidade do Salvador, Terça-Feira, 9 de Maio de 1944, Diário da Bahia

Sete jovens enfermeiras corajosas, ativas e hábeis.

No Hospital Militar o “repórter” constata os elevados interesses das baianas vestidas de branco.

Sete jovens com os uniformes de enfermeiras, achavam-se reunidas na sala do Hospital Militar, em torno de um aparelho de raios X suspenso sobre o tórax de um soldado. Quando a reportagem entrou, acompanhada pelo Major diretor, elas suspenderam alguns momentos seu trabalho e fizeram uma pose para o jornal. Seus nomes são: Aracy Arnaud Sampaio, Jandira Faria de Almeida, Teotonia Maria de Jesus Ribeiro, Edelzuita Aragão, Edna Ferreira de Oliveira, Celina de Assis Querino e Dalva Jaqueira. Enfermeiras diplomadas para a reserva do Exército no curso mantido pela VI Região, elas estão prontas para atender à convocação e seguir com a Força Expedicionária na guerra contra o fascismo.
Essas moças bahianas vivem acima e abaixo, pelos corredores do Hospital Militar, entre as enfermeiras e a sala de operações, manejando os complicados aparelhos de raios X e os instrumentos médicos. Sua vontade de aprender e sua habilidade impressionaram os médicos militares. Os soldados já estão acostumados a vê-las na faina diária, sempre solicitas e alegres. Elas são uma verdadeira expressão do espírito de luta e de sacrifício que anima o povo brasileiro.

Verdadeira Confraternização

A primeira enfermeira de guerra a falar com o repórter, atendendo ao nosso chamado, foi a jovem Jandira Faria de Almeida que adora muito no serviço de enfermagem, à parte tocante da cirurgia:
– Quero servir ao Brasil em qualquer parte da Europa. Desde que cheguei aqui no Hospital Militar, que tenho me esforçado e gostado intensamente do trabalho. As minhas colegas são muito alegres e amigas, entre nós existe uma verdadeira confraternização.

Com o mesmo carinho de uma mãe

Edna Ferreira de Oliveira vem de família do interior. Nasceu no município de Rui Barbosa e tem o mesmo espírito de liberdade do grande escritor. Começou a praticar a enfermagem no Hospital de Ponte Nova, sendo que depois teve novas práticas na Casa de Saúde de Jequié.
Edna, que sempre desejou ser enfermeira de guerra, desde menina, somente agora é que comunicou aos pais a sua formatura no curso de enfermeiras da reserva do Exército. Vivendo em casa de parentes nesta capital, ela apresentou-se voluntariamente para servir nos hospitais de sangue dos comandos brasileiros, antes dos pais nada saberem da decisão.

Não é puro farol

Já a jovem Edelzuita Aragão foi enfermeira da Cruz Vermelha. Nascida em nossa cidade, serviu durante dois anos e poucos meses no ambulatório do Canela.
– Se soubesse que esse negócio de enfermeira de guerra era puro “farol”, não estaria aqui. Digo com sinceridade que o meu maior desejo é seguir com a Força Expedicionária Brasileira para as frentes de luta.
Teotonia Maria de Jesus Ribeiro tem um período de estágio no Hospital do Pronto Socorro e é de uma grande vocação para a enfermagem. Ingressou no curso de samaritana socorrista da Legião Brasileira de Assistência. Seção da Bahia. Serviu durante um tempo considerável no Hospital Getúlio Vargas, no Canela.
Falou-nos com emoção e os olhos negros brilhando:
– Sinto-me imensamente feliz em prestar esse serviço à Pátria e cumprir o dever de uma boa moça brasileira, pois isto sempre foi o meu ideal. Desde pequena que desejo servir minha terra como enfermeira de guerra.

Uma parenta do Brigadeiro Sampaio

Encerrando a palpitante entrevista de hoje, a reportagem ouviu a enfermeira Aracy Arnaud Sampaio, de tradicional família bahiana. Nasceu em Barreiras, na rica região do São Francisco, que deu valorosos soldado à Pátria estremecida. Aracy é descendente do heróico brigadeiro Sampaio, cujo nome batizou o Regimento Sampaio, do sul do país, composto de verdadeiros combatentes brasileiros de nossa Infantaria Expedicionária.
A jovem filha de nossa democrática terra que também foi enfermeira da Cruz Vermelha, argumentou:
– Nós vamos honrar também como enfermeiras de guerra brasileiras o nome desse símbolo e bravura do soldado bahiano que é o brigadeiro Sampaio. Quero seguir no primeiro contingente do Corpo Expedicionário.

Colaboradores:

Maria do Socorro Sampaio M. de Barros, filha da Cap. Enfermeira Aracy Arnaud Sampaio socorrosmbarros@yahoo.com.br

Derek Destito Vertino derekdestito@hotmail.com


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7 comentários

  1. isalete leal /

    Parabéns Socorro, pela linda reportagem de grande valor para o enaltecimento dessa valorosas mulheres de grande coragem e bravura. Fiquei emocionada ao ler…

  2. tom sampaio /

    NÃO CANSO DE ADIMIRAR,,,VALEU SOCORRITO,,,BELO TRABALHO

  3. Mana,obrigada por tudo que vc tem feito para honrrar o nome de nossa…..

  4. Oi tia, valeu!!!
    A reportagem ficou otima e da oportunidade de nossas filhas poderem conhecer mais a grande historia da Bisa Aracy.
    beijos
    Thais Duque

  5. soledade sampaio /

    Tenho muito orgulho pelo que minha mãe foi ,obrigado mana pelo seu trabalho.

  6. Iaci Sampaio /

    Prima,parabens pela pagina das emfermeiras segunda guerra mundIal. Gloriosa e saudosa Tia Aracy se destaca: primeiro lugar na aprovacao das candidatas. Fiquei muito feliz. Beijos
    Iaci

  7. berilo marinho /

    parabens. Sou baiano e estou em busca de artigos,notas ou comentários sobre os baianos na segunda guerra. esta pagina é um grande estimulo a continuar a pesquisa. Emocionante ver mulheres com tamanha dedicação e coragem. principalmente as do interior do estado. Com emoção, PARABENS.

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