A FAB no Brasil

A FAB NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL – A AVIAÇÃO DE PATRULHA

Com a entrada do Brasil na guerra, foi necessário reorganizar as forças armadas com grande urgência. Havia carência de tudo. Armas, veículos, equipamento moderno e até mesmo uma doutrina adequada à realidade de uma guerra moderna.

Até aquele  momento, a aviação militar no país estava dividida entre o corpo de aviação da marinha e o corpo de aviação do exército. Em 1941, o Presidente Vargas assinou o decreto que criava a Força Aérea Brasileira e que ordenava que todas as aeronaves pertencentes às duas armas deveriam ser transferidas imediatamente para a nova força.

A nova força já nasceu com uma árdua missão de patrulhar a costa do país. Missão para a qual na maioria das vezes só dispunha de biplanos Waco. Aos poucos a FAB começou a receber aeronaves mais modernas das que tinha a disposição. A começar pelos AT-6 que seriam fundamentais para o adestramento de novos pilotos e também para missões de patrulha armada da costa. Ao mesmo tempo, algumas aeronaves oriundas da PANAM e da Panair do Brasil foram requisitadas para a aviação de transporte, se somando a outras vindas dos Estados Unidos como os Lockheed Lodestar e Electra. O Brasil também recebeu alguns B-25 Mitchell novos e seminovos que logo se engajaram na patrulha da costa.

O primeiro combate de um Mitchell brasileiro ocorreu em 22 de maio de 1942, quando a aeronave comandada pelos Capitães Parreiras Horta e Oswaldo Pamplona com base em Fortaleza sobrevoava a área onde alguns dias antes o navio mercante Comandante Lira havia sido torpedeado quando estabeleceram contato visual com um U-BOAT na superfície. Quando o submarino avistou a aeronave brasileira, esta foi recebida com fogo de metralhadoras pesadas. Devido a isso, o bombardeiro brasileiro desferiu um ataque com suas cargas de profundidade. Estas explodiram próximo a embarcação inimiga sem causar-lhe danos, vindo a submergir em seguida. Foi a primeira de muitas escaramuças entre os submarinos nazistas e a FAB.

Entre 8 de março e 19 de agosto de 1942, os ataques de submarinos alemães e italianos afundaram mais de 20 navios de nossa marinha mercante. É importante ressaltar aqui que o governo brasileiro até essa data havia anunciado neutralidade, apesar de ter cortado relações diplomáticas com as nações do eixo assim como todas as nações do continente em 14 de janeiro durante a Terceira Reunião de Consulta dos Chanceleres das Repúblicas Americanas no Rio de janeiro.

Durante esse período, os constantes afundamentos de navios de nossa marinha mercante e a crescente perda de vidas civis revoltaram a população brasileira que tomou as ruas para exigir que o governo tomasse uma atitude enérgica contra a agressão do eixo em águas nacionais. A pressão popular junto com a constante pressão dos americanos fez efeito e em 22 de agosto de 1942, o Brasil declarava guerra às nações do eixo.

Nesse meio tempo, a FAB já estava operando aeronaves muito mais modernas das que tinha quando fora criada. Algumas desta passariam a fazer parte da cultura aeronáutica nacional nos anos futuros. Uma destas aeronaves era o PBY-5 Catalina. Um hidroavião que apesar de ter um projeto ainda dos anos 30, era um dos melhores tipos já construídos para esse tipo de missão.

Os Catalinas da FAB foram distribuídos ao longo da costa de forma que pudessem cobrir a maior área de oceano possível com eficiência. Sendo suas principais bases Belém, Recife e Rio de Janeiro. Mas mesmo assim, os ataques em nossa costa prosseguiam apesar de que com menos intensidade devido à presença das patrulhas aéreas tanto da FAB como de aeronaves americanas estacionadas no Brasil.

Foi justamente com um Catalina que a FAB conquistou nossa primeira vitória na guerra, e é sobre esta vitória que falaremos agora.

Era mais ou menos 8 da manhã de 31 de julho de 1943 quando o PBY-5 batizado de “Arará” decolou da base naval do Rio de Janeiro para mais um dia de patrulha. No ar já havia outras aeronaves do esquadrão americano VP-74 que estava patrulhando a costa carioca naquele dia. Uma vez no ar, o “Arará” traçou rota para a região de Cabo Frio de onde iniciaria a patrulha.

Após 10 minutos de voo, chegava uma mensagem cifrada do Rio de Janeiro que dizia haver atividade submarina inimiga na área de patrulha. O Catalina era pilotado pelo então Aspirante Aviador Alberto Martins Torres e como copiloto José Carlos de Miranda Corrêa.

Antes das nove horas, o “Arará” fez contato visual com o U-199 que navegava na superfície a toda velocidade no rumo leste para o oeste. Torres deu ordens para Corrêa assumir os comandos para o lançamento das bombas e aos demais tripulantes para tomar posição nas metralhadoras de forma que na passagem criassem o maior efeito moral possível ao inimigo e deu início a um mergulho raso para o ataque.

A trezentos metros do alvo o U-199. Algo que ajudou muito no ataque foi o fato de terem o sol logo atrás da aeronave o que com certeza ofuscou a visão da artilharia do submarino que ate aquele momento se mantinha silenciosa.

O U-199 então efetuou uma curva fechada para boreste, o que o deixou em linha perfeita com a aproximação do Catalina. Foi quando a arma principal do submarino abriu fogo fazendo com que Torres realiza-se algumas manobras evasivas, mas sem sair da rota de ataque. A 100 metros do alvo as armas do Catalina abriram fogo e Corrêa lançou algumas das cargas contra o U-199 que caíram logo à frente da proa da embarcação que detonaram assim que esta passou sobre elas.

Torres deu a volta para uma nova investida contra o alvo que havia sido duramente atingido pelo primeiro ataque e cuja tripulação começou a abandonar, pois o U-199 já começava a afundar.

O “Arará” desferiu seu último ataque contra a presa moribunda que foi a pique enquanto via os poucos sobreviventes já estavam nadando no mar revolto. Torres então sobrevoou os náufragos e efetuou o lançamentos de 3 botes salva-vidas quando um PBM do VP-74 que se unira a caçada naquele momento efetuou o lançamento de mais dois. Ao todo, doze tripulantes do U-199 sobreviveram ao ataque. Entre eles o capitão do U-199 que foram capturados e posteriormente enviados para Recife onde ficariam presos até o final da guerra.

Mais tarde, tanto Torres como Corrêa se integrariam como voluntários no 1º Grupo de Caça da FAB que integrou a FEB na Itália. Na Itália, Torres se tornaria o piloto de caça brasileiro com o maior número de missões de combate da FAB. 99 missões.

Quanto ao “Arará”, a aeronave serviu na FAB até os anos 50 quando foi desmobilizada e transformada em sucata. Um triste fim para a aeronave que sob o comando de bravos pilotos brasileiros conquistou nossa primeira vitória na segunda guerra mundial e que faz parte da história da aviação nacional.

Ao longo da costa brasileira, houveram durante todo o conflito outras escaramuças entre a FAB e os U-Boat onde as B-25 e até mesmo T-6s e P-40s tiveram grande participação na defesa de nossa nação.

Já a história da participação da FAB na Itália é um capítulo emocionante que terei o maior prazer em contar em breve.

Colaborador: André Viana é comunicólogo e jornalista. Estudioso de história e plastimodelista residente em Belém-PA

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