Anjos de Branco – 2º Tenente Enfermeira Regina Cordeiro

A palavra convence! O exemplo arrasta!

Ensinar pelo exemplo.

Existe metodologia melhor para transmitir uma lição?

Era 1944 quando atravessei voluntariamente os portões do 1º Batalhão de Infantaria de Selva.

O quartel, erguido no bairro São Jorge, na cidade de Manaus, Estado do Amazonas, foi minha casa por dois inesquecíveis anos. Na época, eu havia ingressado no Exército Brasileiro para compor o corpo de alunos do Curso de Preparação de Oficiais da Reserva. Em dois anos, se aprovado, eu seria um Oficial de Infantaria.

Difícil. Intenso. Amedrontador. O curso não é para qualquer um. Ali, aprendi muitas lições que apliquei nos seis anos de oficialato. Sabedorias que se perpetuará até o último dia de minha vida. Felizmente, eu servi num período de paz. Não posso dizer o mesmo de REGINA CORDEIRO BORDALLO, que viveu numa época bem diferente. Assim como eu, em 1944, Ela atravessou os portões de uma unidade militar voluntariamente para atender ao chamado da Pátria. Não havia nenhuma obrigação de fazê-lo, mas a filha do Sr Francisco Maria Bordallo e Laurinda Cordeiro Bordallo tinha uma vocação que não podia ser desperdiçada.

Uma das lições de liderança que nunca esqueço era constantemente repetida pelos instrutores sempre que a oportunidade surgia:

– Senhores, se quiserem ter êxito no comando de seus pelotões, seja em momento de paz ou de guerra, guardem na memória a célebre frase: A PALAVRA CONVENCE! O EXEMPLO ARRASTA!

Fico imaginando a cena:

– Então moça o que deseja?

– Servir! Sou Enfermeira.

– Tem certeza disso?

– Absoluta.

– Mas é uma guerra.

– É exatamente por isso que estou me voluntariando. Minhas habilidades se encaixam perfeitamente com as necessidades do Front.

– Então seja bem vinda.

A palavra certamente surpreendeu o militar que fazia a seleção. No entanto, o exemplo deve ter impressionado ainda mais.

Regina aprimorou seu conhecimento nos Cursos da Escola “Ana Nery” do Quadro Especial do Ministério da Educação e Saúde – Serviço Hospitalar e Nursing Air Evacuation da Base Aérea de MITCHEL Field, em New York United States of America. No dia 6 de junho de 1944, Regina desembarcava em Livorno.

No Teatro de Operações, a enfermeira trabalhava com a certeza de que estava dando sua importante contribuição. Ela fazia parte de uma pequena fração da humanidade que vivia de acordo com uma filosofia simples de vida – ame e sirva ao próximo. O mundo muda com o seu exemplo, e não com sua opinião. Regina acreditava que seu comportamento poderia se multiplicar naturalmente entre uma parcela, mesmo que pequena, de pessoas que somada a ela influenciaria outra, e outra, e mais outra e assim, o efeito dominó o grupo acabaria por transformar o ambiente nos lugares em que viviam.

Regina sabia que viver é uma dádiva. Um presente de valor incalculável. Deve ser por isso que ela serviu com tanta disposição no 154th Station Hospital / 105th entre Cevitavecchia e Tarquinia e no 12th General Hospital, em Livorno.

A paraense, nascida no município de Belém – nome da mesma cidade onde nasceu Jesus, um dos maiores exemplos que humanidade já teve – deixou o Front em 20 de junho 1945, partindo de Nápoles. Desembarcou na cidade maravilhosa a 3 de julho de 1945.

Nossa heroína saiu ilesa de um palco de horror de magnitude imensurável. Os números da 2ª Guerra Mundial assustam justamente porque mostram que naquela época uma espécie de amnésia extremamente nociva tomou conta da humanidade. O bom senso perdeu o debate para intolerância.

Felizmente o caos cessou e os feitos de Regina no Teatro de Operação Europeu foram reconhecidos. A Enfermeira recebeu a condecorações de Diploma de Medalha de Campanha na Itália, concedido pelo Ministério da Aeronáutica. Casou-se depois e radicou-se na terra do Tio Sam, Estados Unidos da América.

Nada como uma boa história para nortear nossas ações. 1944, 1994, 2103, 2020 não importa a época, o lugar, o momento. Seja onde for a palavra convence! O Exemplo Arrasta!

 

Fonte de apoio e consulta:

VALADARES, Altamira Pereira. Álbum Biográfico das Febianas. Batatais – SP: Centro de Documentação Histórica do Brasil. 1976. 116p.

Colaborador:  Vanderley Santos Vieira, é Jornalista, especialista em Comunicação, Oficial R2 (Infantaria) do Exército Brasileiro, Tecnólogo em Administração de Empresas, Escritor, Pós-graduado em Planejamento Estratégico e possui o Curso de Política e Estratégia da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra. Atualmente desempenha a função de Gerente em uma Multinacional, Voluntário da Defesa Civil de Campo Grande – MS e Sócio Especial da ANVFEB/MS.

Possui as seguintes honrarias: Medalhas: de Serviço Amazônico; Mérito da Força Expedicionária Brasileira; Marechal Machado Lopes; Medalha Cruz da Paz; Marechal Cordeiro de Farias; Mérito da Força Expedicionária Brasileira da Câmara dos Vereadores de Campo Grande – MS; Mérito Legislativo de Campo Grande e Mérito Rondon – Academia de Estudo de Assuntos Históricos – MS.


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