Acervos da FEB: Contingências do seu iminente desaparecimento

Uma análise atual sobre o Museu do Expedicionário de Curitiba no diálogo com grandes historiadores contemporâneos.

“ Penso que o historiador deve estar atento a tudo o que se passa ao seu redor”

Georges Duby.(1996)

Nas últimas semanas repercutiu em nossa imprensa e pelas redes sociais algumas reportagens voltadas para o estado de abandono em que se encontra o Museu do Expedicionário de Curitiba. Criado em 1946, constituiu na época, a primeira idéia de preservação do acervo dos soldados paranaenses que haviam combatido na Itália durante a 2ª Guerra Mundial.

Carmen-Radio EducativaCarmen Lúcia e Giovane Corso Radio Educativa , Curitiba 2008 

Tal fato reacendeu a discussão em torno da ameaça de desaparecimento ou deterioração do acervo da FEB, seja pelos fenômenos naturais, pela má conservação dos equipamentos e documentos, seja pela doação de peças a outras instituições. Desta vez a denúncia demonstrando a situação caótica em que se encontra o MEXP, partiu dos jornalistas. O assunto tomou vulto ainda em março do corrente ano, um período de chuvas torrenciais em nossa cidade que acabou por danificar mais ainda o velho prédio. Os jornais distribuídos nos principais pontos de Curitiba, mostravam os problemas que envolviam diretamente a parte física e estrutural do prédio, ameaças assustadoras ao acervo lá contido.

Sobre os jornalistas:

“Jornalistas e historiadores participam conjuntamente nu mesmo empreendimento em busca de conhecimento, através, como em qualquer bom empreendimento, de uma certa divisão do trabalho. Aos primeiros caberia estudar o presente e suas incertezas, aos segundos, o passado e suas zonas  de sombra.”Mark Kravetz.(1986).

O enfoque das notícias

“Não se trata de revelações, nem de escândalos, nem de arquivos secretos postos a nu; é uma crônica de guerra, dia a dia, de uma guerra imaginária, da qual jamais nenhum historiador nos dará conta” ( Mark Kravetz) idem.

As infiltrações do prédio do MEXP iniciaram pelo telhado e uma topografia interessante proporcionou o aparecimento de plantas oportunas que tem estrangulado partes do conjunto de estátuas da patrulha que encima o prédio, tais infiltrações descem pelas paredes, atingem o piso e os carpetes velhos que não suportam mais. Resultados catastróficos que geram umidade, mofo e a descaracterização de peças tão importantes, colocando em risco todo o acervo.

Os fatos aqui apresentados foram amplamente divulgados pela Imprensa, seja ela escrita ou virtual.

O Ofício do jornalista.

A partir de 1972, novos paradigmas apontaram para a história “imediata”, aquela que acontece no dia a dia.

“ Desde então os jornalistas  retomaram  a luta. Fortalecidos com as novidades do seu ofício.Uma das mais importantes para nosso propósito foi sem dúvida a abundância documental no trabalho das redações: através de informações das bases, dos bancos  de dados e a da fabricação do “ papel” que se pode alimentar quase à vontade do “doc”, na pesquisa mais avançada e multiplicada junto dos correspondentes locais, da fabricação do dossiê estilo “ news”. Jean Pierre Rioux ( 1992)

Sobre a Cultura histórica.

“[…] a universidade, o museu, a escola, a administração e os meios e outras instituições como conjuntos (são) de lugares da memória coletiva, da distração, da ilustração e de outra maneira de lembrar, em uma unidade global da memória-histórica” Jörn Rüsen. (2001)

Logo no pós guerra, sem uma preocupação  museográfica, as primeiras coleções de objetos do MEXP foram surgindo.Tratava-se da organização de documentos originais, fotografias, medalhas, equipamentos, armas e munições dentre tantas outras. Com as doações particulares feitas pelas famílias o acervo cresceu ao longo dos anos. O pensamento de todos é que estes objetos lá estariam protegidos e poderiam mais tarde compor uma história, salvaguardando assim os ideais que um dia movimentaram  a FEB. O acervo, portanto foi doado em confiança e constitui em nossos dias fonte segura para os pesquisadores na tentativa de uma releitura que vai além dos dados oficiais. Por este motivo, não podemos entender a doação de peças do seu acervo para unidades militares, como explicar tais fatos aos doadores? Esta responsabilidade, recai sobre as pessoas que neste período faziam parte da diretoria.

“ Os maiores problemas para os novos historiadores, no entanto, são certamente  aqueles das fontes e dos métodos.Já foi sugerido que quando os historiadores começam a fazer novos tipos de perguntas sobre o passado, tiveram de buscar novos tipos de fontes, para suplementar os documentos oficiais” (Peter Burke 1992)

Sobre os historiadores e os museus da FEB.

De longa data os historiadores, não somente paranaenses voluntariamente tem buscado divulgar os museus da FEB, em nosso caso o Museu do Expedicionário e seu acervo.Cabe ressaltar que a nossa preocupação com o Museu é antiga. Pela falta de incentivo e reconhecimento de seus trabalhos, muitos historiadores ficaram pelo caminho, enquanto outros teimosamente permaneceram na nobre missão de divulgação dos feitos dos pracinhas. Estes últimos tem atuado como fieis depositários de uma história ocorrida entre 1944-1945, quase desconhecida dos brasileiros.

“Memória e história, longe de ser sinônimos, tomamos consciência de que tudo as opõe. A memória é vida, sempre levada por grupos vivos e, nesse sentido, ela está em evolução permanente, aberta à dialética da lembrança  e da amnésia”. Pierre Nora (1974)  in DOSSE, François. ( 2001)

Temos com dificuldades levado adiante nossas publicações, sejam de artigos, livros e revistas, grande parte às nossas expensas, sem ajuda do poder público, apenas pela paixão pelo tema mas, muitas vezes somos mal compreendidos e ate confundidos como forasteiros em busca de interesses próprios.Alguém já perguntou?Quanto custa uma pesquisa, editar um livro?

Posso responder: Dias e horas perdidas, deixando de lado o convívio familiar, as horas de lazer, enfrentando momentos intrincados da pesquisa, buscando as melhores fontes, adquirindo livros, noites inteiras dedicadas à causa, viagens, entrevistas, correções de textos, a busca do perfeccionismo na escrita clara e objetiva.

FOTO MUSEU PORTO ALEGRE

Grupo de Curitiba encontro de Veteranos em Porto Alegre 2008

Acervos da FEB “cenas histórica” mas com uma constituição de sentido.  (Nossa  reflexão com Jörn Rüsen).

Vemos os Museus da FEB e seus acervos como verdadeiras “cenas dos fatos”, daí a nossa preocupação. O que lá está exposto significou algo para alguém, para um grupamento, para um Exército. Mas como narrar estes acontecimentos.

Eis aqui a idéia de uma narrativa com sentido histórico a que se propõem os historiadores. Como contar a história da guerra, qual é nossa preocupação maior?. Objetos esparsos constituem uma exposição, mas não uma história. Muitos museus da FEB tornaram-se meramente depósitos de objetos. È necessário o repensar histórico que desejamos dar a estes museus.

A partir do momento em que temos a “ cena originária”( a guerra e seus artefatos) é necessário dar a ela um sentido.Ao mostrar às gerações futuras ao longo da cadeia dos fatos, as experiências e as interpretações, estas serão conservadas e recebidas pela sociedade como algo que lhe pertence. Assim temos feito durante décadas com nossas pesquisas, buscando mostrar as raízes da Força Expedicionária Brasileira, seus objetivos e ideais que um dia motivaram estes homens. Ao nosso ver, vamos facilitar a compreensão de uma história de passado recente.

Carmen Abertura dpo XIX Encontro de Veteranos

XIX Encontro de Veteranos da FEB em Curitiba 2007

Presidente da ANVFEB Cel. Martinelli, generais a esquerda da foto, Gen. Terra Amaral e à direita Gen. Benedetti.

O começo, o meio e o fim da História da FEB devem nos conduzir a algo positivo. Mas não vemos possibilidades de aceite destes nossos propósitos no Museu do Expedicionário, com certeza nossas pesquisas não são encontradas em seus  bancos de dados,  bem como livros, e artigos, gerando constrangimentos para toda uma classe de pesquisadores e pelos usuários que lá nos procuram.

A FEB esquecida de hoje, não criou vínculos de pertencimento com a sociedade civil.

O professor Dennison de Oliveira do Departamento de História ( DEHIS) da UFPR em 2001 dentro do Programa de Extensão Universitária “ Educação e Cidadania” em carta dirigida ao Museu do Expedicionário apontava para uma série de sugestões oportunas para a instituição. Dentre elas, havia um projeto piloto de reativação da divisão didático- pedagógica. A idéia era treinar estudantes da graduação, que já conheciam o acervo do museu  para atuarem como monitores aos visitantes. As dificuldades foram aparecendo, apesar do voluntariado, ou seja, custo zero para o Museu, o  diálogo restrito com a diretoria redundou no cancelamento da proposta. A própria exposição de peças deixou de ser permanente a partir do momento em que objetos e documentos eram trocados de lugar, mudando toda a seqüência histórica.Além destes, ignora-se sobre o tombamento das peças, o que não sabemos até hoje. Finalmente, 13 anos depois destes dados apresentados pelo professor Dennison, os monitores bem como as sugestões não vingaram.

Carmen foto no Museu de Guerra em Londres 2010

War Imperial Museun em Londres 2010

A questão da transmissão da História

“A via está aberta a uma outra história, não mais os determinantes, mas seus efeitos: não mais ações memorizadas nem mesmo comemoradas, mas o vestígio dessas ações e o jogo das comemorações: não os acontecimentos por si mesmos, mas sua construção no tempo, o apagar e o ressurgir de suas significações, não o passado como tal aconteceu, mas seus reempregos sucessivos, não a tradição, mas a maneira pela qual é constituída e transmitida. Pierre Nora (1974) in  DOSSE,François.( 2000)

Após esta reflexão sobre acervos, museu, memória e história, cabem as seguintes ponderações:  Diante deste estado de coisas, a deterioração do  prédio do Museu do Expedicionário, o atual caráter expositivo de seu acervo, da ausência de um estudo museográfico para seus objetos e documentos, tem descaracterizado a idéia inicial  que levou à sua criação oficial em 1982.

A ausência de um sentido histórico para o seu acervo, de uma proposta didático-pedagógica voltada para os escolares de todos os níveis, dos contatos com os pesquisadores, das facilidades de associativismo em seus quadros, do diálogo com a sociedade civil, com outras associações congêneres, das parcerias não apenas com o poder público, mas com as empresas particulares, são premissas que poderiam reverter o presente quadro.

Curitibanos-na-Normandia1

Curitibanos na Normandia, França, no dia 21 de maio de 2012. Da direita para a esquerda: Carmen Lúcia, Francisco, Terezinha, Osmario, Léa e Valéria. 

A foto indica o local onde ocorreu o desembarque do Dia D em 6 de junho de 1944. Ao fundo, a parte do porto artificial onde foram desembarcados todos os equipamentos para a guerra. Do lado esquerdo, o paredão onde estão localizadas as praias do desembarque norte americano: Utah e Omaha Beach. Este roteiro da FEB é feito quase anualmente pelo grupo de amigos da FEB; Em 2013, por ocasião dos 70 anos da criação da FEB, faremos o roteiro dos navios e soldados da FEB, passando por Napoles, Viareggio,Livorno, Tarquinia e toda a Costa Amalfitana.

Medidas emergenciais se fazem necessárias à atual diretoria do Museu do Expedicionário.Diante de todas as responsabilidades apontadas neste texto, naturalmente, em tempos delicados e turbulentos devem encarar este sério desafio.

Hoje os pracinhas esquecidos pela nossa memória simplista e imediata merecem nossa atenção. Para cada um deles deveríamos compor uma ode, e colocá-los na altura dos grandes vultos brasileiros, exemplos patrióticos a serem seguidos e que  tanta falta nos faz.

Carmen foto programa Radio Educativa do Parana

Rádio Educativa,Programa Nossa História, Zelia Sell, Oficial medico João Batista Perusso Veiga e Carmen Lúcia no lançamento do livro Diários de Guerra, Curitiba- 2011.

REFERÊNCIAS.

BURKE, Peter. A Escrita da História: novas perspectivas. Trad. Magda Lopes. São Paulo: UNESP(1999).

DUBY, Georges.  História e Nova História, O Historiador Hoje: Trad. Carlos da Veiga Ferreira. Lisboa: Editora Teorema (1986).

DOSSE, François. A História. Tradução de Maria Elena Ortiz. Bauru:  Editora EDUSC , ( 2003).

KRAVETZ, Marc. Os jornalistas fazem a História. In História e Nova História. Lisboa: Editora Teorema ( 1986).

RIOUX, Pierre. Entre História e Jornalismo. Questões para a história do tempo presente. Bauru: Editora EDUSC (1999).

RÜSEN,Jörn. Razão Histórica: teoria da história: fundamentos da ciência histórica. Trad. Estevão de Resende Martins. Brasília: Editora Universidade de Brasília (2001).

Carmen Lúcia Rigoni.

Profa.Dra. em História Cultural.

Membro da AHIMTB e IHGPR.

Representante da Associação Nacional dos Veteranos da FEB- seção Curitiba.


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1 comentário

  1. geovane pavilak /

    Ola. Sou neto de um ex soldado da “feb”. Alguem o conheceu?
    Algum veterano sabe me dizer?
    Por favor,comente.
    Fico muito agradecido!
    O nome dele e *Alexandre Pavilak*!

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