A representação da Segunda Guerra no cinema brasileiro de ficção

Por Daniel Mata Roque da Pátria Filmes

O cinema é uma ferramenta extremamente poderosa. “O cinema é para nós a mais importante das artes”, disse Wladimir Lênin.

A Segunda Guerra tornou-se objeto de análise, reflexão e debates no mundo inteiro e em todos os meios artísticos, notadamente no cinema.

Embora o Brasil tenha participado das operações de guerra, suas memórias sobre o período foram apagadas em nossa cultura. Os americanos produziram centenas de  filmes sobre o conflito. A Alemanha possui a sua filmografia. Dúzias da França e da Rússia. A Itália gerou o Neorrealismo. O Brasil conta com apenas seis longas-metragens de ficção sobre esta atuação bélica.

Existem documentários nacionais sobre o assunto, poucos diante de tantas possibilidades narrativas. Na área ficcional, líder de bilheteria, o assunto é esquecido.

sangue-amor-e-neveGuerra e cinema estão intensamente ligados. Paul Virilio afirma que “a guerra vem do cinema, e o cinema é a guerra” e que “não existe guerra, portanto, sem representação”.

André Bazin reforça esta conexão intrínseca já que “graças ao cinema,  o mundo realiza uma astuciosa economia no orçamento de suas guerras, já que estas têm duas finalidades: a história e o cinema”.

O filme de guerra possui características que o identificam. Francisco Carlos Teixeira da Silva destaca algumas características comuns a filmes que tratam a guerra, como grandes cenários, ambientações naturais, gigantismo, sacrifício, heroísmo e traição.

O mais interessante neste estudo é a subdivisão do filme de guerra, diferenciado entre “pacifista” e “mobilizador”.

Sangue, amor e neve foi dirigido por Jeronimo Jeberlotti em 1960. Adaptado de livro homônimo, escrito pelo veterano Waldir Pires, o filme traz a história de um tenente da FEB que apaixona-se por uma italiana, com quem inicia um namoro. O personagem passa então a se dividir entre a guerra e o romance.

A Estrada 47 foi escrito e dirigido por Vicente Ferraz em 2015. Coprodução do Brasil com Itália e Portugal, o filme narra a epopeia de um batalhão da FEB que é atacado por nazistas e sofre uma crise de pânico. Receosos de enfrentarem a justiça por deserção, os pracinhas resolvem, por conta própria, desativar o campo minado de uma estrada importante.

Sangue, amor e neve é um romance de guerra, subclassificado como mobilizador. A Estrada 47 é um drama de guerra, subclassificado como pacifista.

As marcas de “sacrifício, heroísmo e traição” são constantes no primeiro filme. Nas imagens de arquivo, soldados tombam e continuam atirando mesmo feridos de morte. Outros arriscam as próprias vidas para auxiliar um companheiro em. Temos o sacrifício constante do amor do casal em prol do combate travado. “A guerra já levou meu pai e meu irmão. Agora leva meu marido de mim em plena lua de mel”. Há o também constante heroísmo do Tenente Arabutã, que conta à amada que se feriu em combate e logo depois voltou à linha de frente.

estrada47Cena do filme Estrada 47 (2015)

Está claro que o filme considera a guerra, “heroica, uma tarefa para bravos”. A cartela inicial do filme, depois de agradecer a colaboração do Exército Brasileiro na produção, dedica a obra “aos heroicos combatentes da Força Expedicionária Brasileira”.

Quando analisamos sob os mesmos critérios o filme A Estrada 47, deparamo-nos com cenário diferente. O filme centra seu conflito em um grupo de quatro pracinhas. Trata-se de um drama de guerra, que versa sobre os horrores do conflito e os efeitos psicológicos e sociais que terá sobre os combatentes. Muito diferente de Sangue, amor e neve, vemos aflorar o lado humano de cada personagem e o destaque dado aos sentimentos de medo, incerteza e insegurança.

A visão do filme como pacifista surge principalmente da análise dos diálogos. Teixeira da Silva lança como uma das características do filme pacifista “histórias pessoais e questionamentos sobre o próprio destino”. Em sua primeira fala, quando ainda aparecem imagens de arquivo, o soldado Guima expressa um grande medo de morrer, lança dúvidas sobre as razões da guerra e revela que se voluntariou para a FEB apenas por pressão do pai, possuidor de um patriotismo que ele ironiza. Guima não é o herói idílico do filme mobilizador, não é o Tenente Arabutã.

A forma de retratar o inimigo é significativa. O filme mobilizador vai tratar o inimigo quase como uma entidade, uma força maligna a ser combatida. Já no modelo pacifista vai ficar claro que luta-se contra pessoas, contra outros homens que foram também arrastados inexoravelmente para a irrazão dura da guerra. A “recusa social generalizada à guerra” não está presente apenas em um lado, mas em todos.

Os dois filmes buscam entender nossa participação na guerra, a postura e a motivação do brasileiro em combate, como a experiência bélica marcou este país.

A filmografia brasileira ainda possui muito espaço disponível para que esta discussão se alongue e se aprofunde. Aguardamos, com ansiedade, pelas próximas cenas desta jornada.


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