A Patente das Enfermeiras da FEB

Todas as Enfermeiras foram arvoradas ao posto de 2° Tenente após entendimento entre o Comandante Mascarenhas de Moraes e o Chefe de Saúde da FEB, quando estas já exerciam suas funções nos Hospitais de Sangue e Postos Avançados na Itália. Essa distinção teve apenas um caráter moral pois o soldo era compatível com o posto de Sargento e, surgiu da necessidade em minimizar o clima estabelecido junto à ás enfermeiras americanas pela frequência aos lugares de oficiais, patente já incorporada por elas.

Á seguir iremos transcrever o Trabalho apresentado pela Cap Enf Olímpia de Araújo Camerino, no Congresso Brasileiro de Medicina Militar e I Congresso de História da Medicina das Coletividades Militares, no Rio de Janeiro de 16 a 21 de abril de 1972.

A Enfermagem na Força Expedicionária Brasileira.

O Brasil precisava de Enfermeiras. O Decreto nº 6.097, de 15 de dezembro de 1943, criou o Quadro de Enfermeiras da Reserva do Exército, no Serviço de Saúde.

O Decreto nº 14.257, também de 15 de dezembro de 1943, aprova o Regulamento para o Quadro de Enfermeiras e prevê o acesso até a 1ª classe.

Esse Quadro destinava-se à formação de enfermeiras militares que constituíram o Quadro da Reserva do Exército, mediante um trabalho de adaptação enfermeiras civis, preparadas por escolas de reconhecida idoneidade. Aberto o voluntariado, apresentaram-se as enfermeiras candidatas. O Curso de Adaptação para as Enfermeiras realizou-se no Rio de Janeiro ( antigo Distrito Federal ) pela Diretoria de Saúde do Exercito e, nas sedes das Regiões Militares, pelas respectivas chefias do Serviço de Saúde, no prazo de seis semanas. O Curso era administrado por professores de reconhecido valor.

As aulas teóricas eram proferidas no auditório da Diretoria de Saúde do exército e nas sedes das Regiões.

Constavam sobre matéria Militar; Serviço de Saúde em Campanha, Cirurgia de Guerra; Epidemiologia e Profilaxia Anti-infecciosa no Exército, principalmente em Campanha;Toxicologia; Prática Hospitalar de Enfermagem; Higiene e Profilaxia; Demonstrações e ensinamentos práticos de Educação Física e Natação. Ordem unida adequada às Enfermeiras do Exército, Hierarquia Militar, Disciplina, Sinais de Respeito e regulamentos Militares.

As aulas práticas tiveram desenvolvimento por meio de estágios matinais nos hospitais militares, em serviços técnicos oficiais, nos campos de instrução militar e de educação física.

Ao término de um curso intensivo, o aproveitamento das alunas foi apreciado através de testes formulados pelos professores, exceto educação física e ordem unida, levando-se em conta a aplicação das candidatas durante o período de instrução.

As consideradas habilitadas foram relacionadas e propostas ao Ministério da Guerra, para a nomeação. Não lhes foram conferidos diploma ou certificado de prestação do curso feito, apenas constando do Boletim da Diretoria de Saúde as ocorrências realizadas durante o curso.

Em fase de ativa preparação expedicionária, foram convocadas para o Serviço Ativo do Exército. Tornaram-se aptas para o ingresso no Serviço de Saúde da FEB e foram enviadas para o front.

Eram consideradas como Enfermeiras de 3ª classe, com vencimentos de 2º Sargento.

O objetivo das enfermeiras militares da FEB, oferecendo-se voluntariamente para servir à Pátria, outro não foi senão o de dar o concurso aos nossos valentes soldados do Brasil, enfrentando, sem receio, até mesmo a incompreensão humana.

Em julho de 1944, um pequeno grupo de enfermeiras já estava instalado em Nápoles, quando chegou o 1º Grupamento da FEB.

Em número de 67, as enfermeiras foram seguindo para o front em pequenos grupos, por via aérea.

Em outubro de 1944, embarcou o último grupo composto de 33 enfermeiras, muitas vindas de diferentes Regiões do Serviço de Saúde do Exército. Chefiava o Grupo a enfermeira mais antiga, Olímpia de Araújo Camerino. Chegando à Itália, experimentaram as enfermeiras brasileiras duras provações, por não possuírem posto ou graduação militar. As enfermeiras americanas eram oficiais do Exército norte americano, desde 2º Tenente até Coronel, e se orgulharam das insígnias de que eram portadoras. Os americanos não compreendiam a presença de pessoas que não tivessem situação hierárquica definida.

Sem ter uma situação definida, não poderiam as brasileiras conviver no círculo de oficiais, ao qual pertenciam as nurses (enfermeiras) norte americanas, daí o isolamento que se esboçava contra elas. Sentiam mesmo, um certo constrangimento, aliás bem compreensível.

Foi dessa forma que o General João Batista Mascarenhas de Moraes, Comandante da FEB, em entendimento com o Coronel Dr. Emmanuel Marques Porto, Chefe do Serviço de Saúde da FEB, por não ter outra alternativa, arvorou as enfermeiras brasileiras no posto de 2º Tenente.

Por essa razão tiveram sua situação resolvida na parte que tocava à hierarquia militar. Seus vencimentos eram correspondentes aos de 2º Sargento. Isso explica, porque a distinção que lhes foi conferida pelo general Mascarenhas tinha apenas um efeito moral.

Assim permaneceram durante toda a campanha, até o licenciamento do serviço ativo do Exército, já em território nacional.

Os serviços prestados à FEB pelas enfermeiras brasileiras são atestados pelos seus chefes diretos e pelos chefes americanos.

O Ten Cel Gilberto Peixoto, Chefe do Serviço de Saúde do Grupamento da FEB na Itália, citando uma das enfermeiras pelo seu trabalho, termina com o seguinte trecho: “….tais fatos, que tanto honram a Medicina Militar Brasileira, não podem ficar em silencio e sinto-me feliz em assiná-los ao Comando, como um exemplo a ser seguido”. ( Bol. do Grup. da FEB na Itália nº 31, de 08-08-1945).

Após a guerra, o Gen Dr. Marques Porto, então Diretor Geral de Saúde do Exército, propôs a criação de um Quadro Especializado no Exército regular, o qual foi aprovado pelo Estado Maior do Exército e remetido à Diretoria Geral de Saúde para encaminhamento ao Ministério da Guerra e consequente mensagem ao Presidente da República.

Não foi, entretanto, concretizada a criação do referido Quadro.

Depois de licenciadas, de acordo com o Aviso nº 3.537, de 20 de novembro de 1945, pleitearam as enfermeiras a materialização de seus serviços prestados.

– Não mereciam a gratidão dos brasileiros?

Por projeto elaborado e aprovado pela Câmara dos Deputados, transformado em Lei nº 1.209, de 25 de outubro de 1951, e sancionado pelo Exmo. Sr. presidente da República, tiveram as enfermeiras da FEB sua aspiração realizada; estavam efetivadas no posto de 2º Tenente e incluídas na Reserva de 2ª classe do Exército, com o mesmo posto.

Há enfermeiras que trouxeram os sinais da guerra, e estas tiveram sua situação estabilizada, sendo amparadas pelas Leis da FEB.

Efetivadas no posto de 2º Tenente, continuaram as enfermeiras lutando pela sua aspiração.

Ainda por projeto elaborado e aprovado pela Câmara dos Deputados, foram convocadas para o Serviço Ativo do Exército no posto de 2º Tenente, com acesso até 1º Tenente, com permanência assegurada, gozo dos direitos, vantagens e regalias inerentes aos oficiais da Ativa, nos termos da Lei nº 3.160, de 1º de janeiro de 1957.

Requerem convocação 46 enfermeiras; 09 não se apresentaram e 12 já estavam reformadas por incapacidade adquirida na guerra.

Convocadas, foram classificadas em diversos setores do Serviço de Saúde do Exército.

Continuaram, assim, as ex-Enfermeiras da FEB prestando serviços na paz, como o fizeram na guerra…”

Publicado no Livro A M U L H E R B R A S I L E I R A n a S e g u n d a G u e r r a M u n d i a l

Capitã Enfermeira OLÍMPIA de ARAUJO CAMERINO.

Nossas valorosas “meninas”, assim carinhosamente chamadas pela Professora e Historiadora Carmem Lucia Rigoni, continuaram suas lutas e o Clube das Oficiais Enfermeiras de Guerra – COEGUE, fundado em 1957, organizou o I CONGRESSO NACIONAL, realizado no Hotel Meridien, no Rio de Janeiro em 1978, ( matéria já publicada nesse site).

Em maio de 1982 o COEGUE organizou o II CONGRESSO NACIONAL DAS ENFERMEIRAS DA FEB , realizado em Brasília- DF, cujo tema abordado foi: A Evolução da Mulher Nas Forças Armadas e na Sociedade.

II Congresso

Em 26.05.1989 foi entregue documento assinado pelas Enfermeiras da FEB, conhecido como Exposição de Motivos ao Exmo Senhor General de Divisão, Dr Aureliano, Diretor de Saúde do Exército, cujos pedidos referem-se “… que todas as oficiais enfermeiras sejam promovidas ao mesmo posto, acabando assim, com as injustiças e desigualdades”.

Em razão do desgaste pelo tempo esse documento poderá não favorecer uma perfeita visualização, embora considere de importância sua demonstração, nos anexos.

Vale ressaltar que esse pedido não foi aceito, embora o empenho do COEGUE tenha sido enorme na busca em demonstrar que todas foram iguais em sua convocação, coragem, trabalho e ideais desempenhados.

Aqui falamos em 67 Enfermeiras do Exército mas registre-se as seis Enfermeiras pertencentes à FAB, dai considerarmos 73 Veteranas da FEB.

Colaboradora: Maria do Socorro Sampaio M. de Barros. Filha da Cap Enf. da FEB ARACY ARNAUD SAMPAIO.

 É Psicóloga, membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – DF ( AHIMTB ), Coordenadora de Ação Social UNIPAZ-DF, membro da Ordem Franciscana Secular ( OFS ).

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4 comentários

  1. Bela matéria, Socorro. Nossas enfermeiras merecem sempre serem lembradas.

  2. Maria do Socorro Sampaio M. de Barros /

    Vale dizer que na foto junto às oficiais temos a presença de Diretores e do Maj Dr João Ferreira, Presidente da Associação dos Ex-Combatentes,Brasília-DF, como entidade apoiadora do II Congresso Nacional das Enfermeiras da FEB, cujo discurso de abertura ficou à cargo da Cap Aracy Arnaud Sampaio.

  3. Bom Dia SOCORRO !

    Tive a oportunidade de conhecer alguns veteranos e
    mais ainda ter a agradável chance de conversar com
    ARACY. Qualquer país precisa manter a sua história
    e o Brasil não pode se furtar de manter a lembrança
    destas pessoas que estiveram auxiliando e mitigando
    o sofrimento alheio, no Teatro de Operações. Elas
    são parte da nossa História. PARABÉNS !!!

    PS: A assinatura dela é bem visível…!

  4. Prezados fico muito orgulhoso de poder saber dessas e outras histórias, pois sou sobrinho da Ten. Mary Vassimon que esta escondidinha ali na foto com as outras, tive o prazer de desfilar 4 anos o 7 de setembro com ela, quando estava no Colégio Militar do Rio de janeiro e ela sempre vinha me dar um abraço no meio da avenida….
    sds

    GCMD Paulo Vassimon
    Coord. geral de op.
    PCRSS

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  1. Enfermeiras da FEB Parte I – Cosmonauta da Imprensa - […] FONTE: https://chicomiranda.wordpress.com/category/feb-2/ http://www.portalfeb.com.br/a-patente-das-enfermeiras-da-feb/ […]

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