Anjos de Branco – 2º Tenente Enfermeira Lúcia Osório

Ainda que eu falasse a língua dos anjos

Amor é um fogo que arde sem se ver

Para alegria do pai Dario Osório, Sarah Osório dava  luz, na cidade maravilhosa a Lúcia Osório. Ali, na maternidade o tal fogo do amor ardia sem se ver. Sem perceber, ambos fitavam uma frágil criancinha cujo destino transformaria em heroína.

É ferida que dói, e não se sente;

 O tempo foi passando e junto com ele a garotinha consolidava seus conhecimentos na área de enfermagem. Dedicação não lhe faltava. Trabalhava arduamente mesmo quando o corpo pedia um tempo. Sim doía, mas o apego a profissão era tanta que a dor parecia não existir.

É um contentamento descontente,

Então explodiu a Segunda Guerra Mundial.

A humanidade presenciava ao mais sangrento conflito de sua história.

Em meio ao Caos, sua consciência sussurrou:

– Ei, vai ficar ai ouvindo as notícias no rádio ou vai fazer o que poucas brasileiras teriam coragem de fazer?

A resposta veio com o alistamento.

A habilidade complementou-se nos Cursos de Enfermagem: Samaritana pela Escola Ana Neri e Curso de Emergência de Enfermeira da Reserva do Exército “CEERE”.

E o contentamento surgiu quando foi nomeada Enfermeira de 3ª Classe, Portaria nº 6.279 (D.O. de 06.04.44). Partiu em 06.04.1944, com o 3º Grupo, Nápoles (via aérea). No entanto, o descontentamento também se fez presente por conta da ameaça de não mais ver os entes queridos. O avião partira.

– Que Deus me proteja.

Pediu de olhos fechados a enfermeira.

É dor que desatina sem doer.

 

Depois da longa viagem, chegou ao seu destino. Enquanto cruzava uma parte da Itália rumo ao Hospital de Campanha a enfermeira percebeu algo que lhe incomodara: A dor se fazia presente em todos os lugares.

Nos olhares. Na destruição. No ar.

A paisagem era surreal. Um filme de terror.

Mas Lúcia não podia se deixar vencer pela dor dos outros. Ela estava psicologicamente bem. Precisava estar assim. A dor da Europa não a atingira.

Apresentou-se par o serviço no dia 17 de julho de 1944. Por pouco tempo iria trabalhar 105th Station Hospital, em Cevitavecchia. E ela não mediu nenhum esforço para executar suas tarefas.

 

É um não querer mais que bem querer, é um andar solitário entre a gente;

 

Servindo ao V Exército do General Mark Clark, ainda nem bem tinha se acostumado com Cevitavecchia, no quinto dia, recebeu ordem de partida. Seus serviços eram necessários agora na cidade de Ardenza. Sua casa agora seria o 64th General Hospital.

No meio de tantas pessoas perdidas em si mesmo, o que importava para ela era ajudar aqueles que também procuravam se encontrar, mas que precisavam de cuidados médicos para recomeçarem suas caminhadas. Serviu por naquela unidade médica por mais quatro dias.

 

É nunca contentar se de contente; é um cuidar que ganha em se perder.

 

Cecina(Santa Luce), Pisa, local onde fora construído o 38th Evacuation Hospital, a empenhada Lúcia  se apresentava para cumprir brilhantemente mais uma etapa de sua missão.

Muitas vidas foram salvas.

Outras, para sua tristeza, levadas por decisão divina.

É querer estar preso por vontade

Parecia que seria a última unidade que receberia seus préstimos, todavia, havia mais uma escala. O Chefe da Seção de Saúde a designou para servir 45th General Hospital (Center) em Nápoles. Então, mais uma vez, de boa vontade, foi.

Queria estar ali.

Sabia exatamente que cada movimentação tinha um motivo.

Ao ver o nome do próximo Hospital, a enfermeira pegava sua mochila e seu saco V.O., embarcava na viatura e partia com uma vontade contagiante.

 

É servir a quem vence, o vencedor

A cada ferida curada.

A cada soldado que abria os olhos depois do coma.

A cada andar trôpego após de dias preso a uma cama.

A cada respirar.

Era para Lúcia uma extraordinária vitória. Ela ajudava a vida vencer a morte.

Haveria no mundo missão maior que essa?

Como não há mal que sempre dure… a guerra acabou. A enfermeira ainda serviria 182th Station Hospital, também em Nápoles. Recebeu dos superiores uma merecida folga. Cinco dias em Florença. O descanso dos justos. Antes de partir, receberia duas referências elogiosas, ambas publicadas em suas folhas de alterações, sendo a primeira do Tenente Coronel Médico, Dr. Augusto Sette Ramalho, e a segundo do  Chefe da Seção, Major Med. Dr Azais de Freitas Duarte:

 

“É uma das veteranas da Secção, onde vim encontra-la labutando no 182th S.H. Eficiente, trabalhadora, sempre pronta a tarefas suplementares, irradiando simpatia, foi um elemento destacado no grupo de enfermeiras que conosco labutaram, sinto-me satisfeito em expressar aqui minha impressão a seu respeito, concitando-a continuar no seu caminho”. (TC Med Agusto Sette Ramalho)

“Ao desligar o 2º Tenente Enfermeira LUCIA OSÓRIO, agradeço a sua colaboração sincera e eficiente no âmbito do trabalho. Em todas as enfermarias que prestou seu serviço, cuidadosa e dedicada para com os pacientes, aos quais atendia. Desejo a essa Enfermeira na nova comissão, êxitos iguais aos que aqui obteve”. (Maj Med Azais de Freitas Duarte).

É ter com quem nos mata, lealdade.

Sempre, desde o primeiro dia em que desembarcou no Front, a enfermeira Lúcia Osório, se mostrou pronta para qualquer missão, a qualquer hora, em qualquer lugar, sem nunca esboçar um sinal de aborrecimento. Trabalho junto com doutores operando nas Clínicas Médicas e Salas de Choques dos hospitais.

Ela era assim: Dedicada;

Para uns, uma guerreira.

Para os superiores, uma profissional exemplar;

Para seus pacientes, um leal anjo.

Para Lúcia:

“Uma missão que cumpriria quantas vezes fosse preciso”.

 

Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Licenciada pela Portaria nº 8.740 (D.O. de 27.10.1945), Lúcia Osório. Como prova de reconhecimento e agradecimento pelos serviços prestados a Força Expecidionária Brasileira, as Medalhas de Guerra e Campanha. Nas entrelinhas deste texto inserimos trechos do Soneto de Luis de Camões, para ilustrar a brilhante carreira da menina que se tornou heroína e que deixou como legado uma grande lição já conhecida por nós:

Ainda, que eu falasse a língua dos anjos…

 

Fonte de consulta e apoio:

VALADARES, Altamira Pereira. Álbum Biográfico das Febianas. Batatais – SP: Centro de Documentação Histórica do Brasil. 1976. 116p.

 

Colaboradora: Maria do Socorro Sampaio M. de Barros. Filha da Cap Enf. da FEB ARACY ARNAUD SAMPAIO.

É Psicóloga, membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – DF ( AHIMTB ), Coordenadora de Ação Social UNIPAZ-DF, membro da Ordem Franciscana Secular ( OFS ).

Colaborador:  Vanderley Santos Vieira, é Jornalista, especialista em Comunicação, Oficial R2 (Infantaria) do Exército Brasileiro, Tecnólogo em Administração de Empresas, Escritor, Pós-graduado em Planejamento Estratégico e possui o Curso de Política e Estratégia da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra. Atualmente desempenha a função de Gerente em uma Multinacional, instrutor, Voluntário da Defesa Civil de Campo Grande – MS e Sócio Especial da ANVFEB/MS.

Possui as seguintes honrarias: Medalhas: de Serviço Amazônico; Mérito da Força Expedicionária Brasileira; Marechal Machado Lopes; Medalha Cruz da Paz; Marechal Cordeiro de Farias; Mérito da Força Expedicionária Brasileira da Câmara dos Vereadores de Campo Grande – MS; Mérito Legislativo de Campo Grande; Mérito Rondon – Academia de Estudo de Assuntos Históricos – MS e Distinção Emblema de Oro – Instituto Técnico “Promoción Profesional Del Ejército” Bolívia.


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