Uma conversa com a história – Veterano Pedro Cândido Ribeiro

Por André Onofre Limírio Chaves, graduando em História (UFMG).

No dia 06 de Agosto de 2012, tive a oportunidade de “entrevistar” o pracinha Pedro Cândido Ribeiro. Mesmo com a idade avançada, 92 anos, o Sr. Pedro, muito atencioso, proporcionou um relato lúcido e bastante detalhado sobre a sua experiência na Segunda Guerra Mundial. É o que eu divido com vocês nas linhas que seguem.

Pedro Cândido Ribeiro nasceu no município de Formiga, Minas Gerais, no ano de 1920. Serviu no Teatro de Operações da Itália no período de 6 de Julho de 1944 a 12 de Julho de 1945, encarregado na chamada Companhia de Manutenção Leve.

Nossa conversa já começou bem-humorada. Perguntei, inicialmente, o que o incentivou a querer participar do batalhão da tropa brasileira no combate contra os alemães. Segundo o Sr. Pedro, quando ele estava com a idade de 19 anos, ele e “outras rapaziadas da Vila Costina, Pimenta por aí” foram à cidade de Formiga, para fazer o “Tiro de Guerra”, que contava, segundo ele, com 64 alunos.

Terminando o “Tiro de Guerra”, e com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, em 1942, começaram então os preparativos dos soldados que serviriam na guerra a partir de 1943. Tiveram início as convocações e Sr. Pedro se alistou como combatente.

A cobra vai fumar!1

Segundo Sr. Pedro, o Brasil tinha compromisso com os EUA e por isso os americanos aconselharam a fazer uma divisão da tropa brasileira, pois no total foram recrutados aproximadamente 22 mil brasileiros para ir ao combate. Como Sr. Pedro já tinha iniciado seu treinamento mais cedo, ele foi com o primeiro escalão para a Europa, dizendo que só depois de três meses é que chegou o escalão mineiro, que foi formado em Belo Horizonte, São João Del Rey e Juiz de Fora formando o contingente certo ao chegar ao Rio de Janeiro.

Depois de alistado, Sr. Pedro seguiu para o Rio de Janeiro, na Vila Militar, ficando quase dois anos em treinamento. Com bastante humor, Sr. Pedro falou que o Rio de Janeiro era “um lugar muito ruim”. Sobre a Vila Militar do Rio de Janeiro, Sr. Pedro diz que era “mais ou menos do tamanho da cidade de Formiga, MG” com muitos prédios militares e que havia muito militar nela. Depois do treinamento, em 1 de Julho de 1944 ele embarcou no navio General Mann, que, de acordo com ele, era um navio muito grande, no qual embarcaram aproximadamente 5500 homens de todos os cantos do Brasil para irem à luta: “veio gente de todo o lado, Rio Grande do Sul, Bahia, Amazonas, Santa Catarina”. Levaram aproximadamente quinze dias e quinze noites para chegar na Itália. O USS General W.A. Mann (AP-112) foi um navio de transporte de tropas da Marinha dos Estados Unidos, sendo usado na Segunda Guerra Mundial, na Guerra da Coréia e na Guerra do Vietnã. Em julho e setembro de 1944, transportou os dois primeiros escalões da Força Expedicionária Brasileira, entre o Rio de Janeiro e Nápoles (Itália)2.

Sobre o navio General Mann, Sr. Pedro conta que ele possuía quatro andares, e que os dormitórios eram bem pequenos, com beliches nas paredes. Era aconselhado ficar dentro dos dormitórios, e, quando se saía, geralmente era para ir à cozinha ou à lavanderia. Os corredores do navio eram cheios de guardas americanos observando tudo, e pela dificuldade de comunicação, dado que não falavam o Português, os guardas só apontavam para a direção em que os soldados deveriam ir. Sr. Pedro conta que teve um amigo que sofria de muito enjoo por causa do navio e que quase não saía da cama por causa do mal-estar, então Sr. Pedro era o responsável por buscar a comida para ele.

O pesadelo apenas começando

Ao chegar à Itália, Sr. Pedro diz que “a coisa estava feia”: muita destruição, pessoas machucadas, campos e cidades destruídas, desespero de civis. Ele comenta sobre as cidades que ele conheceu durante sua estadia na Itália, a primeira cidade que conhecera foi Nápoles, local de desembarque da tropa brasileira, da qual fala da sua importância estratégica, pois Nápoles tinha ao sul o Mediterrâneo e ao norte a Europa. Segundo Sr. Pedro, desembarcaram tropas de todos os lados do mundo e da Itália, americanos, brasileiros, marroquinos, etc. Ficou aproximadamente em Nápoles por quinze dias e depois passou em algum tempo em Veneza, Milão, Pisa e demais cidades italianas.

Sr. Pedro revela que “baixou hospital”, referindo que adoeceu e depois foi para o acampamento, não chegando a ficar na linha de frente do combate. Ele conta, também, que a tropa não ficava acampada por mais de dez a quinze dias em um único lugar, ela mudava constantemente, e na maioria das vezes ficava acampada na beira das estradas. As tropas não usavam com muita frequência carros militares, pois muitas das pontes e estradas estavam danificadas pelo ataque de bombas, sendo impossível o transporte em veículos. Sr. Pedro chegar a falar: “eu não conheço uma ponte que nós passamos nela”.

Sr. Pedro conta que por muita parte havia minas terrestres que os alemães espalharam pelo caminho e os americanos, junto com a tropa, utilizavam caça-minas para evitar passar sobre elas. Sr.

Pedro fala de uma tropa marroquina que foi ao combate e que era muito boa em guerrear; além disso, essa tropa ajudou a reconstruir as estradas de ferro, linhas telefônicas e rede elétrica.

Um derrubador de paredes

Contando qual era a sua parte no destacamento, Sr. Pedro diz que ao ir para o “depósito de gente” encontrou com cinco ou seis comandantes americanos e encontrou com o comandante da tropa brasileira, que era um carioca. Esse comandante carioca ordenou que Sr. Pedro não iria lutar na linha de frente, alertando que se ele fosse à linha de frente poucas seriam as probabilidades de ele voltar vivo, e que ele seria muito mais útil no depósito, ajudando a repor mantimentos.

Também foi lhe designada outra função, que foi a de granadeiro. Como a própria palavra nos diz, Sr.Pedro ficava responsável em entrar em casas ou prédios e lançar granadas, mas antes ele avisava que iria jogar uma granada caso alguém estivesse dentro das casas, que por muita das vezes estavam abandonadas, mas por outras vezes poderia ter soldados inimigos, sendo assim considerado um “derrubador de paredes”. Sr. Pedro contou que chegou a dar bastantes tiros no campo de batalha, mas o que mais fez foi jogar granadas, pois na função de granadeiro ele ficava à frente dos tanques de guerra e ao chegar perto de construções ele jogava granadas, evitando que inimigos ficassem nessas construções.

Escatoletas, pás e picaretas

Revelando outros detalhes sobre como era a vida nos acampamentos, Sr. Pedro conta que não chegou a ver comida como feijão, arroz, carne sendo preparada, pois a única coisa que chegava a comer era a ração militar enlatada, chamadas de “escatoletas”, que ficava dentro de sua sacola. Uma latinha de duzentos gramas era o necessário para ficar saciado pelo resto do dia. Para tomar água, deveriam ter bastante cuidado, pois alguns rios poderiam estar envenenados pelas tropas inimigas; deveria, portanto, economizar a água de seu cantil. Quando era dada a ordem de retirada do acampamento, todo soldado deveria ter cinco ou seis latinhas de “escatoletas”, o cantil de água, e as ferramentas de “sapa” para usar nas trincheiras. Essas ferramentas eram pazinhas e picaretas portáteis, eram pequenas e ficavam amarradas nas mochilas. Quando chegava a noite, as tropas deveriam fazer uma trincheira para passar a noite “no buraco”, pois poderiam sofrer bombardeios e nas trincheiras ficariam mais protegidos.

Sr. Pedro fala que vivenciou também um período curto no Monte Castelo e ficou na guarnição e manutenção, e não na linha de fogo, como já foi comentado anteriormente, por ordem do comandante. Mas revelou que numa noite o Comandante ordenou a retirada da tropa, pois o fogo inimigo estava perto e que tiveram que atravessar no fogo inimigo. Sr. Pedro conta que estava tão forte o combate contra os alemães que foi quase impossível atravessar, chegando a pensar que poderia morrer

Naquele momento “cheguei a ver a morte de perto” –, e que testemunhou a morte de muita gente. O estacionamento era o local em que ficava o pronto-socorro, que vivia cheio de civis e soldados, e nesse local também ficavam as caminhonetes de sepultamento, que levavam os mortos para o cemitério da cidade de Pistóia.

Cemitério de Pistoia

Sr. Pedro diz que viu muitos soldados adoecerem pela condição em que estavam, que adoeceram fisicamente e mentalmente: “o sujeito dá uma doença lá e sai doido, não era brincadeira, morreu muita gente”. Depois Sr. Pedro fala sobre seu parceiro de barraca, que era “um negro engraçado por demais”, que queria fazer parte da linha frente. Sr. Pedro avisou do perigo que seria, mas o parceiro dele seguiu em frente com a ideia. Dentro de uma semana, ele morreu.

Para o Sr. Pedro, o armamento americano era muito bom. Segundo ele, os fuzis eram de extrema precisão. Havia quatro ou cinco espécies de armamentos: fuzis, bazuca, metralhadora, granada, etc.

Sr. Pedro utilizava uma beretta italiana que chegou a trazer para o Brasil, mas não esperou o navio de carga descarregar para pegá-la. Chegou também a utilizar uma carabina. O armamento a ser utilizado deveria ser leve, facilitando a locomoção e agilidade no combate. A tropa brasileira fazia parte do destacamento americano, e as armas que os pracinhas utilizaram eram americanas ou italianas, porque os americanos confiavam apenas no equipamento americano ou europeu, considerado de melhor qualidade do que as armas brasileiras. O armamento americano, segundo Sr. Pedro, era praticamente quase todo automático, o que fascinava muitos, pois ajudava muito na hora do entrave com os inimigos. Sobre os aviões utilizados na guerra, segundo Sr. Pedro, eles não voavam sem municiadores; o avião de combate deveria ter o aviador e o municiador, o que facilitaria no combate aéreo.

Perguntei ao Sr. Pedro se ele teve medo de morrer: “sim, muito medo”. Quando soube que a guerra tinha terminado, ele e a tropa estavam no Norte da Itália, em qual cidade Sr. Pedro não lembrou, mas quando soube que a guerra tinha terminado o Sr. Pedro e outros soldados fizeram uma tocha, encheram o carro em que estavam com a ração militar e foram celebrar o fim da guerra. Não havendo mais combates, os soldados ficaram responsáveis pela reconstrução das cidades italianas, então começaram a construir e reconstruir padarias e demais estabelecimentos de alimentação. As filas para comprar itens básicos, como pão e leite, eram enormes.

Sr. Pedro faz referências à Europa como um “lugar muito bom”. Logo após o final da guerra, ele tentou ficar para conseguir um “dinheiro extra”, mas isso não lhe foi permitido. Quando Sr. Pedro foi para a Itália, ele e outros soldados da região de Pains, Formiga foram juntos, mas ao desembarcar na Itália eles se separaram e ao retornar para o Brasil é que se encontraram novamente. Como o navio que os trouxe continha tropas mistas, nem todos vieram no mesmo navio. A viagem de volta durou aproximadamente vinte dias, pois passaram primeiramente pelo Espírito Santo, onde houve uma recepção e um jantar em honra dos combatentes. No navio que retornou Sr. Pedro conta que vieram aproximadamente 2500 soldados, os demais viriam em outra viagem. Chegando ao Rio de Janeiro, Sr. Pedro encontrou-se com seus companheiros e voltaram juntos para Minas Gerais.

Um tenente chamado Gregório…

Sr. Pedro comentou que conviveu com uma figura importante de nosso país, que foi o Tenente Gregório Fortunato os dois chegaram até a “tomar uma pinguinha” juntos. Para contar quem era Tenente Gregório, deixarei que o próprio Sr. Pedro o descreva: “Tenente Gregório era um gaúcho, um negrinho, foi criado na fazenda em São Borges, Rio Grande do Sul, na fazenda de pai do Getúlio Vargas[…], terminando a escola ele levou Getúlio Vargas para a Escola Militar para formar em oficial, depois de algum tempo Gregório passou a ser guarda-costas do Getúlio Vargas no Quartel General”. Ele explica que no Quartel General só entravam oficiais, então Getúlio Vargas nomeou Gregório Fortunato em Tenente Gregório Fortunato. Sr. Pedro acredita que foi o Tenente Gregório que comandou o atentado contra Carlos Lacerda, sendo preso na Casa da Detenção. Sr. Pedro comenta o suicídio de Getúlio Vargas, dizendo que o Getúlio estava depressivo. O relato do Sr. Pedro nos mostra como o suicídio de Getúlio foi um acontecimento marcante na memória dos brasileiros da época.

Uma vida de histórias! Quando estava perto do Vaticano, Sr. Pedro foi proibido de entrar, pois estava uniformizado militarmente, o que era uma restrição imposta pelo governo do Vaticano.

Segundo Sr. Pedro, “Eurico Dutra (então Ministro da Guerra, como lembra ele) recebeu uma tropa italiana para dar uma farda para passar o inverno da Europa, pois lá faz muito frio”.

Ao saber das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, Sr. Pedro disse que isso foi impactante para ele de como era grande o poderio dos Estados Unidos da América, pois, segundo o seu relato, no local de impacto das bombas atômicas durante cinco anos não cresceu nada, por efeito da radiação, e depois de meses as pessoas ainda sentiam os efeitos da radiação no organismo.

Sr. Pedro não deixou de comentar das mulheres italianas, dizendo que eram muito lindas, e revelou um fato que demonstrava com a situação da Itália estava difícil:

Segundo ele, muitas mulheres iam ao acampamento dos militares para se prostituírem em troca de comida, então muito soldados aproveitaram disso, utilizando a ração militar como pagamento. Como geralmente a tropa não ficava por muito tempo nas cidades, não dava tempo de algum soldado criar algum laço afetivo com alguma mulher. Encerro esta entrevista agradecendo à família de Pedro Cândido Ribeiro pela atenção que me foi dada quando solicitei a visita e no decorrer da entrevista. Principalmente, quero agradecer ao nosso querido pracinha Pedro Cândido Ribeiro, que pela sua força e coragem defendeu o Brasil e a Itália das tropas do Eixo, que honrou a nossa nação em um momento turbulento no mundo. Com certeza a cidade de Pains está honrada em ser o lar de alguém que faz parte da história brasileira.

Pedro Cândido Ribeiro na Segunda Guerra Mundial

Pedro Cândido Ribeiro no Desfile Cívico de 7 de Setembro, Pains – MG

Pedro Cândido Ribeiro em homenagem da PUC Minas Arcos

Belo Horizonte, 29 de Agosto de 2012.

Segue abaixo o texto em PDF para download:

Relato do Pracinha – Revisado

1 Lema utilizado pelos soldados da Força Expedicionária Brasileira.

2 Fonte: Wikipédia, USS General W. A. Mann, disponível no link: http://pt.wikipedia.org/wiki/USS_ General_W.A._Mann.
USS General W.A. Mann


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4 comentários

  1. Que história incrível!

    Meu sobobrenome é Cândido de Oliveira. Meu avô José Cândido de Oliveira nasceu em Formiga em1918.

  2. Higor Borges /

    História muito interessante e incrível. Parabéns a este rapaz. Que Deus o tenha.

  3. antonio cândido /

    Ola. Meu pai era caetano cândido. Filho de cândido ribeiro. Nunca conheci. Meus avos paternos. Nem tio nem tia. As informaçoes q tenho somente do registro de nacimento.e uma historia q meu pai contou. Que fugiu de casa aos 14 anos. Obs. Ele veio de minas gerais. Qual quer informaçao entrar em contato. Pois gostaria muito. Conheser algum parente. Pois sou o filho mais novo dele. Com 40. Anos agora. E ele morreu. Eu so tinha 15 anos. Obrigado.

  4. Jose candido pereira /

    Sou da família candido ribeiro do gama município dr Itapecerica mg um abç a todos envolvidos.

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