Tenente-Coronel Mario Raphael Vanutelli

Por Israel Blajberg

CPOR/RJ,  Artilharia 1965

Nascido em São Paulo, foi declarado Aspirante a Oficial R/2 de Artilharia em 1941 pelo CPOR/RJ.  Na Itália integrou o 2º. Grupo do 1º. Regimento de Artilharia Auto Rebocado, depois 2º. Grupo de Obuses 105mm, o Grupo Da Camino, sediado em Campinho – RIO, que realizou o 1º. Tiro da Artilharia Brasileira na II Guerra Mundial, no sopé do Monte Bastione.

Cel Vanuteli 21 GAC 18 set 2012

Além de Oficial de Manutenção da 2a Bateria de Obuses, foi também Oficial de Munições do Destacamento FEB e Observador Avançado do Grupo junto ao 6o RI.

Esta unidade é hoje o Grupo Monte Bastione – 21° Grupo de Artilharia de Campanha, aquartelado no Forte Barão do Rio Branco em Jurujuba, Niterói, sucessor do 2° GO 105 FEB, por sua vez herdeiro de uma das nossas mais antigas e tradicionais unidades, o Corpo de Artilharia do Rio de Janeiro, criado por Carta Régia de Dom João V em 1736, para guarnecer as fortalezas que defendiam a Baia da Guanabara.

Após estágio de 6 meses no 1o Regimento de Artilharia Antiaérea em Deodoro, foi designado para integrar o II Grupo de Obuses, aquartelado em Campinho e classificado como Oficial de Manutenção da 2a Bateria de Obuses, já com material norte-americano, que havia chegado a tempo para fins de treinamento, jipes, as viaturas 3/4, viaturas comando, caminhões de duas e meia toneladas (GMC) e os obuses 105mm.

As Unidades de Artilharia – o seu II Grupo, o I Grupo de São Cristóvão, comandado pelo Coronel Levi Cardoso e o III Grupo, do Coronel Souza Carvalho, que veio de São Paulo, faziam manobras na região de Campo Grande e Barra da Tijuca.

O transporte de guerra General Mann  zarpou no dia 2 de julho de 1944, pela manhã, passando pelo Pão-de-Açúcar, Fortaleza da Laje e todos no tombadilho, estibordo do navio, apreciando a paisagem e dando adeus ao Rio de Janeiro e ao Cristo Redentor; era um dia, aliás, muito bonito. Esse navio foi escoltado por três contratorpedeiros da nossa Marinha de Guerra, o Greenhalgh, o Marcílio Dias e o Mariz e Barros.

No navio embarcaram cinco mil e novecentos homens. Nele viajaram o seu Grupo – o II, o 6o RI e frações do Esquadrão de Reconhecimento, do 9º Batalhão de Engenharia, da Companhia Leve de Manutenção, da Companhia de Intendência, constituindo o chamado Combat Team.

Chegando a Itália o Grupo se deslocou para região de Vecchiano, recebendo ordem, assim como o 6o RI, de engajar-se na frente em área já determinada pelo Comandante do IV Corpo. O II Grupo comandado pelo Coronel da Camino ocupou posição vizinha ao Monte Bastione – assim depois da guerra essa Unidade foi denominada Grupo Monte Bastione.

Neste sitio a 1ª. Bateria, do Capitão Mário Lobato Vale, disparou o primeiro tiro da Artilharia Brasileira fora do continente latino-americano, no Vale do Sercchio, em apoio às ações do 6º. RI na captura de várias localidades importantes como Barga, Massarosa, Galicano e tantas outras.

No I Grupo de Artilharia, comandado pelo Tenente-Coronel Valdemar Levi Cardoso, servia seu irmão, 2o Tenente Antônio Vanutelli, subalterno da Bateria Comando do I Grupo, oficial de manutenção da subunidade, tendo recebido muitos elogios nessa função. O Comandante da Bateria Comando era o Capitão Oldemar Ferreira Garcia, que mais tarde chegaria a General. Os dois irmãos, únicos filhos, deixaram seus  pais em casa no Rio, seguindo para Itália  no 1o e 2o Escalão. Antônio, o irmão mais novo, é falecido.

Na ofensiva de abril, a Unidade prosseguiu rumo ao Vale do Pó, sabendo que vinha do sul a 148a Divisão do exército alemão, com remanescentes da 90o Divisão Panzer e da Divisão italiana Monterosa  no propósito de atravessar os rios Pó e Panaro e prosseguir para o Norte. Houve no início uma refrega, porquanto os brasileiros perceberam através da ação do 1o Esquadrão de Reconhecimento que o inimigo pretendia furar o cerco. Houve tiro de Artilharia e ação da Infantaria. Como estavam com muitos feridos resolveram prosseguir com os entendimentos junto ao Comando da FEB para que se procedesse à rendição.

Vanutelli esteve presente ao evento. Perto de 20 mil homens foram feitos prisioneiros, incluindo o comandante General Otto Fretter Pico e seu Chefe de Estado-Maior Major W. Kuhn. Coincidentemente, o Coronel Franco Ferreira, oficial de Estado-Maior de Cavalaria, que havia sido adido militar na Alemanha antes da guerra e falava muito bem alemão participou das negociações.

Cel VAnuteli no 21 GAC 18 set 2012

Terminada a guerra, Vanutelli retorno ao Brasil após 15 dias de viagem. Numa bela manhã, a primeira ilha divisada foi a Rasa. O navio passou e entrou na baía, escoltado por dezenas de embarcações, apitando, fazendo ruidosa e alegre manifestação pelo regresso do 1o Escalão da FEB, atracando no Cais do Porto, armazém 8, onde receberam a visita do Presidente da República, Getúlio Vargas. Foram reunidos todos os oficiais num salão do navio, quando Getúlio falou algumas palavras, agradecendo pelo êxito da FEB na Itália.

Havia comboios esperando no cais e já passava do meio-dia quando entraram nas viaturas designadas para cada Unidade. Iniciou-se o deslocamento no meio da multidão reunida ali perto, na Praça Mauá e na Avenida Rio Branco. Foi a maior multidão já reunida. A manifestação foi impressionante. Junto com o Escalão veio um Pelotão de elite do Exército dos Estados Unidos. Eram os Rangers, que também desfilaram.

A surpresa veio depois. Ordens superiores determinavam a desmobilização da FEB, o que se completou em poucos dias, trazendo um impacto muito grande, porque muitos já não sabiam nem mais o que fazer.

Imaginavam que iam receber ordens, orientações, mas nada aconteceu. Foi tudo muito rápida. Para os oficiais foram dados dois meses de férias, e aos demais um prazo para decidir se ficaria engajado ou voltaria para casa. Gente de São Paulo, de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul, do Paraná, muito ansiosos para regressar a seus lares e rever suas famílias.

Assim foi desmobilizada a FEB.  Terminados os dois meses, Vanutelli  foi classificado na Fortaleza de Santa Cruz. Justamente no dia em que Getúlio foi deposto, foi se apresentar. Encontra toda a tropa de prontidão, permanecendo 3 meses na OM.

De lá mandado para Santa Catarina, 12º. GMAC de Imbituba, onde havia uma Bateria de Canhões 152.4mm para defesa da costa. O pessoal da FEB fora todo transferido.

A vida continuou, até chegarmos a 2013, quando o estimado Cel VANNUTELLI completa 95 anos cercado da atenção e carinho da família e de seus muitos amigos no Exercito e na Comunidade R/2.

Já não estão mais aqui os saudosos Cabo Adão, Sgt Lima, Ten Galper, Cel Portella, Gen Portocarrero, Gen Montagna e tantos outros que anualmente reviviam  o Primeiro Tiro. A cada 16 de setembro o Cel Vanutelli retorna a sua antiga unidade no histórico quartel de Jurujuba, para cumprir sagrado dever de memória, recordando o momento em que a Artilharia da FEB desencadeou pela primeira vez sobre o inimigo nazista o poder do raio e do trovão, como os comandados de Mallet o fizeram na Campanha do Paraguay.

Sob a proteção da nossa Augusta Padroeira Santa Bárbara a guerra estava começando, o então Tenente Vanutelli entrava em ação. No sopé do Monte Bastione um vento gelado já prenunciava os rigores do inverno que vinha chegando.

Exatos 1422. A fumaça branca se dispersa levada pelo vento de Jurujuba. Enquanto a tropa se prepara para o desfile o Cel Vanutelli recorda seus irmãos de armas que não voltaram. Não existe consolo, mas suas almas se elevaram pela certeza de que um mundo melhor passaria a existir.

Ele, o Velho Artilheiro cumpriu o seu dever, simplesmente foi um soldado – do Exercito de Caxias  – da Artilharia de Mallet.


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