Reverência a um Herói da FEB

feb1945

O inesquecível general AMADEU MARTIRE foi meu comandante no 12° RI, de Belo Horizonte, quando coronel, nos anos de 1965 a 1967.

Dele guardo as mais gratas recordações. Foi um exemplo para mim, jovem tenente de então. Íntegro e respeitado, mais exigente consigo mesmo do que com os outros. Era um homem de bem, modesto, muito justo e extremamente humano e generoso, incapaz de fazer mal a quem quer que fosse. Não era um militar de compleição avantajada, de elevada estatura, de voz tonitruante; jamais gritou para a tropa. Caracterizava-se por uma impressionante calma e serenidade com que lidava com as mais diversas situações, pelo inexcedível rigor no cumprimento do dever e pela grande força moral que infundia a seus subordinados. Eu pude comprovar a sua aguda sensibilidade, quando de um exercício conjunto do nosso regimento e da PMMG na região de Itabira, logo em 1965. Ao raiar do dia, por coincidência, passando pela barraca do comandante, ele estava saindo de lá, muito bem fardado e barbeado – aliás, o que era sua “marca” – e eu lhe fiz a continência, dizendo: “Bom dia, comandante! O senhor deve estar se lembrando da Itália!”. Ele, um militar reservado, austero e sisudo, respondeu aos cumprimentos, fez um sinal para que me aproximasse e me deu um forte e prolongado abraço; percebi, então, que lágrimas rolavam de seus olhos. Jamais me esqueci desse comovente episódio! Era muito bem casado com dona Marluce, pessoa boníssima, de lhana educação, bastante simples e muito afável, pelo que era queridíssima por todos.

Na guerra, o então capitão Martire foi o bravo comandante da 8ª Companhia do III Batalhão do 1° RI – o “Regimento Sampaio”. Tive a oportunidade de pesquisar sobre sua atuação em combate. Em alguns livros referenciais e palavras de seu comandante de batalhão na Força Expedicionária Brasileira, consegui saciar, parcialmente, a minha curiosidade.

Da obra “A FEB pelo seu Comandante”, do marechal Mascarenhas de Moraes, transcrevo um trecho acerca do terceiro ataque ao Monte Castello (12 de dezembro de 1944), pág 121 em diante: “Também ficara ajustado desencadear de surpresa a operação. Assim, sem preparação de artilharia, os Batalhões dos Majores Franklin e Syzeno (III/1° RI e II/ 1° RI) deveriam ultrapassar a base de partida às seis horas e seis horas e meia, respectivamente… Os aguaceiros, que vinham caindo ultimamente, empaparam o terreno, transformando a área de acesso às bases de partida num imenso lodaçal… Mas no justo momento da partida do Batalhão Franklin, às seis horas, a artilharia americana desencadeou, prematuramente, um bombardeio diversionário sobre Monte Belvedere, quebrando por completo o sigilo operativo”. Na página seguinte, prossegue o marechal: “Não obstante a dificuldade de progressão e a circunstância de permanecerem detidos os elementos vizinhos, à direita e à esquerda, o Batalhão do Major Franklin transpôs a primeira zona da barragem inimiga e se lançou arrojadamente, para o cimo da elevação buscando empolgá-la o quanto antes. Houve mesmo elementos seus que conseguiram aproximar-se muitíssimo da crista do lendário morro, mas não voltaram. Alguns desses bravos companheiros foram encontrados insepultos [em 21 de fevereiro de 1945, quando da conquista do monte, por nossas tropas], bem NO TOPO DO MORRO” (o destaque é meu). Em 1966, o general Franklin Rodrigues de Moraes, em uma visita ao 12° RI, disse aos oficiais do regimento sendo eu um deles, referindo-se ao coronel Martire, palavras, como as seguintes: “Os senhores têm um comandante macho. Foi a Companhia dele que garantiu o êxito do cumprimento da ordem de retraimento do meu batalhão, permanecendo em posição no terreno, sob nutrido fogo inimigo, sendo a última subunidade a regressar à linha de partida”… A propósito, quando de uma reunião de expedicionários, na Cantina Dom Tintilo em São Paulo, no ano de 1973, ouvi o mesmo general Franklin, muito emocionado, declarar que se tivessem permitido, o seu III Batalhão, naquele dia, já teria conquistado Monte Castello.

No livro “O Brasil na II Grande Guerra”, de autoria do tenente-coronel Manoel Thomaz Castelo Branco, pág. 265, lê-se, a respeito do frustrado ataque a Monte Castello do dia 12 de dezembro de 1944: “Com muito oportunismo e habilidade, conseguiu o III/1° RI ultrapassar o II/1°RI, antes que as barragens de artilharia e morteiros o detivesse, galgando, desassombradamente, as encostas do Monte Castello, numa soberba e magnífica demonstração de virilidade e de elevado espírito de sacrifício”.

Ainda, nessas breves considerações, invoco o testemunho do general Walter de Menezes Paes, que, quando capitão, foi o oficial de operações do III/1°RI. Em seu livro “Lenda Azul”, referente à participação na guerra do glorioso “Batalhão Franklin”, afirmou, à pág. 6: “O capitão Amadeu Martire, outro excelente companheiro, muito eficiente no comando de sua Companhia, correto e justo, sereno e valoroso em combate, inteligente e capaz, líder verdadeiro, que conduziu com acerto, firmeza e eficiência a sua subunidade”.

Procurei acompanhar a carreira desse oficial, durante todo o tempo, sempre recebendo as melhores notícias acerca do grande ser humano, de caráter irretocável.

Era assim, o heroico general Amadeu Martire, ínclito oficial que tantos e tamanhos serviços prestou ao Brasil, na paz e na guerra! Não apenas por tudo o que foi anterior e perfunctoriamente expendido, este lendário oficial do Exército merece a melhor das reverências de todos os brasileiros!

Mas, por desgraça, ele foi injuriado, pelo menos de forma irresponsável, pela Comissão Nacional da Verdade, que arrolou o seu augusto nome na nominata contida no revanchista e unilateral relatório que foi tornado público, em 10 de dezembro de 2014. Jamais qualquer pessoa pode ter levantado, em algum tempo, uma suspeita sobre a participação ou omissão do oficial do Exército Amadeu Martire em, possível, caso de afronta aos direitos humanos.

O Tribunal da História há de fazer Justiça – que é a primeira das virtudes, segundo São Paulo Apóstolo – reabilitando para sempre a impoluta memória de meu ex-comandante e de tantos outros honorabilíssimos militares de nossas FFAA, que também foram vilipendiados, sem oportunidade de defesa, inclusive os já falecidos, como esse saudoso general. É o que esperamos: o autor dessas incompletas achegas históricas e a família do notável general AMADEU MARTIRE.

Coronel (R) de Infantaria e Estado-Maior, Manoel Soriano Neto – Historiador Militar


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2 comentários

  1. Cesar Campiani Maximiano /

    É uma pena que a “História Oral do Exército” não o tenha entrevistado, e, especificamente, a propósito de sua ação como comandante de companhia. Urge que o serviço histórico do Exército faça entrevistas profundas com esse que é talvez o único remanescente dos comandantes de companhia da FEB. Meu tio-avô, morto em 1999, serviu como fuzileiro nesta mesma companhia do Sampaio.

    Martire certamente tem informações muito relevantes sobre os combates por Monte Castello. Está na hora de alguém registrar a memória deste homem, e eu não o faço simplesmente por ele não habitar a mesma cidade que eu.

  2. Gabriel Cesário Ramos Neto /

    Reafirmo, é uma pena não termos dado a esses heróis a devida honra, focamos muito o contexto de todo o cenário da grande guerra, mas esquecemos de valorizar os heróis protagonistas que estavam bem perto de nós, os quais com uma bravura sem tamanho e com uma lealdade sacrificial se colocaram a disposição das forças armadas em defesa da honra do seu país e da paz mundial. Sabemos que de Deus vem toda recompensa, quem sabe? se o que hoje estamos passando não é porque não soubemos valorizar e imitar a dedicação a honra e a lealdade que eles nos ensinaram?
    Dedico esse comentário ao meu pai, o meu herói, que ingressou como voluntário nas fileiras do exercito em 1943 à 1947 e apesar de muitos fatos, não terem sido escritos em seu histórico, nos foram por ele contados e presto as minhas homenagens a todos aqueles que como ele, diante de uma situação tão adversa, tiveram a coragem que muitos que hoje os julgam não tem. Que Deus abençoe o BRASIL!!

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