Os Piumhienses da FEB

Os veteranos de Piumhi/MG na Força Expedicionária Brasileira

Costa leste americana, madrugada do dia 16 de fevereiro de 1942. A contrastar com as águas calmas, somente a esteira branca deixada pelo deslocamento do mercante brasileiro Buarque que rumava para os Estados Unidos. Por volta das 01:00 h AM outra esteira branca aparece pelo través de boreste, deslocando-se célere em direção ao navio. Esta trazia consigo destruição e morte. Logo a seguir um forte impacto e a explosão. O Buarque fora mortalmente atingido por um torpedo. O navio parou as máquinas e embora com o costado avariado manteve-se flutuando.

O Comandante, Capitão-de-Longo-Curso João Joaquim de Moura, ordenou o abandono. Enquanto as baleeiras eram arriadas, à curta distância do mercante agonizante emerge a sinistra silhueta do submarino agressor. Soube-se depois tratar-se do U-432 da Marinha Alemã comandado pelo Capitão-Tenente Heinz-Otto Schultze. Como que para demonstrar magnanimidade, o agressor espera que as baleeiras se afastem levando salvos os 73 tripulantes. O submarino mira novamente o navio indefeso e dispara o petardo de misericórdia. O segundo torpedo atinge em cheio o Buarque  e o coloca a pique.

A mesma sorte não tiveram os 54 tripulantes do Cabedelo que dois dias antes saira do porto de Filadélfia e desaparecera no mar, possivelmente também atacado por um submarino alemão. Dois dias depois, a 18 de fevereiro de 1942, foi a vez do Olinda e a 7 de março o Arabutã. Daí por diante tiveram o mesmo destino o Cairú, Parnaíba, Comandante Lira, Gonçalves Dias, Pedrinhas, Tamandaré, Barbacena, Piave, Baependi, Araranguá, Anibal Benévolo, Itagiba, Arará, Jacira, Osório, Lajes, Antonico, Porto Alegre, Apalóide, Brasilóide, Afonso Pena, Tutóia, Pelotaslóide, Bagé, Itapagé, Campos e o Alegrete,  navio-escola da Marinha Mercante. Foram ao todo 31 navios mercantes brasileiros torpedeados, deixando um saldo de 973 mortos. À época em que fui Oficial da Marinha Mercante cheguei a conviver à bordo com colegas veteranos, sobreviventes de navios torpedeados. Como caçador inveterado de reminiscências que sou, procurava conversar com eles e as histórias que tinham para contar eram tristes, carregadas de emoção e invariavelmente os faziam chorar. Muitos outros, traumatizados, jamais voltaram a embarcar.

Diante das covardes agressões, o Presidente Getúlio Vargas decretou estado de beligerancia contra os paises do Eixo em 21 de agosto de 1942. No início de 1943  ficou decidido que o Brasil enviaria tropas para combater na Europa e começava a tomar corpo a Força Expedicionária Brasileira (F.E.B.), cuja criação oficial se deu em 23  de novembro de 1943. Após um período de treinamento intensivo, o 1º escalão da F.E.B. partiu do Brasil em 2 de julho de 1944 e mais 4 outros escalões o seguiram posteriormente, perfazendo um total de 25.334 combatentes.

Talvez poucos piumhienses saibam, mas dentre os expedicionários havia nove conterrâneos nossos: os sargentos Eurico Almada, Otávio Rodrigues, Donato Faria, Nilzo Alvim, Aduílio Gomes e os soldados Hugo Rocha, Zeuxis Veloso, Vivaldo Evangelista e Clarindo Costa. Seguiram com o 11º Regimento de Infantaria e participaram de jornadas heróicas no teatro de operações da Itália. Hugo Rocha era da arma de Comunicações e tinha como missão manter os contatos entre a frente de batalha e os postos de comando. Sucederam-se as batalhas e as vitórias brasileiras: Monte Prano, Montese, Castelnuovo, Zocca, Fornovo, Collechio, Camaiore e o até então inexpugnável Monte Castelo, que só foi conquistado com muito suor e sangue.

Terminada a guerra em maio de 1945, a F.E.B. retorna ao Brasil coberta de glórias e chorando a perda de 433 brasileiros mortos em combate, cujos corpos ficaram no Cemitério Militar de Pistóia. Os “pracinhas” de Piumhi  retornaram à sua terra e se integraram novamente à vida civil. Hugo Rocha mudou-se depois para Belo Horizonte e Nilzo Alvim ingressou no Banco Comércio e Indústria. Grande incentivador de eventos sociais e esportivos, Nilzo foi também dirigente do Atlético Piumhiense. A edição 1.081 do  Alto São Francisco de 26 de março de 1950 noticia sua transferência para Itapecerica para assumir a gerencia do Banco naquela cidade.

Sempre houve discussões a respeito da decisão do Brasil de enviar tropas para combater na Segunda Guerra. Há também compatriotas que são tendenciosos quando procuram diminuir a importância da presença da F.E.B na Itália. Mas o que é incontestável é a bravura e o patriotismo daqueles “pracinhas” que responderam ao chamado da Pátria e lá estiveram para defender os ideais democráticos. Para alguns deles, com o sacrifício da própria vida.

Será que em Piumhi, mesmo que seja lá naquele cantinho escondido da cidade, há uma rua com o nome de um dos seus heróis ou em alguma praça uma placa com o nome de todos eles?

Colaborador:

Marcus Vinicius de Lima Arantes

mv.arantes@hotmail.com


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11 comentários

  1. Isalete Leal /

    Marcus Vinicius, parabéns pela postagem!!! Os nossos jovens precisam conhecer a história de cada um que teve participação na Segunda Guerra Mundial.Com depoimentos, reportagens, testemunhos e livros vamos divulgando a história desses pracinhas que lutaram pela nossa PAZ.

  2. RÉGIS LOBATO /

    ÓTIMO TEXTO E SENSÍVEL NARRATIVA, TÍPICOS DO AUTOR. REPRODUZ A ATMOSFERA PRÓPRIA DE UMA ÉPOCA HEROICA QUE, POR INCOMPREENSÍVEL INDIFERENÇA, NÃO REVERENCIAMOS.PERDE-SE ASSIM, GRANDE OPORTUNIDADE DE, NO MÍNIMO, DEMONSTRAMOS GRATIDÃO AOS JOVENS QUE UM DIA, TROCARAM SUAS ROUPAS DE MENINO POR UMA FARDA E ENCARARAM O IMPONDERÁVEL, EM NOSSO NOME.
    A SUGESTÃO DE UMA HOMENAGEM COM UMA PLACA PÚBLICA AOS HERÓIS PIUMHENSES, TEM MEU APOIO IRRESTRITO.MATERIAL INCLUSIVE, SE NECESSÁRIO. PARABÉNS AO MARCUS ARANTES. ABÇ RÉGIS LOBATO-BH-MG-08-09-2011

  3. Bruno Cezar Lima /

    Marcus, como sempre dando uma lição de sabedoria e de esclarecimento, juntamente com cobranças justas! Eu também tenho feito (v. sabe, seu irmão etc). Piumhi, não é culpada! A nossa Terra é majestosa e singular! O que tem de ruim em nossa terra são os dirigentes de Clubes de serviços etc. O Executivo, até hoje deu certo!!!Todos com vontade de melhorar a nossa Terra; e como esta LINDA! Estive lá esses dias e voltei ENCANTADO!!!!!!! MAS, O LEGISLATIVO, FAÇA ME O FAVOR!!!! NÃO TEM MEMÓRIAS!!!! E NÃO QUER TER!!!! “O pior cego é o que não quer enxergar…” Marcus conte comigo! Parabéns pelo Texto!

  4. Nelio Arantes /

    Parabens primo me orgulho de ter um parente assim como você!.
    Abraços
    Nelio

  5. morel lopes de almada /

    É uma pena que o tempo ajuda apagar fatos tão marcantes e importantes

  6. Ronalkdo Lopes Dias /

    Valeu Marcus, aquela foto sua no Cemitério de PISTOIA fará com que meu pai até se mexa no túmulo, em 1986 ele tirou foto naquele mesmo lugar.

  7. sandra maria alvim braga vieira /

    Olá Marcus, sou filha de Nilzo Alvim citado em seu texto tão bem escrito. Meu pai falaceu em 88 mas sei que ficaria muito feliz de ver seu nome incluido em sua narrativa pois se orgulhava muito de ser expedicionário.

  8. Rômulo Alvarenga /

    Prezado Marcus
    Que bom que você tem a sensibilidade e poder de fazer belas crônicas. Nem parece ser engenheiro mecânico, curto e grosso.
    Parabens por mais esta !!!
    Abraço
    Romulo Alvarenga

  9. edson martins areias /

    Ao prezado Oficial de Máquinas da Marinha Mercante,
    Engenheiro Marcos Vinícius de Lima Arantes:

    Parabéns por seu oportuno artigo.

    Também eu , que por muitos anos naveguei como oficial de máquinas na Marinha Mercante, tive a subida honra de conhecer ex-combatentes da Gloriosa MM.

    Piuhmi e todas as cidades cujos filhos lutaram pela Pátria têm o dever de homenageá-los e realçar seu exemplo às gerações vindouras.

    Edson Martins Areias-Advogado
    (

  10. augusto luiz paulo de lima filho /

    Meus parabéns Vinicius. Ótimo texto Tenho orgulho de tê-lo como amigo.

  11. Caro Marcus,é com muita alegria ver o nome de meu pai (Eurico Almada )citado em teu texto.
    Meu pai seguiu carreira militar,se reformando como Major.
    Fez sua vida familiar,aqui no Rio Grande do Sul.
    Faleceu em 1974,com apenas 51 anos…
    Grata
    Mara Almada

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