Os Dias da Linha Gótica

Rememorando os fatos históricos por ocasião dos 70 anos da participação Brasileira na 2ª Guerra Mundial (1944-1945).

Para celebrar o fim da  2ª Guerra Mundial e a participação da Força Expedicionária Brasileira no teatro de operações  na Itália, muitas excursões foram organizadas no Brasil. Embora muitas tivessem organizado seus programas particulares, nenhuma deixou de cumprir o roteiro obrigatório das cerimônias que iniciaria a 20 de abril de 2015.

Com o  nosso grupo  não foi diferente, ao todo estávamos em 39 pessoas, sendo a maior parte formada de curitibanos, dentre os quais um ex-combatente o senhor Modesto Brito que pertenceu ao grupo de Saúde da FEB e o veterano Arioli  de Caxias do Sul mais familiares e pesquisadores. Ao nosso grupo agregaram-se cariocas, mineiros, paulistanos, catarinenses e gaúchos.

A chegada do grupo à Itália deu-se a 17 de abril, o programa seguiu com uma visitação por Pompéia, Nápoles, Sorrento e a Costa Amalfitana, paisagens de verdadeiro encantamento.

No dia 20 de abril ao meio dia e meia os grupos todos saídos do Brasil, cerca de 200 pessoas nos encontrávamos na Embaixada Brasileira, o espirito de confraternização era grande. Com um certo atraso a cerimônia teve início iniciou com as autoridades presentes, neste caso o embaixador brasileiro em Roma, sr. Ricardo Neiva Tavares, o comandante do Exército Brasileiro ge. Eduardo Villas Boas e o adido militar do exército cel. Mario Felizardo Medina. Foram executados os hinos nacionais da Itália e Brasil acompanhados pelos presentes, depois dos discursos de praxe, foram entregues aos veteranos da FEB placas comemorativas da data. Ao todo estavam presentes cerca de 7 combatentes

No dia 21 as comitivas que se encontravam na Itália por volta de 13.30 hs já estavam reunidos dentro do espaço onde está o Monumento Votivo de Pistóia Durante o período da guerra uma parte do cemitério foi cedida aos brasileiros para que os mortos em combates fossem lá sepultados. O local hoje traz uma atmosfera de tristeza mas de grande valor simbólico pelos que   ficam sepultos durante tantos anos. Nos idos de 1960 com a construção do Monumento aos Mortos na praia do Flamengo no Rio de Janeiro, os corpos foram trasladados da Itália após uma cerimônia oficial com a presença dos dois governos o brasileiro e o italiano. Hoje em Pístóia resta apenas o corpo de um soldado gaúcho encontrado depois na década de 1970. O local hoje (terreno) considerado apenas como Monumento, ainda não pertence ao Brasil, diversos acordos foram firmados com o governo italiano no sentido da concessão provisória da terra, documento firmado  e renovado a cada 25 anos.

Neste mesmo dia à tarde, estivemos em Stafolli, que na época da guerra foi um enorme acampamento de retaguarda da tropa brasileira, lá estiveram os soldados que  não estavam  em frente de combate ( cerca de e10 mil homens) atendendo todas as necessidades dos combatentes, seja no recompletamento da frente de batalha, ou na distribuição de suprimentos alimentícios, armamento, munição,  provisões de vestuários e outros. Depois de muitos anos, neste local no pós guerra foi encontrada pela polícia florestal italiana nos anos 90, uma gruta onde os brasileiros comumente faziam suas orações diante da imagem de Nossa Senhora de Lourdes. Um painel de fotografias exibe registros da época do acampamento, de forma didática para que todos entendam o que existiu ali. A população de Stafolli vivenciou momentos da guerra com os soldados brasileiros, guardam boas lembranças, tal local recebe os cuidados do senhor Giuliano Capelli e constitui em nossos dias um marco da história da FEB.  Nesta tarde o prefeito de Staffoli nos recepcionou com uma saboroso lanche , com comida local., doces e frutas, um carinho especial ao nosso grupo ofertado pela da comunidade local.
No dia 23 de abril as caravanas dirigiram-se para Bombiana e Guanella.

Em Bombiana encontra-se a placa em homenagem a frei Orlando que morreu após um grave incidente com uma arma de fogo. Frei Orlando, mineiro dirigia-se para as redondezas onde iria rezar uma missa e abençoar os soldados já posicionados no ponto de partida para o ataque a Monte Castello no dia 20 de fevereiro de 1945. Por ser um frei muito querido a sua morte inesperada atingiu todos que o amavam. Em Bombiana estivemos na igreja local, seriamente bombardeada na época, segundo os informes e relatos ali eram depositados os corpos dos brasileiros que tinham sido mortos nos primeiros embates da conquista de Monte Castello.

À tade Já em Guanella, local  em frente ao Monte Castello, visitamos o Monumento Libarazione da arquiteta brasileira Mary Vieira, nosso grupo já havia recebido ainda no ônibus os dados referentes ao Monumento, talvez um dos mais expressivos dedicados à FEB. A grande surpresa ficou por conta de uma visita no entorno ao Monumento, à Casa Guanella que pertence hoje ao comendador italiano Francesco Berti, o doador oficial do terreno aos brasileiros para a construção do Monumento  Liberazione. A casa é histórica e constituiu no passado, um fortim do século XII e fazia parte do território pertencente à família de Berti, provavelmente ao podestá (autoridade da época) formada de muitos quilômetros de terras, um verdadeiro feudo cujos limites estavam localizados próximos a Montese com mais ou menos 15 quilômetros de distancia da casa atual.  A Casa Guanella por estar localizada em frente ao Monte Castello, serviu de abrigo aos soldados brasileiros que dali partiam nas investidas ao Monte Castello, ainda hoje temos marcas de balas de metralhadoras pelas paredes. Vários depoimentos de soldados brasileiros fazem menção ao corredor da Morte em Abetaia e à Casa Guanella.

No dia 24 de abril todas as excursões estavam centradas no município de Iola, lá foi inaugurada uma placa em homenagem ao Serviço de Saúde da FEB, a comunidade proporcionou um almoço a todas as comitivas. Lá também está localizado um pequeno museu, muito bem organizado com diversas peças genuínas que relembram a presença brasileira e americana nas localidades vizinhas.

Dia 25 de abril estávamos em Montese, a lembrar os fatos que tanto marcaram a presença brasileira nos combates que iniciaram no dia 12 de abril e se prolongaram até o dia 17 de abril de 1945. A cidade com características medievais, sofreu o impacto das artilharias e cerca de mil prédios históricos foram destruídos, mais de 900 mortos entre a população montesina e o maior número de baixas entre a tropa brasileira proveniente das ações em campo minado.

Lá está  também o Museu de Montese, com muitas peças brasileiras da 2ª Guerra, a Praça Brasile cenário importante para os brasileiros e o Monumento Alla Libertá. Toda a população montesina participa do desfile do dia 25 de abril, com banda musical e o ponto alto do encontro de todos é a Praça Brasile. Do alto de Montese se avista todo o Belvedere e seu entorno. Participamos com nossos pracinhas no desfile cívico, por meio de viaturas militares. Após o discurso das autoridades e a benção dada por um padre local estava concluída uma das jornadas mais significativas.

Dia 26 de abril participamos em Parma de um encontro casual em praça pública com formações partigianas, seus admiradores e parentes, não esquecendo  que cerca de 900 soldados partigianos  ajudaram os brasileiros nos combates de Colechio e Fornovo di Taro que culminou na rendição dos alemães  às tropas brasileiras. Também neste dia acompanhamos a Coluna da Vitória com cerca de 176 viaturas vindas de várias partes da Europa. Os brasileiros, cerca de 30 pessoas não conseguiram embarcar seus jipes ainda no Brasil, mas desfilaram com as bandeiras do Brasil. Á tarde neste mesmo dia, uma encenação ao vivo da rendição tedesca aos brasileiros, mesmo   com narrativa italiana foi entendida por todos, um coral apresentou-se debaixo de chuvas, nada empanou o brilho das apresentações.

No dia 27 chovia muito quando nos aproximamos da estrada, no local exatamente onde está localizada a Pontescodogna, local da rendição alemã. Uma placa comemorativa foi colocada por ocasião dos 70 anos da Rendição. Impedidos pela chuva , o prefeito local veio nos cumprimentar dentro do ônibus da excursão.

Finalizadas as cerimonias na Itália, parte do grupo seguiu adiante. De ônibus seguimos para Paris, onde as visitas cumpriram o protocolo turistico.

Mas importante foi nossa ida até Normandia, quando da nossa caminhada pelos locais do  Desembarque do Dia D, passamos pelas as praias de Utah e Omaha Beach( Saint- Laurent- Sur- Mer) e Cemitério norte americano, mais Arromaches ( Gold Beach), La point du Hoc-Saint Mére- Église ( o paraquesdista e a igreja ) e o museu Airbone .
Aa emoção tomou conta de todos  ao constatarmos  in loco as dificuldades do desembarque  com mar revolto e ventos fortes oriundos do mar do Norte. A visão do terreno batido por crateras colossais onde a grama já cresceu. Também os bunkers  de onde saiam as metralhadoras de grande porte e as posições para os enormes canhões, nos conduziram a uma reflexão .Um giro no tempo, a recordar também a presença brasileira nos campos da Itália. Uma emersão na história, onde somente 70 anos foram passados, quase nada em termos de datação. Os aliados e o Desembarque do dia D, os brasileiros nos Apeninos, cientes nós todos do tempo histórico presente que a História ajudou a não esquecer.

Caminhávamos absorvidos pelo tempo, pelo frio e pela jornada cinzenta. Pelas trilhas avistávamos placas celebrativas dedicadas aos Rangers e paraquedistas mortos durante as três primeiras jornadas de junho de 1944. E pensávamos com emoção nos brasileiros, das 454 mortes em terras italianas, todos heróis a constituírem os caminhos das liberdades pelos quais trilhamos nossos dias.

Carmen Lúcia Rigoni
Doutora em História cultural pela UFSC
Associação Nacional dos Veteranos da FEB – seção Curitiba-Pr
Autora do roteiro turístico que cobriu as celebrações dos 70 anos da FEB na Itália e a visita aos locais do Desembarque do Dia D. em 1944 na Normandia (França)


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8 comentários

  1. Edineia Brito /

    Tive o prazer de estar nessa excursão, em companhia do meu avô ex-combatente e da Professora Carmén que durante todo o nosso trajeto dava aulas especiais de toda a história. Perfeito !

  2. Maria Elisabeth Arioli dos Reis /

    Com muito orgulho e emoção acompanhei meu pai, ex-combatente em todo o trajeto.Foi maravilhoso!!!!!

  3. Qdo terão outros? Qto custa tal passeio?

  4. Carmen Lúcia Rigoni /

    Olá, Gabriel!

    Este caminho que intitulamos A Linha Gótica onde a FEB combateu, já foi feito por diversos grupos sob minha coordenação pelo menos sete vezes. Este ano foi marcante, pois eram os 70 anos da participação dos brasileiros na guerra com todas as cerimonias descritas no texto. Não temos planejamento no momento para nova viagem, acredito que futuramente, dependendo do interesse das pessoas possamos repetir o passeio. Abril de 2015 foi marcante pois conseguimos celebrar este momento histórico com toda a emoção.
    Faça contato pelo email
    carmenluciarigoni@gmail.com
    Att/ Carmen Lúcia Rigoni

  5. Regina Abreu /

    Acompanhei esse grupo da Prof. Carmen para mais uma vez me emocionar pelos caminhos trilhados por nossos Heróis em solo italiano naquela Guerra Mundial. Em 2005, Papai esteve comigo, meu grande HERÓI, foi enfermeiro em Stafolli. Depois de um ano de seu falecimento, resolvi ir à Itália, dessa vez homenageando aquele que trazia em seu coração o orgulho de SER BRASILEIRO, endurecido pelos dissabores da guerra, mas sensível o bastante para tratar as feridas dos seus companheiros de jornada, dos italianos e, também, de alemães feridos. Obrigada Papai pelo que o Senhor fez por mim, pelo Brasil e por aqueles homens, mulheres e crianças que precisaram de seus cuidados naqueles momentos de dor. Manterei sempre viva a memória dos PRACINHAS BRASILEIROS, NOSSOS HERÓIS!!!

  6. Sou filha de ex combatente e tenho um carinho especial pelo assunto.
    Obrigada meu pai por tudo que fez por nós sua familia e a todos Brasileiros ,tenho muito orgulho de ser sua filha . Um homem forte que tão sedo nos deixou , Afonso Felipe Pracinha Brasileiro meu Herói

  7. Neuza Maria de Souza Satiro e Silva /

    Sou filha de um pracinha da 2a. Guerra Mundial, o ex-combatente e 2º Tenente José Bernardino de Souza, hoje residente na cidade de Sorocaba -SP, e ontem fiquei indignada quando na novela da Globo, das 18:00hs, Eita Mundo Bom, o ator Marcos Nanini vestido de farda e com o brasão da FEB, representava um ex-combatente pedindo esmolas numa praça de igreja. Na minha concepção, o pracinha brasileiro merecia ser lembrado de uma maneira mais justa e digna. Quero deixar registrada a minha indignação e protestos. Neuza Souza Sátiro.

  8. Bruno Védova /

    OLá

    Meu avô e EX-combatente de infantaria, lutou dois anos na segunda guerra mundial e nunca ficamos sabendo dessas excursões e gratificações feitas aos veteranos mês passado ele completou 96 anos e está lucido morando em nossa fazenda, levando a vida normal.

    Gostaria de mais informações

    Bruno_crf25@hotmail.com

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