O fim do guerreiro por Gustavo Adolfo Franco Ferreira

Sobre o Dia dos Pais

25/11/1970

Eu servia na Academia da Força Aérea, Pirassununga. Naquele tempo havia a subespecialidade Q AT TS – Quadro de Artífices – Treinamento Simulado, no Corpo de Graduados da FAB. Eu chefiava o setor. Morava na vila dos “pica-fumos”, Rua D, casa 12. Por um motivo qualquer amanheci o dia injuriado.

Flávio Franco Ferreira em 1924

-Chefe, não tenho nenhuma justificativa, mas quero ir ao Rio ver os meus.

Pedi ao comandante do Esquadrão.

Pega um T-37; leva um dos teus Sargentos mostrando os procedimentos de instrumentos; passa no Ministério e traz…”

Um papel de algum lugar que eu não me lembro mais. Assim agiu Ajax Augusto Mendes Corrêa. O convidado foi o Sérgio, 3S Q AT TS. Na chegada, o Sérgio foi para Ministério pegar a obrigação e eu fui para casa. Era meio-dia. Encontrei meu Velho bastante enfraquecido. Já vinha de alguns infartos contornados e tinha saído do hospital poucos dias antes, depois de se recuperar de outro destes. Só havia conviver com a Mãe e as irmãs. Acompanhei meu Pai ao banheiro e estendi-lhe a mão em apoio. Voltou ao quarto. Deitou-se. A Mãe chegou e se pôs ao seu lado. Eu fui para a sala. Não demorou cinco minutos!

O grito denunciou… Era o fim. Às 12:00 horas de 25 de novembro de 1970, terminou a vida do Militar, Marido e Pai dedicado, subordinado respeitoso, instrutor eficaz, Guerreiro e Combatente, Soldado obediente, além de Chefe rigoroso e justo.

Eu tive a honra de fechar-lhe os olhos. Havia se apagado uma fonte inesgotável de caráter, de fidalguia, de hombridade, de respeito e de consideração, sempre acompanhados de indispensável firmeza e clara definição dos princípios seguidos e dos objetivos colimados.

Mas não terminaram por ai as instruções claras!

Havia um envelope na segunda gaveta da pequena escrivaninha. Isto já se tinha ouvido antes… Quando o socorro médico se retirou, fui à gaveta. Não foi surpresa. Lá havia um envelope pardo, grande e polpudo que anunciava no seu anverso: Para ser aberto na hora em que eu morrer. Abri. Dois envelopes ligeiramente menores, um para a hipótese de a Mãe estar viva, outro para a hipótese de haverem passado juntos. Abri o primeiro. Havia uma página de instruções datilografada com espaços nos nomes, endereços e telefones; estes inscritos a lápis e muitas vezes atualizados. Acompanhavam os necessários requerimentos sem a indispensável assinatura. Fiz os telefonemas determinados; preenchi os requerimentos prontos. Avisei ao Sérgio e ao Esquadrão. À noite, chegou a minha Sandra.

Meu Pai e meus Filhos

Companheira, trazida pelos colegas de trabalho. No dia seguinte, já no velório, fui surpreendido com a presença de Oficiais do meu Esquadrão.

O já mencionado então Major Ajax, acompanhado de mais três aviadores que completariam o meu vôo e retornariam com o Sargento Sérgio e com o T-37 0887, que eu abandonara.

Muitos anos depois, de fato só depois da morte de minha Mãe em 1996, foi que eu soube ter havido, naquele dia uma tristeza irremovível: O 1º Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado da FEB não se abalou em mandar nem ao menos um cabo para representá-lo, no funeral de seu primeiro Comandante. Afinal de contas, o morto não passava de um simples oficial da reserva! Orgulhosamente, eu tive a presença, a companhia e o respeito dos meus companheiros e chefes!

A energia que o compunha, certamente, não se dissipou. Se couber, tomara que se materialize de novo. Índigo ou cristal, não importa… Servia a ambos!


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2 comentários

  1. Fernando Martini /

    Caro Gustavo Adolfo,
    Eu gostaria de, primeiramente, agradecer pelo texto e dizer que é uma pena que não se escreva tanto a respeito dos heróis da IIGM.
    Fui integrante do 1° Esqd C L até ano passado. Não estive lá quando do falecimento de seu pai, mas sou um interessado pelos assuntos da FEB, e gostaria de dizer do pesar em não conhecer bem a história de seu pai.
    Não sei se esta mensagem chegará até você, mas se chegar, ficaria feliz em conversar contigo.
    Meu email é fernando1671@yahoo.com.br
    De qualquer forma, sei que o Esqd faz 70 esse ano. A setenta anos seu pai levou homens para o combate e sofreu as agruras daquela insanidade que foi a IIGM. Não sei se consigui trazer as palavras para expressar meu sentimento, em especial por ter servido cinco anos naquela unidade e tão pouco saber sobre seu pai. Um grande abraço!

  2. Silvia M T Fontanari Cardoso /

    Lembranças das crianças (não balança Mar…) e do grande homem que foi vosso pai. Lembranças também de meu grande e honrado pai Luiz. Mais deles s de vida.

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