Newton de Souza Ortman – Miséria da Guerra

Newton de Souza Ortman do 9º Batalhão de Engenharia – Miséria da Guerra

- Acordei às 4:30 horas. Entreguei a cama de campanha e os 2 cobertores de lã que os americanos me emprestaram. Fiz a refeição da manhã: Carne, passas cozidas, café com leite, pão e manteiga e ovo cozido. Ótima refeição!

Às 7:00 horas embarcamos com a mala A, eu e vinte oficiais mais ou menos em caminhões. Atravessamos a cidade de Nápoles e após subirmos sempre, divisamos de lá de cima o notável porto e a bela baía de Nápoles. Após quarenta minutos de viagem, deixamos para trás a cidade napolitana. Reparei que os melhores edifícios estão ocupados pelos oficiais americanos. O caminhão, levou-me através da Via Príncipe Humberto, até à Estação de Caserta, distante de Nápoles, 2 horas e meia. Pelo caminho, encontramos de um lado e de outro da esplêndida estrada (tipo avenida), tropas inglesas, americanas e italianas, acampadas, que estão se preparando para entrar em ação. Após três horas de espera nesta estação semi-destruída, tomamos um trem. Ocupei uma cabine com o Ten. Guido (da minha turma e de cavalaria, que vai atuar como intérprete de alemão junto ao Q.G. do Gen. Mascarenhas de Morais). A cabine, de 3ª classe de um trem alemão, era incrível, incômoda. As portas desse carro abrem para fora. Teremos que dormir, cada um sobre um banco de madeira, esta noite. Isto é a guerra !

Estamos num comboio de mais de 40 vagões (cheios de soldados brasileiros, americanos e ingleses) puxados por uma única máquina americana. Os comboios são: Franceses, italianos, alemães e americanos. Vejam só!

Após uma viagem cheia de paradas e saídas, chegamos a famosa cidade de Casino, às 16:00 horas. Que destruição, meu Deus! Não ficou pedra sobre pedra. Já tinha visto destruição, mas como a que vi em Casino, nunca! Vi, durante a viagem, pontes, pontilhões, trilhos, tudo destruído, mas como Casino, só Casino! Do Mosteiro só restaram paredes! Esse Mosteiro fica a mais de 300 metros de altura! O terreno, em redor do monte é plano; do lado alemão havia fortins e mais fortins destruídos. Nunca vi tanta desolação!

Antes que me esqueça, direi que a miséria e a pobreza impera nas cidades italianas. As crianças pobres não podem usar sapatos, porque um par de sapatos custa 2000 liras para mais (1 lira = Cr$ 0,20). Um bife de carne custa Cr$ 80,00; uma galinha custa Cr$ 200,00! É uma coisa horrível essa miséria!

Continuamos a viagem durante a noite toda. Comemos refeições conservadas em latas. Boa noite e até amanhã, se Deus quiser!

Créditos: Marcio Ortman

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