Navio Mercante – SS Barbacena

Por Fabrício Robson de Oliveira[1]

barbacena

SS BARBACENA ainda com a inscrição de registro SS GUDRUN (Fonte: http://www.sixtant.net/2011/artigos.php?cat=brazilian-ships-sunk-&sub=ships-sunk-a-z-(33-pages–72-images)&tag=12)barbacena)

RESUMO

A cidade brasileira de Barbacena, Minas Gerais, ganhou uma homenagem em 1917, tendo seu nome colocado em um navio alemão confiscado pelo governo brasileiro na Primeira Guerra Mundial, quando o mesmo foi levado a pique pelo U-Boat U-155 alemão, deixando 6 mortos e 56 sobreviventes.

Palavras-chave: Barbacena; Primeira Guerra, Segunda Guerra; U-boat; U -155; Gundrun; Oceano Atlântico.

 

ABSTRACT

The Brazilian city Barbacena, Minas Gerais, was honored in 1917, having its name placed on a German ship confiscated by the Brazilian government in the World War I, when it was taken down by the German U-Boat U-155, leaving 6 dead and 56 survivors.

Keywords: Barbacena; World War I; World War II; U-boat; U -155; Gundrun; Atlantic Ocean.

 

I – CONHECENDO O SS BARBACENA

O navio foi lançado em 8 de junho de 1909, tendo sua finalização 6 meses depois, sob o número de casco 226, nos estaleiros da Joh.C.Tecklenborg em Geestemunde, perto de Bremerhaven, cidade alemã no estado Federal de Bremen na Alemanha.

Entrou em serviço no período pré Primeira Guerra em 21 de maio de 1910, sob o nome SS GUNDRUN.

O cargueiro era de propriedade da Hamburg-Bremer-Afrika Linie AG, de Bremen, sendo o terceiro maior navio da empresa. Ele possuia 119,8 metros de comprimento por 15,8 metros de largura; calado de 7,807 metros, tendo capacidade de carga de 7463.00 toneladas. Feito com casco de ferro, sua propulsão era por turbinas a vapor, através de um motor de quádrupla expansão e uma hélice, cuja potência nominal atingia 639 HP, fazendo-o alcançar a velocidade de 12 nós (22 Km). Ele era maior e mais rápido do que os usados entre 1903 e 1906 que possuiam velocidade de apenas 9 nós (16 Km)[2].

II – VINDA PARA O BRASIL

O Gundrun encontrava-se no Recife, juntamente com outros navios de bandeiras estrangeiras para diversas finalidades, quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial. Gundrun e outros 44 navios alemães e 2 navios austríacos ficaram retidos até serem formalmente confiscados pelo Governo Brasileiro  em 1º de junho de 1917[3], quando rompeu-se as relações diplomáticas com o Império Alemão.

Em 26 de outubro de 1917, o Brasil declara guerra à Tríplice Aliança: Império Alemão, Império Austro-Húngaro e Império Otomano, participando assim da Primeira Grande Guerra, sendo estes navios passando a serem propriedades do Estado Brasileiro. O SS Gundrun é rebatizado de SS BARBACENA em homenagem a cidade mineira de Barbacena e registrado no Porto do Rio de Janeiro.

III – BARBACENA A SERVIÇO DA FRANÇA

Por causa da participação brasileira na Primeira Guerra, o país assinou o Tratado de Versalhes, com isto, o Brasil recebeu indenizações pelas perdas dos navios afundados pelos submarinos alemães e cerca de 70 navios dos Impérios Centrais apreendidos em águas brasileiras foram incorporados à frota nacional por preços simbólicos.

Em dezembro de 1917, o Parlamento brasileiro aprovou o afretamento de 28 embarcações apreendidas durante a Guerra para a França e em maio de 1920, a França queria renovar o contrato do empréstimo dos navios, mas não sinalizou interesse nas compras dos mesmos, pois estavam orçados com um alto custo para as manutenções, assim, o Brasil se recusou a realizar tal renovação do contrato e solicitou o retorno para os portos brasileiros dos 28 navios antigos alemães, incluído o Barbacena.[4]

A partir de 1922 o SS Barbacena passou a ser operado pela Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro[5][6][7] que adquire a plena propriedade com sua compra em 1927 até seu afundamento.

IV – SUBMARINO ALEMÃO U-155

u155Fonte: http://webkits.hoop.la/topic/u-155

O Submarino alemão U-155 foi do Tipo IXC U-boat da Alemanha nazista, designado para a Kriegsmarine (Marinha de Guerra), sendo construído para serviço durante a Segunda Guerra Mundial. O U-155  realizou 10 patrulhas em sua trajetória, afundando 26 navios, totalizando 126,664  toneladas brutas de registro, um navio de guerra de 13.785 toneladas e danificando um navio de guerra auxiliares de 6.736 toneladas de arqueação bruta, 1 navio de guerra e um navio de transporte de tropas, e danificou um navio de carga, com uma salva de quatro torpedos durante sua 4ª patrulha, e derrubado um avião P-51 Mustang em sua patrulha final. Das 10 missões realizadas, o U-Boat colocou a pique 03 embarcações brasileiras, incluindo o Barbacena.

V – BARBACENA ATACADO

O SS Barbacena era comandado pelo Capitão-de-Longo-Curso Aécio Teixeira da Cunha em 1942 e com 62 tripulantes, fazia uma viagem que passava pelos portos de Santos, Recife, da Espanha, Trinidad e Tobago e Nova York, com uma carga total de 5.000 toneladas, incluindo café, óleo de mamona, fibra de caroá e feijão.

O Mercante estava saindo de Trinidad e Tobago rumo a Nova York na noite de 27 de julho de 1942, sendo avistado pelo U-155, comandado pelo Capitão-Tenente Adolf Cornelius Piening, que, em março, já havia posto a pique um navio brasileiro, o Arabutã.

Pelo fato de Barbacena estar armado com um canhão de 120 mm, o submarino disparou uma salva de 2 torpedos, os quais erraram o alvo, para a sorte do Mercante Barbacena. Um dia antes, o Tamandaré, outro navio mercante brasileiro, já havia sido afundado nessa mesma região por outro submarino hostil.

barcenamapaFonte: http://www.sixtant.net/2011/artigos.php?cat=brazilian-ships-sunk-&sub=ships-sunk-a-z-(33-pages–72-images)&tag=12)barbacena

O submarino ficou no encalço do Barbacena por cerca de dez horas. Na madrugada de 28 de julho às 06:15 (UTC), a aproximadamente 400 km a leste de Barbados/ Georgetown[8], o Mercante virou, quando foi atingido por mais 2 torpedos, desta vez certeiros, disparados pelo U-155, fazendo o Barbacena submergir completamente em apenas 20 minutos, tempo que a tripulação sobrevivente possuiu para abandoná-lo.

Morreram instantaneamente três membros da tripulação e três militares que guarneciam o canhão, deixando 56 sobreviventes.

Os sobreviventes ficaram em 4 botes salva-vidas, sendo cada bote resgatado por 2 cargueiros/baleeiros britânicos: Elmdale e San Fabian e o navio tanque a vapor argentino: Tacito. 1 bote alcançou a Ilha de Trinidad e Tobago[9]. O submarino alemão ainda teria canhoneado uma baleeira com sobreviventes do Barbacena por crueldade.[10]

VI – CONCLUSÃO

O SS Barbacena foi o 1º naufrágio na terceira patrulha do U-155 e o 14º navio mercante brasileiro[11] a ser atacado pelos submarinos do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial; sendo que horas depois, um pouco mais ao sul, seria afundado pelo U-155 o navio-tanque Piave, primeiro e único navio-tanque brasileiro atacado no período de guerra.

Os ataques dentro do mar territorial brasileiro começaram e se intensificaram rapidamente, chegando a causar a morte de mais de 600 pessoas em 6 dias, tendo como uma das consequências, a declaração de beligerância seguida pela existência de estado de guerra contra as potências do eixo.

Considerando a quantidade de embarcações brasileiras afundadas, o U-155 perdeu apenas para o U-507[12], que torpedeou em agosto daquele ano (1942) 6 navios brasileiros, causando a morte de 607 pessoas. O Barbacena está na 689ª posição no ranking de baixas na história, de acordo com o quantitativo de baixas.[13]

Na Segunda Guerra Mundial, os ataques aos navios da Marinha mercante brasileira, pelos submarinos do Eixo, entre os anos de 1941 e 1944, causaram a morte de mais de 1.000 pessoas.

REFERÊNCIAS

Bush, Rainer, Roll, Hans-Joachim (1999). Alemães comandantes de submarinos da Segunda Guerra Mundial: um dicionário biográfico . Traduzido por Brooks, Geoffrey. Londres, Annapolis, Md: Greenhill Books, Naval Institute Press. ISBN  1-55750-186-6 .

Busch, Rainer; Roll, Hans-Joachim (1999). Deutsche U-Boot-Verluste von setembro 1939 bis Mai 1945 [ perdas alemão U-boat a partir de setembro de 1939 e maio 1945 ]. Der U-Boot-Krieg (em alemão). IV . Hamburgo, Berlim, Bonn:. Mittler ISBN  3-8132-0514-2 .

Gröner, Erich; Jung, Dieter; Maass, Martin (1991). Submarinos e de Minas guerra Vessels. Navios de guerra alemães 1815-1945 . 2 . Traduzido por Thomas, Keith; Magowan, Rachel. London:. Conway Maritime Imprensa ISBN  0-85177-593-4 .

Kludas: Navios de Afrika-Linien, p.122

Naufrágios do Brasil. Navios Brasileiros afundados em outros países. Consultado em novembro de 2016, de SANDER. Roberto. op.cit., p. 176.

Oceania. Lloyd Brasileiro. Consultado em novembro de 2016.

Ricardo Bonalume Neto. Ofensiva submarina alemã contra o Brasil. Grandes Guerras. Artigos do Front. Consultado em novembro de 2016

Uboat.net. Barbacena (Brazilian Steam Merchant) Consultado em novembro de 2016

Uboat.net. Piave (Brazilian Steam Tanker). Consultado em novembro de 2016.

Wrecksite. Barbacena. Consultado em novembro de 2016.

Rodapés:

[1] Bacharel em Direito. Especialista em Direito Internacional. Pesquisador em segurança e defesa.

Linkedin: https://www.linkedin.com/in/fabr%C3%ADcio-robson-de-oliveira-72921374?trk=nav_responsive_tab_profile

[2] http://www.tecklenborg-werft.de/index.php?id=939

[3] http://www.digitalis.uni-koeln.de/Fenchel/fenchel_1_116-128.pdf

[4] France asked by Brazil to return the German ships borrowed during war. The Deseret News – 4. Mai 1920

[5] Estatal de navegação brasileira, fundada 1894, pela incorporação de inúmeras empresas de navegação. A empresa foi extinta em outubro de 1997 com o plano nacional de desestatização

[6] http://oceania.pbworks.com/w/page/8465961/Lloyd-Brasileiro

[7] Não confundir a companhia Lloyd Nacional com a companhia Lloyd Brasileiro, uma vez que, até setembro de 1942, eram empresas diferentes.

[8] http://www.navioseportos.com.br/site/index.php/empresas/armadores/25-longo-curso/64-lloyd-brasileiro

[9] http://uboat.net/allies/merchants/ships/1974.html

[10] http://www.sescsp.org.br/online/artigo/812_NO+CAIS+DOS+ESQUECIDOS#/tagcloud=lista

[11] http://www.theshipslist.com/ships/lines/lloydbrasileiro.shtml

[12] http://www.areamilitar.net/HISTbcr.aspx?N=136

[13] http://www.wrecksite.eu/casualty-list.aspx?F6SqowTzdqmbesASQKmR7w==#133547

Confira AQUI o arquivo Original


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1 comentário

  1. A história deste navio, curiosamente, é igual à história da própria cidade de Barbacena. Cidade que já foi destaque nacional, foi em um certo momento de sua história, “confiscada” por famílias parasitas denominadas “Andradas e Bias Fortes”. Por isso a cidade foi afundada no seu crescimento e se tornou o “sítio” destes indivíduos que compram e se mantém no poder com base do “voto cabresto”. Hoje Barbacena está literalmente no fundo do mar da economia por causa disso.

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