Monte Castelo: a vitória de um povo

Acervo do General Valdir Moreira Sampaio

Curitiba 21 de fevereiro de 2013.

Lembrar o 21 de fevereiro de 1945 é manter aceso um alerta em nossas consciências.É, portanto  lembrar a vitória de um povo.

Há 68 anos, os brasileiros subiram um monte gelado enfrentando todo o tipo de armadilhas e derrubaram com determinação o poderio nazifascista  incrustrado naquela fortaleza. Muitos ficaram no campo de luta, caíram sob o fogo germânico, desapareceram do convívio de seus companheiros, mas surgiram como heróis na memória de um povo. Os que voltaram para o Brasil  assumiram a grandiosa missão de manter acesa a chama daquele mesmo ideal que os fez embarcar para a Europa.

A guerra que já acontecia na Europa, estendeu-se ao Continente Americano e surpreendeu dolorosamente aos brasileiros com o  traiçoeiro afundamento dos navios mercantes ao longo das nossas costas.

Participar efetivamente do esforço de guerra aliado, já não se constituía num gesto de solidariedade continental, mas acima de tudo, num imperativo de consciência nacional: um dever para o qual a Pátria, a todos convocava.

Há que se evidenciar os fatos: Na ânsia que estava o 5º Exército Americano em tomar de assalto a cidade de Bolonha, ultimo baluarte alemão na Itália, criava-se uma expectativa junto ao comando brasileiro, pois as tropas aliadas estavam impedidas de avançar. Era necessário desviar o foco do comando alemão. Do mês de novembro de 1944 em diante, atacar o Monte Castello tornou-se missão de honra da FEB, no sentido de minar as forças de outras tropas inimigas.

Para entender os acontecimentos ocorridos nesta região, os registros históricos e a memória dos soldados constituem fontes obrigatórias. Os brasileiros não eram mais iniciantes na missão de guerra, as batalhas ocorridas no vale do rio Sercchio, haviam transformado esses homens em verdadeiros combatentes, mas mal empregados nos ataques ao Monte Castelo, pela Task Force 45 sob o comando americano, encerrando o ano de 1944 com grandes decepções  e infortúnios.

No Brasil, as noticias que vinham do front brasileiro na Itália, chegavam por meio dos correspondentes brasileiros e estrangeiros. Nesta fase, o Monte Castello tornou-se uma imagem negativa para os soldados da FEB, chegando a ser denominado como “ Monte Maldito” ou “Monte Fantasma” como escreveu Egydio Squeff de O Globo em janeiro de 1945.

O Monte Castello, protegido por várias outras elevações, dominava toda a extensão do Vale do Reno. Sua conquista era de real importância para as tropas aliadas. Do alto de sua crista, mais de uma divisão germânica tinha os olhos sobre os soldados brasileiros.Não fosse ele conquistado, seria impossível prosseguirem em seu avanço.

As primeiras operações no Reno, resumiram-se em quatro ataques mal sucedidos contra este baluarte.O primeiro e o segundo realizados a 24 e 25de novembro de 1944.O terceiro ataque fora planejado para o dia 29 de novembro, muitos deles realizados sob condições de extrema dificuldade, seja pelo clima apeninico  ou pela topografia montanhosa. O ataque frustrado realizado no dia 12 de dezembro de 1944 veio demonstrar que eram necessárias novas estratégias para a conquista do objetivo. O que estava em jogo era um frente de 15 quilômetros disputada pelos alemães e aliados.

No dia 19 de fevereiro de 1945, a agitação em torno do Monte Castello foi crescendo com a movimentação dos soldados que iam galgando as posições inimigas. O ambiente era de confiança e seguido atentamente pelos correspondentes de guerra.

O ataque final e decisivo ao Castello iniciou às 5 da manhã do dia 21 de fevereiro. As tropas em ofensiva constituíam o Primeiro Regimento de Infantaria, o Sampaio. Três batalhões seguiam na seguinte ordem: O 1º comandado pelo major Olivio Gondim de Uzeda, seguiu pela esquerda; o 2º,comandado pelo major Sizeno Sarmento, foi pelo centro e o 3º comandado pelo tenente coronel Emilio Rodrigues Franklin, partiu à direita. Os silvos das granadas explodiram sobre todos, formando uma cortina de fumaça, que caiu sobre o Castello como uma auréola de chumbo. Á esquerda do morro, posições norte americanas estavam ao lado do Belvedere. Cinco ou seis Thunderbolts desceram em picada, rápidos como um peso despencado de cima, metralhando impiedosamente os nazistas em defensiva.

Um dos momentos mais delicados do combate, talvez o mais expressivo aconteceu às 16h e  20 minutos, quando toda a  Artilharia Divisionária concentrou seus fogos sobre o Castello.

As faldas do monte estavam cavadas e lá em cima o cume ficou transformado numa cratera de vulcão. O general Cordeiro de Farias, acompanhando com um binóculo, num fiapo de voz disse: “ O Monte Castello caiu.”

Quando o capelão da Força Expedicionária Brasileira João Soren, saiu a procura dos soldados desaparecidos em ação nos combates anteriores, não tinha certeza se iria encontrá-los. As buscas estavam centradas nas vizinhanças da comune de Gaggio Montano ao sul de Bolonha. No cume do morro, persistiam as buscas. Os soldados foram encontrados entre os destroços dos casarios, todos juntos, quase em formação de combate.Os corpos insepultos por dois meses tinham sido preservados pela neve e causaram profunda comoção entre os presentes. Nos anais da FEB ficaram conhecidos como os 17 de Abetaia.

Entre os dias 21 e 23 de fevereiro de 1945, o correspondente  Joel Silveira  escreveu : “Os caminhos estavam  inteiramente intransitáveis, havia muitas armadilhas, campos e estradas estavam minados”. Estas foram as ultimas noticias sobre a presença de brasileiros, nesta frente italiana , congeladas pelo tempo nas palavras  do cel. Olívio Gondim Uzeda. Tudo isto aqui era terra deles. É um dos locais mais belos da frente.

No momento em que aquele cume foi valentemente conquistado a Bandeira Brasileira foi desfraldada. O intrépido gesto não significou apenas vitória militar de um pais humilde e pacifista, mas assegurou um lugar de honra na história daqueles dias  que impulsionado pelo espírito iluminado  buscou encontrar o seu futuro.

Hoje, os locais que cortam o Monte Castello foram demarcados por números registrados nos troncos das castanheiras, indicando os caminhos a serem seguidos por um visitante curioso, como a lembrar aos pósteros, que naquele local, um dia soldados da FEB se bateram pelos ideais democráticos que ajudaram a moldar o mundo.  Tal conquista para a história do Exército Brasileiro, demarcou um tempo, os dias da Linha Gótica, nas batalhas de vida e morte durante a 2ª Guerra Mundial.

Carmen Lúcia Rigoni.
Dra. História Cultural (UFSC)

Associação Nacional dos Veteranos da FEB- (ANVFEB) seção     Curitiba (Pr)
Academia de História Militar Terrestre do Brasil.(AHIMTB)


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6 comentários

  1. Muito boa a historia e a materia. E que não caia no esquecimento esse fato tão importante do Exercito Brasileiro

  2. Otima historia e envolvente. A cobra continua fumando………..

  3. Leonardo DOurado /

    Prezados,

    Seria possível conseguir informações a respeito do integrante desta foto “RUY” pois tinha um tio com este nome que participou da campanha da FEB, ficaria grato em saber se é ele.Agradecido!

  4. Carmen Lúcia Rigoni /

    Olá,Leonardo!

    Não sei se vamos conseguir ajudá-lo, a maior parte das fotos feitas pelos pracinhas e não pelo fotografo oficial da FEB, carece de informação, ou seja, local, nome completo das pessoas, o que acaba cusando un problema para os historiadores. Muitas vezes vamos tateando, por exemplo na foto aparece o Monte Castello ( provavel/ fevereiro de 1945) após a conquista, é frio ainda e os homens estão bem agasalhados. Os homens podem ter pertencido ao Sampaio, quando o coronel Uzeda participou ativamente com algumas companhias. Indico a vc. escrever para ANVFEB da FEB,R.J, lá estão os 5 livros com os nomes dos 25 mil homens embarcados. Veja endereço no próprio Portal.
    Desejando sucesso.

    Carmen Lúcia Rigoni

  5. Leonardo Dourado /

    Fico agradecido, por sua atenção Carmen Lúcia, irei seguir sua orientação, muito obrigado!

  6. Meu avô, 2º tenente Auto Rodrigues da Cunha esteve presente em Monte castelo, Orgulho!

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