Monografia: Os Pracinhas Potiguares na Segunda Guerra Mundial

“…A todos aqueles espalhados por todo o Rio Grande do Norte, guerreiros de admirável bravura, que regaram o solo italiano com seu sangue, suor e lágrimas para livrar o mundo da opressão e da intolerância nazista…”

 

Ranielle Macedo: Licenciado, Bacharel e Mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte

RESUMO

Esta pesquisa trata das lembranças dos pracinhas potiguares, protagonistas da participação brasileira no cenário da Segunda Guerra Mundial. Tal evento marcou decisivamente o Estado do Rio Grande do Norte, em especial sua capital Natal. Reconstruir os cenários que envolvem esses atores é o objetivo central desta pesquisa. Partindo da noção de memória coletiva em Halbwachs, formulamos as seguintes questões: O que significou a ida para o continente europeu de jovens que, na época, moravam no interior do Estado do Rio Grande do Norte? O que pensam esses atores sobre as experiências da Segunda Guerra Mundial? Que mudanças ocorreram na vida desses homens após a Guerra?  Para isso usamos a história oral como metodologia, com o fim de recompor as narrativas e interpretar os depoimentos coletados.

INTRODUÇÃO

A Segunda Guerra Mundial, um dos temas mais discutidos pela historiografia brasileira e mundial, ainda abre lacunas que precisam ser preenchidas pelos historiadores e demais interessados pelo assunto.

Em 1° de setembro de 1939 a Alemanha nazista invade a Polônia, dois dias depois França e Inglaterra reagem declarando guerra à Alemanha. Tinha início o conflito que reuniria grande parte das nações do mundo divididas em dois blocos. De um lado os países do Eixo, liderados pela Alemanha, Itália e Japão, e do outro, os Aliados, comandados principalmente pelos Estados Unidos, União Soviética e Inglaterra.

Após a eclosão da Guerra, o Brasil procurava manter uma posição de neutralidade em relação aos dois lados envolvidos no conflito. Essa posição foi ditada por razões de ordem econômica e ideológica. Por um lado, o governo era parceiro comercial dos Estados Unidos e, por outro, simpatizava com o nazismo alemão. Em dezembro de 1941, os japoneses desfecham um arrasador ataque surpresa à base norte-americana de Pearl Harbor, no Havaí; com isso, os Estados Unidos entram na Guerra contra o Eixo e começam a pressionar os países latino-americanos para fazerem o mesmo, em especial o Brasil, cuja costa nordestina era um importante ponto estratégico no Atlântico sul.

Com o afundamento gradual de navios mercantes brasileiros por submarinos alemães durante o ano de 1942, a população das grandes cidades brasileiras começa a se manifestar pressionando o governo a declarar guerra à Alemanha, o que acontece em agosto do mesmo ano. Em janeiro de 1943 os presidentes do Brasil, Getúlio Vargas, e dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, encontram-se em Natal-RN. Nesse encontro ficou decidido, dentre outras coisas, que o Brasil cederia bases militares no Nordeste brasileiro, durante a Guerra, aos Estados Unidos, e enviaria para a Europa uma força expedicionária.

Em 9 de agosto de 1943, a Portaria Ministerial publicada no Boletim Reservado, criava a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Nela foram incorporados, por convocação ou por voluntariado, milhares de jovens brasileiros de 18 a 30 anos que embarcariam para a Itália rumo a maior aventura de suas vidas.

O Rio Grande do Norte na década de 40, bem como a maior parte do Brasil, era um Estado agrícola cuja maioria da população encontrava-se residente na zona rural sem acesso a educação, saúde e informação. Dos 365 jovens potiguares que comporam a FEB a maioria residia no interior do Estado, ouvindo falar de uma grande Guerra que acontecia na distante Europa, mas nunca se imaginaram participando dela.

Tendo em vista a escassez de trabalhos enfocando depoimentos orais dos próprios protagonistas potiguares da Segunda Guerra Mundial, e atentando para o fato de que tais fontes estão a cada ano mais raras, devido à idade avançada desses homens, temos por objetivo principal analisar a participação dos pracinhas potiguares na FEB a partir de seus próprios relatos, destacando suas vidas simples antes da Guerra, no início dos anos 40, as experiências marcantes durante as batalhas na Itália e sua readaptação a sociedade após a volta para o Brasil.

Muitos são os trabalhos que tratam do Rio Grande do Norte ou de Natal na Segunda Guerra Mundial. Exemplo disso podemos citar autores como Clyde Smith Junior, Lenine Pinto e Cleantho Homem de Siqueira[1], os dois primeiros deram ênfase a cidade de Natal e a influência dos norte-americanos na vida de seus habitantes durante a Guerra; enquanto o último, veterano da FEB, escreveu sobre os pracinhas potiguares no conflito, mas não trabalhou com fontes orais.

No meio acadêmico, no Núcleo de Estudos Históricos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte há duas monografias que também se detém à análise da presença e influência dos norte-americanos em Natall: Natal durante a Segunda Guerra Mundial: rivalidade entre natalenses e norte-americanos, de Wagner Gomes e Natal na Segunda Guerra Mundial: influencia americana e prostituição feminina de Flávio Rodrigues. Porém nenhuma delas trabalha com fontes orais, nem destaca a presença dos pracinhas potiguares no conflito.

No Campus da UFRN em Caicó, encontramos uma monografia da historiadora Helena Lucena de A. Oliveira sobre os pracinhas parelhenses na Segunda Guerra Mundial[2], mas esse trabalho, apesar de basear-se em depoimentos orais só conta com três veteranos da FEB, tendo os demais depoentes permanecido no Brasil durante a Guerra.

Para a elaboração do nosso trabalho utilizamos o periódico O Globo Expedicionário de setembro de 1939 a maio de 1945 que nos propiciou reportagens de correspondentes de guerra e uma série de documentos e informações importantes referentes a FEB. Também foram utilizados os documentários cinematográficos “Senta a Pua[3] e “A cobra fumou[4], ambos do cineasta Vinícius Reis, que nos deram acesso a uma série de depoimentos de veteranos da FEB e da Força Aérea Brasileira (FAB) durante a Segunda Guerra Mundial.

Também foi utilizada uma bibliografia que nos possibilitasse o melhor conhecimento de técnicas de história oral, bem como, as melhores maneiras de se trabalhar com a memória de idosos, especialmente com memórias traumatizadas. Exemplo disso podemos citar Ecléa Bosi (1998), “Memória e Sociedade, lembranças de velhos”; Maurice Halbwachs (1968), “Memória Coletiva”; Paul Thompson (1992), “A voz do passado. História Oral” e José Carlos Sebe Bom Meihy (1998), “Manual de História Oral”.

Quanto à divisão deste trabalho, o primeiro capítulo (O Brasil antes e durante a Guerra) procura reconstruir, sinteticamente, a trajetória das forças armadas brasileiras da Independência política do Brasil até os dias atuais. Num segundo momento enfatizamos o Brasil no contexto da Segunda Guerra Mundial. Por fim, tratamos da criação e estruturação da FEB e sua partida para a Itália.

No segundo capítulo (Do Rio Grande do Norte à Itália) começamos a trabalhar com os depoimentos dos pracinhas, destacando o contexto histórico e social em que viviam no início da década de 40, a convocação, preparação e viagem para a Itália e suas lembranças da Guerra naquele país.

No terceiro capítulo (Visões da Guerra) tentamos reconstruir as impressões que os pracinhas tinham do povo italiano e dos inimigos alemães. Abordamos também suas experiências mais marcantes no campo de batalha, como encaravam a morte e qual o papel da religião durante os meses de Guerra.

Por fim, no quarto capítulo (De pracinha à ex-combatente) damos ênfase a vida desses homens após a volta para o Brasil; seus traumas, dificuldades enfrentadas, as lembranças que ficaram daquela época, e como se vêem na sociedade potiguar contemporânea, inseridos numa cultura onde o idoso, geralmente, é posto a margem da sociedade.



SMITH Jr., Clyde. Trampolim da vitória. Natal. UFRN/Editora Universitária, 1992;

PINTO, Lenine. Natal.USA. Nordeste. 2000

SIQUEIRA, Cleantho Homem de. Guerreiros potiguares: o Rio Grande do  Norte na Segunda  Guerra Mundial – Natal-RN. EDUFRN, 2001

REIS, Vinícius. BSBCinema, 1999.

REIS, Vinícius. BSBCinema, 2002.


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2 comentários

  1. isalete leal /

    Meus parabéns pela monografia. Precisamos de brasileiros como Ranielle Macedo para não deixar morrer a Nossa História.

  2. EDISON MIGOWSKI DE CARVALHO /

    HOJE, DIA 27 DE MARÇO DE 2013, EU COMENTEI COM UMA VIZINHA À RESPEITO DOS EX-COMBATENTES QUE, AO RETORNAREM AO CONVÍVIO DIÁRIO (PRINCIPALMENTE COM FAMILIARES), NÃO ESQUECIAM OS MOMENTOS DE ANGÚSTIA QUE VIVENCIARAM, VENDO COLEGAS E AMIGOS MORREREM AO SEU LADO. POR ESTE E OUTROS MOTIVOS (TODOS TRAUMATIZANTES), RECEBERAM MEDICAMENTOS (HOJE CHAMADOS DE TARJA PRETA). A ELES FOI DADO UM NOME, QUE EU GOSTARIA DE RELEMBRAR. ??? DE GUERRA?
    POR FAVOR, ESTOU COM 76 ANOS E DESDE CRIANÇA OUÇO FALAR NELES. HOJE – MESMO – CONFORME COMENTÁRIO INICIAL, FALEI O NOME QUE, AGORA, ME FALHA NA MEMÓRIA.
    SE PUDEREM ME AJUDAR, AGRADEÇO
    ABS

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  1. Nota de Falecimento: Cleantho Siqueira | Portal FEB - O Portal da Força Expedicionária Brasileira - [...] Potiguares nas obras de autoria do Mestre em História pela UFRN, Ranielle Macedo, clicando em Monografia: Os Pracinhas Potiguares …

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