Memórias do Front – Por: Auto Rodrigues da Cunha

Palavras do colaborador Renan Figueiredo (neto do ex-combatente):
Aqui segue um relato escrito por ele próprio contando algumas passagens durante sua viagem rumo à guerra e alguns acontecimentos que ele descreve bem. Há momentos que não consegui transcrever direito certas palavras pois a escrita é antiga  e muito legível. Tirando isso, deu pra tirar bastante informação.

Auto Rodrigues da Cunha filho de Raimundo Rodrigues da Cunha e Raimunda Aragão da Cunha, nascido em 12 de setembro do ano de mil novecentos e vinte três (1923), às nove horas da noite, na cidade de São Caetano de Odivelas, estado do Pará.

Vivia no encosto de meus pais até aos dezessete anos de idade, trabalhava pelo oficio de alfaiate. Em oito de outubro do ano de 1942 embarquei para acidade de Belém, capital do estado do Pará, aonde vinha passar a grande festa de Nossa Sra. de Nazaré.  Passei cinco anos em Belém, em Janeiro de 1943, Juntei minha documentação para juntar-me se ao exercito Brasileiro, em fevereiro do mesmo ano fui submetido a inspeções de saúde e testes físicos, onde fui julgado apto para o exercício de minhas  funções no exercito. Em 28 de fevereiro do mesmo ano embarquei para a cidade de Bragança e no dia 3 de março fui incorporado no 35º batalhão de caçadores; tomando o nº 677.

Procurava sempre cumprir minhas obrigações, e também continuava com minhas instruções e treinamento diário, em 15 de agosto do mesmo ano aconteceu o Juramento da bandeira, onde fiz o compromisso perante a bandeira. Passou se nove meses nesse batalhão, em novembro de1943, foi transferido para a 4º companhia Ind. De Fronteira “no Amapá”, nesta companhia passei exato um ano. Em dezembro de 1944 passou por novos testes físicos, e de saúde para fins de seleção para a Força Expedicionária brasileira (FEB).


No mesmo mês embarquei para o Rio de janeiro às nove horas da noite na cidade de Belém-Pa capital do estado; no navio denominado “Cuiabá” Passou nessa viagem 14 dias, chegando ao Rio às 3 horas da tarde, às nove horas da noite do dia 2 de janeiro, Desembarquei do Navio, para formar trem diretamente para a vela militar; chegando a essa vila, às onze horas da noite. Passei em esta capital um mês.

Em 5 de fevereiro de 1945, as 12 horas do dia, embarquei no trem até o cais do porto. As duas horas da tarde embarquei no grande navio transportador de tropas norte americano “”general Marcks” onde transportava por volta de  7.000 homens. No dia 13 do mesmo mês o grande navio, pela linha do equador onde foi saudado com grandes tiros de canhões e metralhadoras; No mesmo dia o navio encontrava-se em festa onde foi organizado um “rancho” carnavalesco entre os oficiais, sargentos e praças; isto aconteceu na terça feira gorda. No dia 20 do mesmo mês, passava o “general Marcks” pelo estreito de Gibraltar que separa a África do Norte e a Espanha. Passamos também por outras cidades da África, como “Alguefe” (a letra não estava muito legível, acho que era assim que se escreve). Em 22 de fevereiro o grande navio atracava no impoortante porto de Nápoles e as 5 horas da tarde desembarcamos do navio e tomávamos lugar no caminhão transporte para o acampamento de tropas aliadas. Em 7 de março de 1945 embarcávamos em grandes caminhões transporte para o porto de Nápoles e as 12 horas do dia tomávamos pequenos navios para transportar as tropas até a cidade de “Livorno” sendo para essa viagem de 36 horas. Em nove do mesmo mês, os pequenos navios atracavam no porto de livorno, às 9 horas da manhã desembarcávamos e tomávamos imediatamente grandes caminhões transporte para conduzir mos até a cidade de Stafoli, onde ficava o acampamento constituído pelo deposito do pessoal da FEB. Chegávamos a esse acampamento às 5 horas da tarde, as 6 horas da tarde levantávamos barracas para os respectivos descansos. No dia 10 do mesmo mês de março, iniciaram as instruções, as quais tomei conhecimento de todas;  As instruções eram a partir das 7 as 11:30 horas com 15 minutos de descanço, as quais tomei conhecimento das seguintes: Esgrima com baioneta, montagem e desmontagem de metralhadoras “Braule”, Morteiro”ponto 60 e81”, tomei conhecimento acerca de campos minados e como proceder com as minas e com os “Bobitrapp” como também com os gases mostarda e gás lewisita, lacrimogêneo. Tomei também conhecimento das bussolas e o procedimento correto caso me encontrasse perdido, fazendo também Patrulhascombate e reconhecimento. Também como proceder com a camuflagem, para que o inimigo não nos enxergasse também como proceder com os trabalhos adicionais. Atirei com as seguintes armas: Metralhadora Braule ponto 30, Bazooca, Granadas de mão, Granadas de Luzes e granadas químicas, Morteiro 60 e 81.

Em 6 de maio enbarquei rumo a fronteira para completar o 6º Regimento de Infantaria, ficando na cidade de Alexandria e depois passei para “Tortona” onde passei 6 dias, depois fiz viagem para castelo novo de “scrivia”.
Em 12 de maio houve formatura pela cidade de castelo novo de Scrivia pelo 6º regimento de infantaria, quando foi entregue o Diploma de campanha aos que foram feridos em combate.
Em 15 de maio, houve o segundo desfile do regimento, acompanhado pela banda de musica,do mesmo Regimentos de infantaria e o seu hino; Quando o general Zenóbio da Costa passava revista ao regimento.
Cidades e localidades que passei na Itália foram as seguintes:

Nápoles, Livorno, Pisa, Pompéia, Turim, Genova, Stafolis, Ponte a capiano, Fuchecio, Veneza, Castelo Branco, S.Maria, Firenze, Pistoia, Alto-Passo, Rege-Emilia, Modena, Bolonha, Palma, Milão, Voguera.

Auto Rodrigues da Cunha Casou-se em 15 de novembro de 1951 na cidade de São Caetano de Odivelas com a Srta Arlete Cunha tendo tido uma única filha, foi aposentado federal do instituto Brasileiro de geografia e estatística tendo posteriormente optado pela aposentadoria de pensionista do ministério do exercito Brasileiro. Falecido em 26 de dezembro de 2001 no instituto do coração em Belém do Pará por um edema Pulmonar aos 78 anos de Idade.

Foi sepultado a pedido no dia 27 de dezembro de 2001no cemitério do município de São Caetano de Odivelas-PA, vestido com sua farda camuflada do exercito. Em seu cortejo fúnebre, caminhou pelas ruas da cidade tendo sua urna coberto com a bandeira Brasileira acompanhado da banda de musica Rodrigues dos Santos da própria cidade onde foi benemérito acompanhado de seus familiares e amigos. Na lapide de sua sepultura se encontra escrito:

“AQUI DESCANSA O SOLDADO AUTO RODRIGUES DA CUNHA
EXPEDICIONÁRIO DO EXÉRCITO BRASILEIRO”



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6 comentários

  1. Gostaria de agradecer de coração por Publicarem esta matéria.
    Meu avô que em vida sempre contava histórias doq se passava durante aquele periodo, enaltecia os feitos do Regimento que participou e dos que via atuar.
    sempre teve orgulho de ter feito parte de pessoas que unidas lutaram contra a tirania e a opressão dos povos.
    Obrigado Portal FEB tenho certeza de que seja lá onde ele estiver ele está feliz vendo sua história ser contada adiante.
    mais uma vez obrigado.

  2. Que bom saber que a minha terra tem uma história tão bonita como a do seu Auto…isso é um orgulho para nós Odivelenses.

  3. Maristela /

    meu pai foi um heroi da segunda guerra,faleceu em 2002 aos 84 anos,e seus relatos sobre os combates na italia sao impressionantes.gostaria que a memoria destes tempos sangrentos fossem avivados hoje.

  4. Francisco /

    Obrigado pelo relato. Também sou filho de um pracinha. Essas histórias precisam ser lembradas sempre.

  5. Anderson Santos /

    Como filho da terra e também artista, fico feliz por esse documentário, isso fortalece cada vez mais nossa história, nossos valores e preservar o que ainda temos.
    Muito bom!!!

  6. Claudemiro Assunção Pereira /

    Muito salutar a oportunidade de ter conhecimento dos Ex Combatentes na segunda guerra mundial, não só o relato que acabei de ler mas de todos aqueles que lá estiveram, é uma honra ter conhecimento de que jovens como o do Soldado Auto Rodrigues da Cunha e muitos outros fora para o campo de batalha defender a nossa Pátria, e por isso, aproveito esse momento para pedir a alguém que conheceu o SD.7386 – FN-Geraldo Parente de Farias, nos de informações, caso ele tenha participado do Teatro de Operações, pois precisamos amparar a esposa e filhas que ele deixou.

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