João Filson Soren – O Capelão Protestante da FEB

João Filson Soren (1908 – 2002), pastor da I Igreja Batista do Rio (1933 – 1985) e capelão da FEB na Itália (1944 – 1945)

A capelania pode ser descrita como um serviço de assistência espiritual para o atendimento das necessidades de todos aqueles que por conta da situação em que e encontram (em hospitais ou presídios) ou em decorrência de suas atribuições profissionais (militares, estudantes), sentem-se impossibilitados de receberem um serviço religioso regular. O capelão (ã) é, portanto, o instrumento por meio do qual a Palavra será levada a pessoas que se encontram nessas situações. As capelanias, como observa Maria Luiza Rückert, do Hospital Evangélico de Vila Velha (ES), zelam por uma postura ética no âmbito institucional e nas relações interpessoais, de acordo com o princípio cristão da valorização do ser humano como imagem de Deus, proporcionando igualdade, dignidade, fraternidade, solidariedade em um clima de credibilidade entre os funcionários e o reconhecimento do seu trabalho (verbete Capelania in Dicionário Brasileiro de Teologia, p. 130). A capelania é uma forma de a igreja atuar nessas áreas onde as necessidades humanas são mais prementes, e por meio de uma assistência direta, interpessoal e interconfessional, de maneira que o indivíduo possa ser resgatado em sua integralidade. Desse modo, a capelania exerce na plenitude da palavra um trabalho missionário. O quartel, o hospital e a prisão são o seu campo missionário por excelência. E Jürgen Moltmann vai ainda mais além ao dizer que a comunidade eclesial também é uma comunidade diaconal, pois o carisma (carismata) também é sinônimo de diaconia, logo ela deve estar pronta para exercer o ofício de ajudar o necessitado e assim se deixar despertar para a situação da comunidade cristã, a comunidade diaconal composta de sãos e enfermos, de deficientes e não deficientes. E vai ainda mais além ao afirmar que tanto quanto dos sãos a Igreja precisa dos membros fracos e enfermos, pois é neles que a fé é fortalecida (MOLTMANN Jürgen, O Espírito da Vida, p. 185).

Devido à própria formação científica, cartesiana implícita e a preocupação exclusiva com as necessidades físicas (humanas e materiais) concernentes ao espaço, tanto o hospital como a universidade revelam-se espaços onde o laicismo e o ceticismo acabam gravitando e exercendo influência poderosa. A capelania hospitalar, nesse sentido, é instrumento de evangelização poderosíssimo, pois procura o conforto e o alívio numa situação de angústia, conforto esse que a frieza científica jamais poderá oferecer. Nos hospitais, a meditação dos textos bíblicos, a oração e a consolação são fundamentais para que o enfermo se sinta amparado e para que a sensação de desamparo e solidão não lhe fraquejem ao ponto de desesperar de viver (Kierkegaard). A prisão também é outro local onde pessoas solitárias e arrasadas sentirão a necessidade do refrigério e da segurança da Palavra. O fato de serem excluídas da sociedade e anatematizadas por essa situação pode desolá-las e nisso a Palavra terá importância na medida em que solidifica a certeza de que jamais estarão desamparadas na medida em que tiverem fé nessa boa obra. O quartel, lugar onde o ser humano e colocado à prova com toda a sorte de situações de pressão, também é um lugar onde a capelania deve ser exercida conscientemente. O militar também é uma pessoa que pode ser alcançado pela palavra como nos convida a refletir a respeito a história do centurião de Cafarnaum (Mt 8.1 – 13) e de Cornélio (Atos 10). O fato de viver e trabalhar em um ambiente onde se exercita a violência legal impõem à igreja a necessidade de cuidar das adversidades e problemas existenciais que não poucas vezes decorre do exercício da atividade, e como no caso do centurião com quem Jesus conversou, é perfeitamente possível encontrar ali também uma fé poderosa (Mt 8.9 – 10). Também as universidades, centro da cultura secular e elemento multiplicador do mundo laicizado com todos os seus valores seculares, deve ser alcançado com a mensagem do evangelho, razão pela qual urge organizar essas capelanias que, com exceção de algumas instituições de ensino superior ligadas à confissões religiosas, são totalmente completamente desconhecidas das demais universidades.

 

Guaracy Silveira (1893 – 1953), pastor metodista de S.Paulo, capelão das forças constitucionalistas na revolução de 1932.

As igrejas evangélicas tem relação íntima com a capelania desde os seus primórdios: Zwínglio, antes de assumir o púlpito em Zurique, foi capelão militar e Lutero também exortou os militares cujo ofício, que considerava divino, tinha por finalidade cumprir o juizo de Deus, pois a espada representava o juizo divino sobre os impenitentes e os que praticam guerra injustamente (Acerca da Questão, se também os militares ocupam uma função bem-aventurada in LUTERO Martinho, Obras Selecionadas, VI, p.366 – 367). Quanto a Calvino, sua atuação em favor do conforto dos mártires de Lyon com quem se correspondeu, mostra que entre suas atribuições pastorais, também estava a capelania. Friedrich Schleiermacher e Paul Tillich também atuaram em capelanias antes de se lançarem em suas obras teológicas.

No caso brasileiro, no âmbito da capelania militar evangélica, a antiga Confederação Evangélica do Brasil começou a estruturar um serviço regular de capelania para os quartéis, nomeando pastores para o trabalho voluntário em quartéis da antiga I Região Militar, que abrangia o Rio de Janeiro, sendo que após a Constituição de 1934 um capelão regularmente subvencionado pelo Estado passou a atuar regularmente nas unidades. Esse não é o primeiro caso de um serviço regular de capelania militar já que durante a revolução de 1932 o pastor metodista Guaracy Silveira atuou na capelania evangélica das tropas constitucionalistas, mas é somente a partir de 1934 que o serviço se estabelece oficialmente. Em 1944 o presidente Getúlio Vargas, através do Decreto-lei 6535, de 26 de maio desse ano, sanciona a capelania militar para as tropas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que seguiriam para o teatro italiano. Além de trinta padres católicos, dois pastores protestantes foram designados capelães militares, o metodista Juvenal Ernesto da Silva, de S.Paulo, que embarcou com o 6. Regimento de Infantaria (Regimento Ipiranga) e João Filson Soren, da Primeira Igreja Batista do Rio, que embarcou com o I RI, (Regimento Sampaio). Embora esse serviço tenha sido extinto com o fim da guerra, o Decreto-Lei nº. 8.921 de 26 de janeiro de 1946, regulamentado pelo Decreto-Lei nº. 21.495 de 23 de julho de 1946 pouco antes da efetiva institucionalização desse serviço com a Constituição de 1946 que estabelece a regulamentação da capelania com a nomeação de ministros regulares, independentemente da filiação confessional. A experiência do Exército, por meio da FEB, possibilitou o surgimento, nos anos seguintes, de capelanias militares nas demais armas, Marinha e Aeronáutica, e nas Polícias Militares, com capelães militares atuando nessas instituições. a capelania evangélica hospitalar estruturou-se ainda no século XIX com o trabalho assistencial pelas diaconisas ligadas às obras sociais luteranas que atuavam no âmbito das colônias alemãs do sul, e, principalmente, com a instituição do Hospital Evangélico do Rio de Janeiro (1887) e hoje se encontra estruturado em grande número de denominações, inclusive nas pentecostais.

Colaborador:

Eduardo Galdino

eduardo.galdino@eadiaurora.com.br


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2 comentários

  1. Maria Delair Studart /

    Tenho grande amigos ex combatentes das tres armas inclusive faço parte dos ex combatentes fuzileiros navais tenh como um pai do meu coraçao Rui Moreira Lima da aviaçao de caça assim como era meu grande amigo Roberto de Pessoa e Deus levou meu unico filho no dia 8 de maio Dia da VITORIA sempre estivemos ai troca de guarda,gostaria que me avisace
    quando tiver outras solenidades que nao seja as que ja sei
    Um grande abraço
    Maria Delair Studart

  2. eduardo galdino /

    muito legal a publicação dos capelães, é mais um pedacinho de historia , pra mim a capelania foi muito importante tambem na feb, muito legal a biografia e foi um prazer colaborar, abraços a todos do portal feb….assim que souber de mais coisas com certeza enviarei abraços

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