Homenagem ao Expedicionário Waldemar Soares de Almeida

Meu avô, Waldemar Soares de Almeida, nasceu em Ponta Porã, em 07 de julho de 1916. Quando se juntou aos 25.334 bravos do contingente era praça, 3º Sargento, segundo sua folha corrida ele foi pelo 2º Regimento Motomecanizado.

Segundo conta meu pai, meu avô nunca gostou de expor suas experiências na Itália. O pouco que eu conheço sobre sua história é vago, as precisões que encontrei são datadas de setembro de 1955, de um documento do quartel de Ponta Porã, MS. Meu avô, Waldemar, como muitos pracinhas sofreu com a guerra. Quando voltou tinha seus traumas, como ao ouvir barulhos muito fortes.

Não conheci meu avô, ele faleceu anos antes de eu nascer. Costumo dizer que não tenho palavras para explicar a ligação que sinto com ele, os valores que ele me ensinou sem nunca ter trocado uma palavra comigo, a admiração que tenho por ele sem nunca ter visto seus lindos olhos claros. Como jornalista esse é provavelmente o texto mais difícil que eu já escrevi e provavelmente não o de melhor resultado.

Quando pequena me lembro de ver meu pai se emocionando todas as vezes que via filmes de guerra, principalmente em qualquer menção a FEB e não entendia muito bem por qual razão. Um dia meu pai me contou que meu avô tinha sido combatente. Provavelmente eu assimilei aquela história e imediatamente comparei meu avô aos combatentes dos filmes que via, como meu herói. Sempre foi assim, sempre será. Já adolescente comecei a procurar mais sobre a história do meu avô e me deparei com seus documentos, seu cartão de racionamento, o seu diploma de medalha, sua dog tag e sua medalha de participação. Com 17 anos, copiei os dados da tag do meu avô e fui a um tatuador. Queria meu herói na minha pele, para sempre. Já na faculdade, sabendo mais sobre a Força Expedicionária, me orgulhando tanto da história dele e de todos os brasileiros que integraram a F.E.B. procurei outros combatentes e conheci homens e mulheres incríveis e adoráveis como o Sr. Justino Alfredo, o Sr. Osvaldo Birocchi e a Major Elza Cansanção. Com a colaboração deles em entrevistas fiz minha tese de conclusão de curso sobre a F.E.B. sempre motivada em conhecer mais sobre a história do meu avô.

Dia 19/12/1944 meu avô foi submetido a inspeção de saúde da FEB e considerado apto, na mesma data embarcou via marítima a capital federal para ser incorporado.  Desembarcou do Santarem vindo com um Contigente do Rio Grande do Sul e foi incluído no Centro de Recompletamento do Pessoal da Força Expedicionária Brasileira, 4º Batalhão e 13ª Cia.

Em sua ficha tenho os dados dos lugares por onde ele passou desde sua integração a Força Expedicionária até a desmobilização. Poucas anotações são de caráter pessoal, como a do Sr. Capitão Clovis da Silveira, Comandante da Companhia.

“Louvo e agradeço ao 3º Sgto Waldemar Soares de Almeida, pelo seu alto espírito de trabalho empregando e fundo os seus esforços, até altas horas da noite. Assim cumpro o dever de louvar e agradecer, pela sua exemplar colaboração. (Individual)”.

Assim como muitos, meu avô embarcou no dia 06 de fevereiro no navio transporte Gen. Meigs, tendo seguido com destino a Europa e desembarcando dia 22 de fevereiro. Em 26 embarcou em um cargueiro com destino a Livorno, quando foi feito o desembarque se integrou ao 3º Batalhão e 11ª Cia, sendo ele do pelotão A.

Já como integrante do 3º Batalhão e 11ª Cia leio a seguinte anotação feita pelo Sr. Capitão Delizar Soares de Oliveira, Comandante da Companhia “É com o maior prazer que venho aqui consignar os meus louvores e agradecimentos ao 3º sargento Waldemar Soares de Almeida, pelo seu esforço e dedicação quer na instrução e nos serviços que lhe foram afetos, demonstrando assim ser um verdadeiro patriota por ter compreendido bem a situação em que atravessamos. Tenho pois grata satisfação de louvar e agradecer o sargento acima. (Individual).

Em abril, no dia 4, foi transferido para a Companhia de Intendência para o preenchimento de vaga tendo participado da ofensiva contra Castel Nuevo.

Muito se passou. De transferência de cidade, deslocamentos internos, baixa por motivo de saúde, mas em 22 de agosto chegou como parte do Segundo Escalão da unidade a bordo do navio transporte Mariposa.

Não sei qual era a posição do meu avô sobre a desmobilização, vergonhosa diga-se de passagem, da FEB. Não faço ideia sobre o que ele pensava sobre a falta de memória do povo brasileiro em relação ao combate na Itália, o que pensava sobre a situação econômica em que foram deixados os combatentes, a falta de políticas públicas para reincorporarem os soldados ao cotidiano nas suas cidades de origem. Não sei e nunca saberei. Sei que meu avô viveu de maneira modesta, teve e criou seus dois filhos homens, Artur, meu pai e seu primogênito e Waldemar, meu tio. Meu avô se aposentou como oficial, 2º Tenente e faleceu novo, aos 58 anos, em Ponta Porã.

São em homens simples e de histórias “comuns” que constitui muitos valores. Os mais bonitos e que mais desejo passar ao meu filho aprendi com meu avô. Para muitos brasileiros esquecidos ou simplesmente mal informados a FEB e seus homens não significa nada não sendo digna de memória, honrarias e respeito. Para mim, pessoalmente, é um grupo de homens que fez muito além de suas possibilidades no teatro de operações. É um grupo que lutou por liberdade, dignidade, levou a simplicidade dos brasileiros para a Itália e muito ensinaram, para eles e para nós. Eu nunca tive a oportunidade de homenagear meu avô em vida, mas quero homenagear sua memória a cada dia que eu viver.

Colaboradora: Analice Sauerbronn


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