Flores do Mar – Dia em memória dos marinheiros mortos na guerra

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21 de Julho

No friozinho da manhã uma neblina suave se estende pela Baia de Guanabara. Faltando pouco para encerrar o turno de serviço as sentinelas do 1°. Distrito Naval aprestam-se para receber os primeiros visitantes que vão chegando para embarcar no NPa GURUPI. Sentado em um banco de cimento à beira do antigo Cais dos Mineiros, um senhor idoso nos sorri. Talvez tivesse sido um antigo marinheiro …

Já se passaram 70 anos dos ataques traiçoeiros de submarinos nazistas que vitimaram quase 1.500 brasileiros. Mais de 30 navios foram torpedeados. A cada 21 de julho os últimos ex-combatentes ainda retornam para cumprir o ritual das flores ao mar, as medalhas reluzindo ao peito, boinas azuis e verdes, o reencontro com antigos companheiros na homenagem aos bravos que honraram o juramento de ao prestar o serviço a Pátria, defendê-la se for preciso com o sacrifício da própria vida.

O pequeno ônibus conduz o grupo pelo cais estreito da Ilha Fiscal, onde os Navios Patrulha do Grupamento Naval do SE se encontram atracados. Um deles foi contemplado com a missão honrosa, que culminará com o lançamento de flores e pétalas ao mar, diante da praia de Copacabana.

Chegamos. o GURUPI é um navio compacto de apenas 290 TDW, com 25 tripulantes. O Comandante nos recebe, é um jovem Capitão-Tenente que se emociona ao saudar os Ex-Combatentes. Logo suspendemos e estamos singrando mansamente no canal ao longo da Ilha das Cobras. A cada navio ultrapassado, as continências e toques de apito renovam o antigo ritual das Marinhas, executado pelo Tenente Encarregado da Divisão de Convés. A neblina não é muito intensa, ocultando a paisagem distante mas permitindo divisar as silhuetas navais próximas.

Descemos ao rancho, onde nos aguarda um bom café de manhã, e o carinho da tripulação. Todos são extremamente solícitos, revelando na conversa estarem evidentemente muito felizes em terem os Veteranos a bordo.

O GURUPI é um navio moderno, construído paradoxalmente em 1996 na mesma Alemanha que para estas mesmas águas envio os seus U-boats para atacar sem aviso um pais ainda rural, sem recursos para fazer frente a tecnologia nazista que pretendia impor a sua ideologia racista equivocada a um pais de iguais.

Mas grande esforço foi feito pelo povo brasileiro, e a vitória final foi conseguida, com a participação de gente como os que aqui estão a bordo.

Subimos ao passadiço, acompanhando as operações do navio. O Comandante observa pelo binóculo uma embarcação à entrada da Barra,   atravessando o canal que iremos utilizar em seguida. a principio parece tratar-se do Felinto Perry, navio de socorro submarino da Marinha do Brasil, mas a identificação eletrônica na tela revela que se trata do GYRE, um navio de apoio que também tem um helipad à popa.

Passando para mar aberto, observamos a distancia um comboio. O Tenente Chefe de Máquinas informa tratar-se do GUAJARÁ, da mesma classe que o GURUPI, dirigindo-se para exercícios em Angra dos Reis, seguido por duas lanchas da Capitania.

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Ao longe divisamos a silhueta de um barco de pesca em meio a neblina. Parece bastante antigo, pintado de preto. Apareceu de repente, no momento anterior não estava ali. Alguns pescadores acenam para nós. Tomando o binóculo, conseguimos saber o seu nome: é o Shangri-la.

A esteira do comboio do GUAJARÁ faz oscilar o pesqueiro lá próximo. As ondas encobrem por vezes a sua silhueta, enquanto os pescadores dão um ultimo adeus, até que ele de repente desaparece, como se tivesse sido tragado pelo mar. Parecia que os homens queriam nos dizer alguma coisa, aparentavam cansaço, roupas simples, uma saudação, talvez. De repente o mar naquela direção ficou calmo, como se nenhuma embarcação tivesse jamais estado ali ha pouco navegando.

O GURUPI chegou ao local da cerimônia diante de Copacabana. A tripulação formada no convés e os Veteranos alinhados diante da coroa de flores ouvem a Ordem do Dia do Comandante de Operações Navais, louvando os homens das Marinhas de Guerra e Mercante que se sacrificaram no cumprimento do dever, desde Greenhalgh e Marcílio Dias até os bravos da CORVETA CAMAQUÃ, DO NAVIO-AUXILIAR VITAL DE OLIVEIRA E DO CRUZADOR BAHIA.

A grandeza dos seus exemplos será a inspiração para vencer, com coragem, determinação, desprendimento e dedicação, os desafios que se apresentarem para a Marinha do Brasil.

A coroa de flores é lançada às águas, perpetuando a homenagem aos bravos marinheiros ao oscilar suavemente no balanço do mar, junto com punhados de pétalas que, emocionados, os Veterano atiraram ao mar.

Em terra os banhistas aproveitam o sol acolhedor da manhã, e divisando ao longe um navio diante da praia pouquíssimos se darão conta do que está acontecendo. A homenagem é praticamente anônima, invisível. Apenas um ou outro jornal dará uma pequena nota, perdida nas páginas internas, se tanto. Custa a crer que naqueles dias remotos da década de 40, todos os dias as manchetes dos jornais noticiaram os feitos da Marinha do Brasil. Mas a vida é assim, e fica a certeza de que se um dia for preciso, os homens e mulheres de uniforme branco estarão sempre a postos.

Pensativos, os Veteranos recordam os tempos em que eles mesmos estavam ali, a bordo de pesadas belonaves, em comboios protegendo a navegação marítima, numa época em que não havia as estradas de hoje, garantindo a comunicação e o transporte de passageiros, mercadorias e cargas estratégicas entre os portos brasileiros e do exterior.

Retornamos de volta ao cais. Logo chega a hora do desembarque. O GURUPI atraca ágil e fazem-se as despedidas. Na volta para casa, a esperança de que no próximo ano todos estaremos novamente aqui, para prestar mais uma merecida homenagem aos heróis do mar.

Mais um pouco e a noite vai chegando. Os Anjos do Senhor estão por ali aguardando a hora. No mar, os espíritos dos que partiram durante a batalha sobrepairam diafanamente. Eles se manifestam.

Tentam nos enviar uma mensagem, reforçando que seu sacrifício não tenha sido em vão, que o entendimento prevaleça para todas as nações.

Apenas as formas variam… pode ser um velho marinheiro solitário, sentado a beira do cais…  pode ser um pesqueiro que reaparece, com a tripulação acenando ao longe …

(*) – iblaj@telecom.uff.br 

Nota do Autor:  

Em junho de 1943, o pesqueiro Shangri-la desapareceu ao largo de Cabo Frio. Seus 10 tripulantes jamais foram encontrados.

Em 1999 o mistério foi esclarecido quando os arquivos militares americanos foram abertos e revelaram que o Shangri-la foi afundado a tiros de canhão pelo submarino nazista U-199.

Mães e viúvas morreram na miséria, esperando. Desarquivado o inquérito, em 31 de julho de 2001 o Tribunal Marítimo finalmente reconheceu os 10 pescadores como heróis de guerra, e seus nomes foram inscritos em junho de 2004 no Monumento Nacional aos Mortos da II Guerra Mundial.

Publicado na Revista do Clube Naval nº. 367, de jul/ago/set/2013

Saudações Soamarinas

Prof. Israel Blajberg

2º. Diretor Social – SOAMAR-RIO

www.soamar-rio.com.br

 


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