Especial Dia dos Namorados: Cabanga Club, de Paulo Afonso Paiva

Há muito não ia ao centro da cidade. Caminhando sem destino vi uma feira de livros usados. Numa barraca, discos de vinil, entre os quais um blues – executado por orquestra americana – me chamou a atenção. Pensei em levá-lo para meu pai que gosta desse tipo de música.

Fui até sua casa onde o encontrei na sala com um jornal aberto diante dos olhos. Estava com oitenta e quatro anos. Quando me aproximei disse:

– Você viu Elza? Há tempo que pedi meus óculos, mas ela não trouxe.

Fiquei calado. Faz oito anos que mamãe morreu. Coloquei o disco para tocar e enquanto a música se espalhava pelo ambiente ele a acompanhava com a cabeça. Quando terminou seus olhos brilhavam. Perguntou:

– Como você soube?

– Soube o que, pai.

– Essa música…

– Eu não sei nada. Estava na cidade e vi o disco. Achei que o senhor ia gostar. O que houve?

Olhou para mim, estudando minha expressão. Começou a falar:

– Em 1944 o meu batalhão se preparava para ir à guerra. Uma vez fui ao Aurora onde a Igreja de Boa Viagem promovia dancigs para os soldados, aos sábados. Eles compravam tíquetes que davam direito a uma dança, cada um. As moças de família que normalmente não dariam trela pra nós, no clube atendiam a qualquer um que tivesse um bilhete. Estavam fazendo a parte delas no esforço de guerra, diziam.

Parou de falar, imerso em seus pensamentos.

– Eu comprei alguns tíquetes, mas era muito inseguro. Fiquei pelos cantos, sem dançar e então a vi. Tinha os cabelos louros e ondeados. Foi como se alguém me tivesse segurado pelos braços e balançado. Ah, eu tinha vinte anos! Passei o resto da noite olhando-a de longe. Não dancei com ninguém. Às dez horas os organizadores acabaram com o baile. Voltei nos outros sábados. Comprava dez bilhetes e nunca os usava. Finalmente uma noite, próximo de encerrar, a orquestra tocou essa música. Fui em direção a ela, mas outro cara se adiantou. Enfim ele a deixou e, lutando com a timidez, me aproximei.

– Oi, eu já vi você em outros sábados.

– Eu sei.

– Eu sou muito acanhado, por isso…

– Eu sei.

– Você quer dançar?

– Sim.

Quando ela se levantou o apresentador foi até o microfone e encerrou o baile. Nós rimos e nos dirigimos à saída. Um senhor se aproximou:

– Ana Paula, estou esperando no carro.

Falamos algumas frases e nos despedimos:

– Até sábado.

– Até logo.

Na terça-feira, em segredo – para que nenhum espião não avisasse a algum possível submarino inimigo – embarcamos para a Itália.

Parou um pouco.

– Ah, a estupidez da guerra! Vi cidades destruídas, crianças mortas e outras feridas, sofrendo. Odiei os alemães, mas sabia que os aliados ao bombardearem, também matavam civis, embora não fosse de propósito. Queria que aquilo acabasse. Uma coisa que me dava esperança era lembrar. Fazia planos de procurá-la, conversar e, finalmente, dançar com ela. Esses desejos me ajudavam a viver. No Natal daquele ano eu estava num buraco feito na neve, nos Apeninos. Fazia doze graus abaixo de zero. Desejei Feliz Natal para ela, com uma caneca de café, pensando no calor do Recife. Finalmente a guerra acabou. Assim que voltei fui procurá-la, Soube que estava para se casar. Senti um choque, mas procurei me conformar. Não podia, nem tinha o direito de importuná-la. Tudo aquilo fora apenas ilusão.

Respirou fundo.

– Muito tempo depois soube que se separara, mas não a procurei. Sua mãe não merecia. Nunca mais a vi, mas em todos esses anos não houve um só dia em que não pensasse nela.

Dirigiu-se ao quarto dos fundos, abriu o armário, mexendo em papéis colocados numa caixa. Depois pegou uma radiola portátil.

– Vamos sair.

– Pra onde, pai?

– Para o Cabanga. Não esqueça o disco.

Estava tão animado que não quis contrariá-lo. Minha irmã apareceu.

– Onde vão?

– Depois te conto.

Ao chegarmos ao clube desceu, parecendo vinte anos mais jovem. Dirigiu-se a parte antiga da sede, agora desocupada.

– Procure uma tomada.

Coloquei a radiola numa mesa e a liguei. Ele se dirigiu ao final do salão, tirou algo do bolso, mostrando-o à cadeira a sua frente. Estendeu os braços, como se abraçasse alguém, e começou a dançar, bem suave.

Quando a melodia acabou, foi até as cadeiras e disse algo que não ouvi. Senti meus olhos arderem. Voltou.

– Quero ir pra casa.

Eu o guiei, segurando seu braço. Voltara a ter os passos trôpegos. Não disse uma palavra e não ousei quebrar o encanto. Deitei-o na cama, tirando seus sapatos.

À noite, minha irmã telefonou.

– Venha agora. É urgente.

Não tive coragem de perguntar por quê.

Ao chegar, ela se abraçou comigo.

– Quando vim chamá-lo para jantar, não respondeu. Morreu dormindo.

Uma de suas mãos estava entreaberta. Dentro havia um tíquete, amarelado pelo tempo. Batido à máquina estava escrito: CABANGA CLUB: vale uma dança. O livro está disponível para venda no e-mail: paivap50@gmail.com

Colaborador: Paulo Afonso Paiva.

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Conto: O Guardião

 

Pistóia, Quadra 28 – Edição Limitada! Reserve já o seu exemplar!

 

Romance: “Pistóia – Quadra 28″


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4 comentários

  1. Ednaldo Bezerra /

    Cabanga Club é um dos mais belos contos do escritor Paulo Paiva. Muito bem escrito, o leitor tem a nítida impressão de estar presenciando a cena. Paulo,parabéns!

    Ednaldo.

  2. Jerusa Maria Correia /

    Paulo você escreve muito bem! Este conto é muito bonito e mexe com nossos sentimentos. Gosto de todos os seus livros! Jerusa.

  3. Pedro Bezerra /

    Lindo conto. Emooionante!
    Pedro

  4. Hedvan Pereira /

    Gostei muito do conto. Daria um excelente “Casa Especial” da TV. Emoção na medida certa.
    Abração
    Hedvan

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