Entrevista com o veterano Ovídio Alves Diniz

Entrevista prestada à Ranielle Cavalcante de Macedo pelo Sr. Ovídio Alves Diniz em 25 de janeiro de 2004.

“O momento mais difícil era ficar longe da família, imaginando morrer a qualquer hora.”

Nasci no dia na zona rural de Equador-RN. Trabalhava no campo, na agricultura, ouvia falar numa guerra distante, mas nunca imaginei que poderia participar um dia.
Quando recebi a carta de convocação, fiquei aperreado, desnorteado, pois ouvi falar que quem ia para a guerra não voltava mais e o Exército viria procurar que se escondesse e os pais teriam que dar conta dos filhos fugitivos. De Equador fomos eu e mais três para Natal num carro chamado “sopa”. Me apresentei em Natal e fiquei morando no quartel, onde recebi fardamento e fiquei ouvindo notícias da guerra.
Minha família achava que eu não voltava mais, eu era solteiro e não tinha mãe, meu pai me disse que nós iríamos ter toda assistência médica e remédios no Exército: “um homem deve servir pra tudo” dizia meu pai. Meus parentes choraram quando recebi a carta de convocação. Pensei em não ir, mas não teria nenhum futuro em minha terra natal, então resolvi arriscar.
Lá no quartel, onde passei 2 anos, a vida era puxada, tinha muitos superiores chatos que nos mandavam fazer várias coisas. O treinamento de manhã era instrução de guerra no mato, das 7 às 11h correndo, treinando, às 12h tinha ordem unida. As instruções eram chatas, o que eu achava melhor era a comida. Comíamos à vontade, pela manhã escolhíamos chá ou café. O almoço era muito bom, tinha muita comida. Cheguei lá com 50 kls e logo fiquei com 70 kls. Durante minha estada no quartel, o capitão me deu 6 dias para visitar minha família, mas eu não quis por causa da seca no Seridó.
Um belo dia botaram a companhia em forma à tarde. O capitão gritou “chamada às 5 h não pode faltar”. Eram trezentos e poucos soldados. Eu era Caxias (vibrador). Chegou um “galegão” num carro diferente e perguntou meu nome, número e companhia. Eu disse tudo e ele ficou me observando; era um capitão americano e eu não entendia o que ele falava. Perguntei se aquilo tudo era para ir para a guerra, me responderam que sim. Eu disse ao capitão que não podia ir pois tinha um “braço morto” e lhe mostrei a cicatriz. O capitão disse que “era só uma queimadurinha” no meu braço. O danado adivinhou e disse: “nem que o mundo se acabe, mas você é o primeiro que vai”.
Decidi virar um soldado ruim. Eu sabia que iria até amarrado… Na rua encontrei o tenente da companhia com a patrulha, eu estava bebendo, ia beber e “virar o diabo”, o tenente me convenceu a voltar para o quartel; disse que se eu não me comportasse ficaria na sela até o dia de ir… fiquei com medo. Naquela época não podíamos entrar a paisano no quartel. O que eu fizesse de estranho seria por causa da guerra.
No outro dia fizeram um levantamento de quantos faltavam para preencher o navio, faltavam mais de 1000. Ainda ficamos algum tempo em Natal e de lá fomos para João Pessoa e Recife, pegando os soldados. Só iríamos (para a Itália) quando o navio estivesse completo. Fui no 4° escalão, no General Meigs. A viagem foi ótima, comemos bem, não enjoei… o navio estava cheio 6.400 homens, aquele navio havia sido tomado dos alemães, era muito conforto mas só víamos água e céu. Não tínhamos mais medo de nada pois corríamos o risco iminente de sermos atacados e tínhamos instruções diárias (a bordo do navio) para sabermos como nos defender.
Chegamos num porto italiano, havia militares de todos os lugares, muito gelo e muito frio, eu andava todo duro. Em Nápoles, os militares do porto guarneciam os navios que chegavam. Havia muitos destroços, perguntei o que foi aquilo e me responderam que eram os bombardeios todas as noites.
Durante as batalhas os alemães ficavam em abrigos subterrâneos e os brasileiros os arrancavam de lá puxando pelas pernas com facões e peixeiras, eles ficavam 5 dias nas trincheiras, mas com os brasileiros era “cobra fumando direto”, puxávamos eles pelas pernas e tomávamos seu armamento. Eles tinham medo.
A primeira batalha foi 5 dias após a chegada na Itália. Nossos superiores estudavam os inimigos e mandavam nos prepararmos pois a qualquer hora iria começar. As batalhas eram à noite, nos aproximávamos agachados e jogávamos granadas sobre eles. Em duas noites prendemos muitos alemães e italianos. Uma noite teve um bombardeio, acho que uns 300 aviões soltando granadas perto de um campo de aviação, nos preparamos para outro no dia seguinte mas eles não vieram, foram se refugiar em Roma, nós brasileiros fomos atrás deles e os arrastamos pelas pernas.
Nossos uniformes eram de lã de carneiro, mas não protegiam contra o frio que atacava mesmo os cabras. Minha arma era uma metralhadora muito boa mas meio pesada, granada de mão e fuzil, que era boa arma. À noite era difícil ver o inimigo, nós íamos de onde saíam as granadas, abaixados de quatro jogávamos granadas e atirávamos, matando quase todos. Nessa guerra não ficou ninguém.
Religião, não tínhamos tempo, só pensávamos em morrer. Estávamos preparados. Numa batalha morriam 30 ou 40. Tinha o saco A e o saco B pra levar os mortos pra Pistóia, 10 ou 12 numa viatura só para o cemitério.
Os civis italianos se viravam, nosso chefe dava comida para eles. Um dia capturamos vários alemães e os colocamos no chiqueiro, havia dias em que não cabia tantos alemães. Não tínhamos raiva deles, diziam que o Brasil era amigo deles. Comiam uma comida estranha, e nós feijão, farinha e jabá. Eles não comiam isso.
O momento mais difícil era ficar longe da família, imaginando morrer a qualquer hora. Havia batalhas em que os superiores diziam que seria difícil sobreviver, mas éramos obrigados a lutar. Os alemães ficavam na trincheira nos esperando, se não mexêssemos com eles, ficavam vários dias lá. Em Monte Castelo morreu quase todo mundo, eles estavam entrincheirados. Cada trincheira cabia 100, 200 soldados, eles as haviam preparado à muito tempo. Nós chegamos à noite (em Monte Castelo) e fomos devagarzinho jogando granadas, de repente, o cabra vinha rolando todo cortado, pois a granada cortava tudo.
A aviação nos apoiou com bombas, os alemães voavam longe. Eu não machuquei nada. A pior coisa que vi foi os corpos dilacerados nos sacos. Uma bomba de avião despedaçava tudo. Pegávamos (os corpos) e colocávamos nos sacos para enterrar no outro dia em Pistóia. No início tínhamos medo, mas depois não ligávamos mais para a morte. À noite vinham vários aviões alemães, ficávamos entrincheirados atirando neles, o fuzil botava a bala longe demais e os aviões explodiam ao cair.
As italianas eram soltas no mato com medo. Na hora do almoço elas chegavam pedindo “manjaro” (pão). Nos deram ordem pra não dá pão, mas elas eram muito bonitas e nós dávamos. Tinha uma cantina com tudo para comer, ganhávamos 2000 liras por mês, dávamos comida para as pobrezinhas, muitas grávidas. Quando nós fomos embora o comandante disse para não dizermos para elas o dia do embarque: “eu sei que todos vocês têm amantes”. Elas eram muito bonitas. E continuou: “Se vocês disserem o dia, elas vão querer ir”. O comandante não as quis levar. Elas pareciam umas santas, queriam ir para o Brasil conosco. Mas os soldados disseram o dia do embarque e o comandante teve que prometer voltar para buscá-las. Como não voltou, elas mataram suas crianças. Depois se elas quisessem vir os homens mandavam busca-las.

Outra guerra daquela não tem mais. A do Iraque nem se compara. Os americanos são estudiosos, inteligentes, industrializados, quando tem uma guerra, eles lutam para acabar, até que um dia eles acabam. Na guerra eles respeitavam os brasileiros e nos protegiam, nos comandavam.
Queríamos matar Vargas, mas quando cegamos no Brasil fomos recebidos com muita festa. Mascarenhas e Dutra diziam que queriam comer Vargas cru, mas nós tínhamos que ir mesmo.
No dia em que a guerra acabou foi muita alegria. A volta foi boa, um submarino tomou a frente do navio, tivemos que voltar e o submarino nos perseguiu atirando, mas não nos acertou, as balas iam pro céu. Havia muitas italianas no porto na nossa despedida. Eu acho que as mulheres bonitas da TV são de lá. O desembarque foi no Rio de Janeiro com muita festa, muitos militares, cordão de isolamento. Um carnaval… bebemos, havia todo tipo de bebidas. Era tristeza quando partimos para a Itália e alegria ao voltar. Não encontrei Gerson,nem Luiz Carteiro,nem Severino Bieca (amigos de Parelhas-RN, onde reside o Sr. Ovídio hoje e que também comporam a FEB), ficávamos distantes um dos outros.
Depois do Rio eles queriam nos deixar em casa. Comprei um jipe por 4000 contos no Rio, o comandante não queria que eu ficasse mesmo no Rio. Eu queria trazer o jipe, mas o comandante me mandou vendê-lo pois não o traria, queria nos deixar em casa, fazendo escala nas capitais nordestinas. Deram uma camioneta para nos deixar em Parelhas, nos deixaram em casa. Cheguei em casa com 8000 liras num saco. Meu pai ficou muito satisfeito, queria saber como era a Itália, tinha curiosidade a respeito de minha vida militar. Quando voltei o povo estava curioso, se impressionavam com as minhas histórias, eu fiquei parado, desempregado, queria um ganho. Fiz uma carta para meus chefes que me chamaram à Natal e me apresentar a um major. Queria voltar para o Exército, queria um emprego, estava revoltado, eu tinha direitos.
Fui à Natal, fiz uma choradeira e pedi um emprego nem que fosse para matar gente. Às 7 h falei com ele (o major), a situação era difícil. Ele falou: “Se você fosse doido…” mas eu tinha direito. “Amanhã às 7 h vou fazer uma ficha para você se consultar com a psiquiatra, se você passar por ela na inspeção, recebe dinheiro. Se faça de doido”. Eu perguntei se não poderia ser preso, ele me disse que os ex-combatentes podiam virar a cadeia pelo avesso. Eu tentei impressiona-la (a psiquiatra). De manhã fui lá com um sargento. “Só entre se ela te chamar” disse o sargento. Ela estava sentada no birô e eu fiquei sentado esperando por duas horas. Estava imaginando fazer tudo. Ela me chamou e eu meti os pés na porta bravo e gritando: “eu quero saber se vou embora hoje”. Depois veio um ofício descrevendo meu mau comportamento. Ela disse que eu estava fingindo, mas meu chefe me defendeu, disse que quem voltava da guerra não tinha juízo certo. Ela me deu um atestado e eu fiquei na boa recebendo 30 mil réis. Era muito dinheiro na época. Fiquei licenciado como doido, “sequelado”. A situação só melhorou a pouco tempo.
Não tive vontade de voltar à Itália, é longa e complicada a viagem e do cemitério (de Pistóia) já tiraram os ossos. Eu ainda lembro bem mas não saberia andar sozinho lá hoje, muita coisa mudou. Fomos obrigados a ir, mas sabíamos que tínhamos que defender o Brasil na guerra. Quem esteve lá nasceu de novo. Aqui (no Nordeste) não morreu tanta gente, mas no sul morreu. Quem viu o que nós vimos não morre mais. Foi perigoso.
Aqui em Parelhas não se reconhece nem respeitam muito os ex-combatentes, mas as forças armadas sim.

Ficou curioso? Faça o download completo da pesquisa:

Ex-combatentes potiguares na Defesa do litoral – Tese de Mestrado


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