Entrevista com Marco Cesar Spinosa

1. Gostaria que falasse rapidamente sobre o que você faz profissionalmente, onde nasceu etc. 

– Ok, aproveito para agradecer o honroso convite para colaborar com o Portal FEB; sou de São Paulo, capital, advogado, preservador de viatura militar e entusiasmado pela causa da FEB;

2. Como surgiu o interesse pela história militar em particular pela FEB?

– Isso me acompanha a vida toda; mas o que me inspirou de maneira marcante foi ter sido levado por meus pais a um desfile de Sete de Setembro, na av. Nove de Julho, no qual pela primeira vez tive contato com o jipe e com as coisas do Exército Brasileiro; até hoje tenho na memória “os três jipinhos verdinhos de farol escondidinho com umas estrelinhas dentro de uma bolinha furada”, obviamente na visão de uma criança de uns seis ou sete anos…, a banda militar tocando um vibrante dobrado com a tropa marchando com muito garbo e vibração…  E a Bandeira Nacional desfraldada à frente de tudo isso… E na companhia dos meus pais… Uma caríssima recordação da minha infância. Mais ou menos a essa época assisti a um filme estrelado pelo John Wayne, the Jet Pilot, na companhia de meus pais; fiquei fascinado pelo que vi as fantásticas cenas de aviação; daí me interessou por revistas de quadrinhos, em especial a COMBATE, e cuja coleção mantive durante muito tempo; tinha os álbuns de figurinhas “Armas e Soldados” e “Bandeiras e Uniformes”… as chamadas “chapinhas Kibon de aviação”… , um documentário na televisão chamado “Memórias de Winston Churchill”, a famosa série “Combat” estrelada pelo Vic Morrow como o Sargento Saunders, com a clássica Lili Marlene como canção tema da série… e muitas outras passagens guardadas com carinho;

- A causa da FEB veio assim: minha avó Augusta, mãe de minha mãe, morava no bairro do Ipiranga e tinha uma amiga, a Dna Elsa,  cujo esposo foi pracinha;  a Dna. Elsa sempre se referia a seu esposo Alcides com muito carinho e orgulho, fazendo menção a sua participação na guerra; não entendia o que era guerra, FEB, mas… numa tarde de sábado acompanhei minha avó à casa da Dna Elsa, ocasião em que fui apresentado ao Sr. Alcides, com a recomendação de que não fizesse barulho nem falasse em alto tom, pois ele não podia com som alto ( somente muuuuuuuuuuuito mais tarde vim  saber a razão dessa solicitação!); o Sr. Alcides fez a gentileza de me mostrar dois ítens… fantásticos: um capacete e uma camisa verde!
ele me explicou a finalidade do capacete, que estava bem usado, por sinal; quando o coloquei em minha cabeça fiquei impressionado com o peso da peça;
o que marcou, de verdade, foi “a cobrinha verde” que vi no distintivo aplicado à manga da camisa! Ele me disse que “a cobra tinha fumado na Europa” e que os brasileiros da FEB eram… sobreviventes!!!
Não entendi isso, à época, mas a lembrança do distintivo é viva até hoje!!!
Lembro de que não era perfeito, seu contorno era irregular… mas foi a primeira vez que vi o distintivo da FEB!!!

3. Como você vê o Brasil e seu povo em relação à história do Brasil na WW II?

– Só tenho a lamentar o desconhecimento da maioria da população a esse respeito; o que os brasileiros fizeram lá na Itália foi digno de nota!!!

O Brasil era subdesenvolvido, essencialmente agrário, carente de saúde pública e infra estrutura adequadas, dentre outros fatores, e suas forças armadas eram incipientes; daí, recrutar, selecionar, equipar, treinar e remeter ao exterior uma força expedicionária para lutar contra um inimigo muito bem treinado, já envolvido em ações de combate por longo período, e sem armamento adequado, ressalte-se… não foi para qualquer um!!! Por essa razão o fato deveria ser muito valorizado, o que é uma pena; mas, por onde tenho andado e comentado a respeito, o interesse é grande, sempre ouvindo… “- FEB? Já ouvi falar… pode me esclarecer a respeito?”; aí então… faço o relato de uma história de grande significado para a grande nação brasileira, uma vez que os ensinamentos e vivência, principalmente na FAB, adquiridos no período permearam gerações de novos oficiais, sem contar o grande aprimoramento na doutrina e operacionalidade das forças armadas; a menção feita à FAB deveu-se ao fato de, ao retornar da Itália, todo o grupo de caça foi concentrado na Base Aérea de Santa Cruz, permitindo que a doutrina fosse incorporada e difundida dentro da força em pouco tempo, ao contrário do que aconteceu no Exército, que ou dispensou enorme contingente de oficiais, graduados e praças, ou espalhou estes pelo território nacional sem que a experiência pudesse ser ou aproveitada, ou difundida em benefício da própria força terrestre.

Ressalte-se que o Brasil foi o único país latino americano a cruzar o oceano para lutar ao lado dos aliados nesse conflito, a participar com um grupo de aviação composto e operado inteiramente por brasileiros, apesar de integrado operacionalmente a um grupo de caça americano, e que a força terrestre, cujas operações desenrolaram-se num terreno de difícil topografia e clima inclemente, cumpriu integralmente as missões a ela destinadas.

4. Que mais seria necessário para levarmos a história do nosso país às novas gerações?

– o ensino!! Se os livros didáticos contivessem menção a esse fato, e se as associações de veteranos tivessem mais apoio oficial, o reconhecimento seria, sem sombra de dúvidas, mais relevante.

Há outro fator importante, e recente: os jovens escritores; alguns títulos a respeito da FEB foram lançados recentemente, destacando-se DA GLÓRIA AO ESQUECIMENTO e LEMBRANÇAS DA LUTA; ambos são de autoria de jovens autores, a pesquisa foi muito bem feita e o trabalho editorial é excelente; isso comprova que, apesar de ter-se escoado mais de 65 anos da participação da FEB no conflito o assunto continua interessante e merecedor de referência literária a respeito; esse é um aspecto de deve ser valorizado, pelo alcance que tem na preservação da memória da FEB.

5. De que forma o reenacting colabora com isso?

– a REENCENAÇÃO HISTÓRICA, ou reenacting, traz para o grande público a denominada “história viva”, ou seja, a apresentação de indumentária e objetos usados em um determinado período da história para o momento presente; é forma bastante agradável de “contar a história”. Merece destaque, entrementes, o cuidado e zelo com que o assunto deve ser tratado por parte de quem pratica esse hobby, pois há que se haver consonância entre o momento da História a ser representado e os trajes, objetos e equipamentos a serem apresentados ao público, sem deixar de mencionar o absoluto respeito e responsabilidade que dever observados por quem o pratica. Daí ser mandatório: usar trajes, objetos e equipamentos SÓMENTE NO ÂMBITO DE EVENTO QUE TRATE DO ASSUNTO, E QUE JAMAIS SE FAÇA USO DESSES ITENS NO DIA A DIA, EM AMBIENTE/LOCAL SEM RELAÇÃO COM O ASSUNTO!!!

Incorporei a reencenação histórica pela relação dela com as miniaturas de avião que montei ao longo de minha vida, pelos livros de história militar e de aviação lidos, que sempre me fascinaram e me levaram a imaginar como seria usar os equipamentos e uniformes; daí, ao conhecer pessoas com afinidade nesse momento da história, que preservem veículos militares, a atividade passou a fazer parte da minha vida, mas observando-se, diga-se, o respeito e responsabilidade pertinentes.

No Brasil já existem grupos de reencenadores que fazem a representação da FEB com toda a seriedade, em nada ficando devendo para grupos similares de outros países;

6. Qual a relação das associações de colecionadores veículos militares antigos com os demais grupos históricos?

– Um Exército, para alcançar seus objetivos, tem de ter mobilidade no campo de batalha para alcançar os objetivos estratégicos e táticos propostos; para isso… as viaturas militares são imprescindíveis, quer sejam elas de serviço, transporte ou combate; daí a perfeita relação entre reencenação histórica e preservação de veículos militares. Merece ser observado que há distinção entre colecionador e preservador: o colecionador pode manter seu acervo, geralmente, para exibição restrita, enquanto o preservador apresenta seu acervo dentro de um contexto histórico e com rigor de traje e equipamento exibidos para retratar o período em questão; ambos são importantes na preservação da história, mas podem ter focos diferentes na finalidade do acervo e sua exibição ao público.

Por fim gostaria que mencionasse algum fato ou história pitoresca, curiosa ou que marcou a viajem pela Itália em relação a FEB.

– foram tantos… mas o mais marcante foi o carinho, respeito e reverencia do italiano para com as coisas da FEB. Por onde a FEB passou, e por onde passei que a FEB passou, as histórias sempre brotaram com espontaneidade e calor humano!

Fiz grandes amigos aqui no Brasil, por conta disso, tive o privilégio de conhecer o músico João Barone, filho de pracinha, e que leva a causa da FEB adiante com muito entusiasmo; conheci brasileiros dos quatro cantos do país entusiasmadíssimos com essa causa, e com os quais tive a satisfação de percorrer os Caminhos da FEB numa vivência única e inesquecível; estabeleci laços de amizade com residentes em Jaboticabal, com os quais planejo retornar à Itália para novas homenagens à FEB, além de nova participação na COLONNA DELLA LIBERTÁ, um grande evento magnificamente organizado pelo Filippo Spadi do grupo Gotica Toscana Onlus, o qual reúne reencenadores e preservadores de veículos militares para, num período de três dias, percorrerem localidades por onde os exércitos aliados passaram durante a segunda guerra mundial, participei da criação do Grupo Histórico FEB, justamente para levar às novas gerações essa magnífica página de nossa história; conheci sobreviventes dessa história, os quais deram depoimentos emocionados acerca dos fatos ocorridos então;

Menciono, ainda, o fato de que o mais entusiasmado preservador de coisas da FEB está na Itália, o estimado Giovanni Sulla, e que o Monumento Brasileiro Votivo Militar, na Itália, é guardado por filho de pracinha, o estimado Mário Pereira, aproveitando par mencionar os reencenadores e preservadores italianos de veículos militares , que fazem um importante trabalho na preservação da memória da FEB naquele país; vale a seguinte nota: inúmeros reencenadores italianos usam, nos eventos, uniformes da FEB, seja o de combatente, seja o de enfermeiras; o número de veículos preservados que ostentam as insígnias da FEB é grande, mencionando o 34 RED BULL ITALIA – VEICOLI ISTORICI DI PARMA, presidido por Francesco Putordi, que restaurou um blindado Ford M-8 GREYHOUND conforme usado pelo ESQUADRÃO DE RECONHECIMENTO DA FEB, o VIRA MUNDO,  para os quais registro o meu muito obrigado pelo grande serviço prestado para a memória da FEB.

Contato: marco.c.s@uol.com.br


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5 comentários

  1. isalete leal /

    Ao ler a entrevista com Marco Cesar Spinosa me emocionei, lembrei das conversar que tenho com meu pai sobre a Segunda Guerra. E ele sempre fala que veio com o pensamento de não falar desse conflito. Porém é impossível… As marcas ficam de alguma forma em cada veterano. Parabéns ao Marco pelo maravilhoso trabalho. Que nosso povo, principalmente os jovens, possam conhecer essa parte da nossa história respeitando quem lutou paz. Ao portal desejo sucesso.

  2. CIAO MARCO SEI UN VULCANO SEMPRE ACCESO.COMPLIMENTI PER LA TUA GRINTA(QUELLA NON MANCA ANCHE A PARMA)FAI SEMPRE FUMARE IL COBRA.UN ABBRACCIO

  3. Ranielle Macedo /

    Excelente entrevista Marco. Parabéns ao Portal FEB!É muito bom saber que existem brasileiros como você que não deixam essa maravilhosa página da história brasileira cair no esquecimento. O que esses heróis fizeram jamais deveria ser esquecido. Sou historiador e fanático pela FEB. Sonho em um dia visitar os lugares na Itália onde ela esteve. Seria ótimo se pudesse compartilhar fotos e experiências suas na Itália conosco. Obrigado.

  4. Paulo Sant'Anna /

    Fantástico trabalho que é realizado pelo Mestre Marco Cesar Spinosa,tive o prazer e a honra de conhecê-lo pessoalmente. Parabéns ao Portal FEB pela entrevista, e a homenagem mais que merecida!!! FEB !!! A COBRA AINDA FUMA…

  5. Marco Cesar Spinosa /

    Agradeço ao portal feb a oportunidade que me foi oferecida para colaborar, e envio ao Paulo, Ranielle, Francesco e isalete o meu cordial abraço!!!

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