Enfermeiras de Guerra: da FEB à COVID-19

As enfermeiras do Exército Brasileiro na frente de combate

Daniel Mata Roque², Margarida Bernardes³, Sonia Kaminitz4

Sem declaração de guerra, o mundo foi atacado. A pandemia da COVID-19, causada pelo novo tipo de coronavírus SARS-CoV-2, identificado na China em dezembro de 2019, desafia a saúde pública mundial com sua fisiopatologia ainda desconhecida pela comunidade científica, levando ao desenvolvimento de casos de síndromes respiratórias graves, pneumonias, doenças entéricas, hepáticas e neurológicas, dentre outras manifestações com letalidade específica relativamente baixa e alta transmissibilidade.

Com seus graves desdobramentos sanitários, econômicos e sociais, tem sido combatida com os protocolos da Organização Mundial de Saúde (OMS) e comparada a uma guerra. Carl von Clausewitz, general prussiano e teórico de estratégia, sentenciou a guerra como “um ato de violência pelo qual pretendemos levar o adversário a render-se à nossa vontade”. O pesquisador militar Marcio Tadeu Bettega Bergo, destacando que “cada conceito varia segundo quem o formula”, aponta que “não existe uma definição de guerra, porém inúmeras” e resume a História Militar como o segmento da historiografia “voltado aos temas bélicos”, reforçando que “os conflitos também podem ser abordados em seus aspectos humanos, sociais, econômicos, tecnológicos”. É certamente nestes aspectos que estamos imbricados, que estamos em guerra. O estado de calamidade pública foi decretado em território brasileiro em 20 de março de 2020, gerando medidas de isolamento social e quarentenas pelo país, que dois meses depois já contava com mais de vinte mil mortos pelo vírus.

O Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas classificou a pandemia como o “maior desafio que o mundo já enfrentou desde a Segunda Guerra Mundial”. O Ministro da Defesa brasileiro, General Fernando Azevedo e Silva, declarou categoricamente que “isso que está acontecendo é uma guerra, com um inimigo invisível e feroz” e que “quando tem uma guerra, o brasileiro pode contar com as Forças Armadas. O cuidado de guerra é integrante indissociável de qualquer narrativa bélica e extrapola mesmo os limites e a temporalidade do próprio conflito, onde combate amparado apenas pela cruz vermelha bordada em sua farda e luta, em aparente contrassenso, para salvar vidas amigas e inimigas.

No último conflito bélico do qual o Brasil participou, a Segunda Guerra Mundial, o Serviço de Saúde teve papel de destaque no seio militar. Diversas unidades foram criadas especificamente para apoiar o combate da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália, como o 1º Batalhão de Saúde.

O Serviço de Saúde da FEB reuniu cerca 1.369 componentes, das mais diversas especialidades e patentes, e foi comandando pelo Coronel-Médico Emmanuel Marques Porto. A guerra trouxe um marco histórico relevante e uma transformação irreversível, partindo da área da saúde, pois foi a primeira vez que mulheres ingressaram nas Forças Armadas brasileiras, voluntariando-se como enfermeiras tanto no Exército (foram 67) quanto na Força Aérea (foram 06). As enfermeiras receberam treinamento prático e militar, incorporando-se às equipes de saúde que serviram nos hospitais de campanha norte-americanos durante a guerra.

O Corpo de Enfermeiras da FEB designado para servir num hospital americano atendendo aos doentes e feridos. 16º Hospital de Evacuação, Pistóia-Itália. 10/03/45. Acervo do Museu Casa de Memória dos Ex-Combatentes, mantido pela Associação dos Ex-Combatentes de Brasília.

O Corpo de Enfermeiras da FEB designado para servir num hospital americano atendendo aos doentes e feridos. 16º Hospital de Evacuação, Pistóia-Itália. 10/03/45.
Da esquerda para a direita: Maria José Aguiar, Wanda Sofia Magewsky, Helena Ramos, Ondina Miranda de Souza, Elita Marinho, Sylvia Pereira Marques, Jurgleide Dóris de Castro, Silva de Souza Barros, Maria do Carmo Correia e Castro, Heloísa Cecília Villar, Maria Luiza Vilela Henry, Maria Belém Landi, Novembrina Augusta Cavallero.

Nas palavras da Major Elza Cansanção Medeiros, uma dessas pioneiras, “foi assim que a mulher brasileira, que sempre foi alicerce desta Pátria livre e forte, não podia nesse momento cruciante se furtar ao chamamento pátrio. Revoltadas com as agressões sofridas, procuraram uma forma de tomar parte no revide ao agressor.

A foto acima é acervo do Museu Casa de Memória dos Ex-Combatentes, mantido pela Associação dos Ex-Combatentes de Brasília.

Na guerra do presente, os profissionais da saúde vêm se consagrando como na guerra do passado, adquirindo conhecimento e unindo o binômio ciência e educação em prol da promoção da saúde. A COVID-19, como é característico em tempos de epidemias e guerras, levou a uma mudança de atitudes.

A pandemia vem ensinando à enfermagem militar, com centenas de homens e mulheres em combate nos leitos de UTI em todas as regiões brasileiras, as modernizações sobre a estrutura viral, sua fisiopatologia, mecanismos de transmissibilidade, medidas de prevenção, de proteção e de controle, o aprendizado rápido na intubação de pacientes, a forma de cuidar e a esperança de recuperar doentes.

A enfermagem e as demais equipes de saúde vêm sendo desafiadas a flexibilizar, se adaptar às mudanças e trabalhar em estreita colaboração para unir esforços e vencer este momento de crise global, até então inimaginável para os profissionais deste século. Na rede social, o Contra-Almirante Manoel de Almeida Moreira Filho e outros militares que foram curados agradecem aos profissionais pelo desempenho na pandemia.

virginia portocarreroTenente-Enfermeira Virgínia Portocarrero na Itália durante a Segunda Guerra Mundial.
Fonte: Fundo Virgínia Portocarrero – Casa de Oswaldo Cruz (FIOCRUZ).

O paralelo se faz entre a enfermagem da Segunda Guerra Mundial e a atual. Cenas de 75 anos atrás se repetem no cotidiano da enfermagem de 2020. Encontramos no passado os mesmos medos, tristezas, coragem e determinação, além do papel humanizado no cuidado junto aos feridos, relatado em livros históricos e na documentação do acervo doado pela Capitão Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero, que explora a participação de mulheres enfermeiras militares brasileiras na guerra e se encontra no Departamento de Arquivo e Documentação, Fundo Virgínia Portocarrero, na Casa de Oswaldo Cruz. A Capitão Virgínia, aos 102 anos, é hoje a última enfermeira da FEB ainda viva.

As fontes históricas deste acervo doado trazem a determinação e a persistência dessa enfermeira em registrar e preservar seus documentos que, na prática, se reconhece como rara fonte histórica, por meio da qual se pode reconstruir o discurso pela ótica do gênero e da profissão. No momento, construções teóricas também estão sendo produzidas16, se tornando fonte histórica de consulta e material de comparação e aproximação entre a enfermagem de 1940 e a de 2020.

Fato é que a lição fundamental das crises após guerras, revoluções e pandemias é o aceleramento de desafios em prol da potencialização do conhecimento.

covidNo Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro, a Coronel Simone Moura (Chefe de Enfermagem), o General Oiticica (Diretor do HCE) e equipe do CTI enfrentando a COVID-19.

Fonte: Acervo pessoal da Coronel Simone Moura.


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1 comentário

  1. Cel JOEL - JOEL FRANCISCO CORRÊA /

    Vcs tem fotos das enfermeiras da FEB treinando na Fortaleza de São João, Escola de ED fÍSICA?

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