Depoimentos de pracinhas de São José dos Campos

Douglas de Almeida Silva.

O pesquisador é graduado em História pela UNIVAP (Universidade do Vale do Paraíba) e bolsista do Núcleo de Pesquisa Pró-Memória São José dos Campos. O universitário autorizou a publicação do trabalho de conclusão de curso dele com o título “Memórias de um prisioneiro de guerra: Uma análise histórica da participação do joseense Eliseu de Oliveira (foto) na Segunda Guerra Mundial“, defendido na mesma universidade no dia 01 de julho de 2011. Entre em contato com o autor pelo e-mail: lobdas@yahoo.com.br

  Entrevistas com ex-combatentes[1]

      Artigo de José Moacir Marcondes Cabral

 

ENTREVISTAS COM EX-COMBATENTES DA FEB

Para completar trabalho referente à participação de São José dos Campos na 2ª Guerra Mundial, foram entrevistados alguns ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira – FEB, para se colher alguns testemunhos dessa participação de viva voz.

O primeiro a ser abordado foi o ex-combatente: JARBAS DIAS FERREIRA – Nascido em 19 de dezembro de 1921, natural de Mogi das Cruzes, mas radicado em São José dos Campos, filho do Sr. Luiz Mendes Ferreira e de da. Aurora Dias Ferreira.

Disse o entrevistado que sua convocação ocorreu no dia 3 de dezembro de 1942 como reservista do Tiro de Guerra 545 (hoje 45). Nessa ocasião trabalhava na Tecelagem Paraíba S.A. e era solteiro.

Foi incorporado inicialmente na CPP2 (Companhia de Metralhadora). Indo depois para a 6° Companhia do II batalhão do 6° Regimento de Infantaria, comandada pelo Cap. Frederico Carlos Faria Nobre, enquanto que a CPP2 teve como comandante o Cap. Proença Gomes.

Seu número na FEB foi, inicialmente 3025 e depois 1334.

Embarcou no 1° Escalão no dia 29 de junho de 1944, desembarcando em Nápoles. Depois da permanência em Bagnoli, Tarquinia e Vada, esteve em San Martino in Fredana (depois de Pisa). O fato mais interessante desse período que muito apreciou foi a organização e pontualidade americana e o bom tratamento que os comandos e os soldados norte-americanos dispensavam aos brasileiros.

Seu batismo de fogo ocorreu nas proximidades da cidade de Fiano, no Vale do Sercchio, combate em que morreu o soldado Atílio Pífio, de São Paulo – Capital seu amigo.

Depois tomou parte na defensiva no front da Torre Di Nerone, onde o maior perigo eram os franco-atiradores alemães e também o frio, que chegava a 18 graus negativos. Terminando o inverno tomou parte na Ofensiva da Primavera, inclusive Fornovo di Taro, onde travou-se o último combate na Itália, quando 15.000 alemães se renderam às tropas do 6° Regimento de Infantaria.

Disse que um fato que muito o magoou foi a morte de seu amigo Romão Cocô de São Paulo.

Seu melhor comandante foi o Cap. Canguçu, lá na frente de combate, cujo nome completo não se lembra mais. Esse capitão foi ferido em combate, sendo substituído pelo Tenente Abaitaguara, que assumiu o comando interino da 6ª Companhia.

Disse que achou os italianos muitos hospitaleiros e que dos companheiros de guerra guardava gratas recordações pela união que sempre houve entre todos.

Dos companheiros mortos, o que mais o impressionou foi o soldado Ademar Fernando Ferrugem, morto por um franco atirador, no front da Torre di Nerone, no justo momento em que lhe fornecia a hora certa que o mesmo solicitara, isto é, 18,30 horas.

Sobre os soldados alemães, disse que eram muito valentes, quando em grupo, o que não ocorria quanto estavam sozinhos.

Disse que a FEB trouxe para o Brasil bons resultados políticos e econômicos e que gostou das festas de recepção, quando do Reno em 1945, no Rio. São Paulo e São José dos Campos. Disse que, entretanto, depois dessas festas, houve muito descaso para com os pracinhas brasileiros.

O 2° entrevistado foi o ex-combatente:

DORACIL GOMES, nascido a 9 de maio de 1920 em Monteiro Lobato, (na época Bairro do Buquira, pertencente a São José dos Campos) filho do sr. Manoel Gomes Prendas e de Dª Maria Izabel Vieira Gomes.

Quando foi convocado para seguir, estava servindo nas fileiras da 4ª Companhia do 6ª Regimento de Infantaria (II Batalhão), desde janeiro de 1941. Antes de ingressar no Exército trabalhava de sapateiro no mesmo endereço de hoje, isto é, Rua Siqueira Campos n° 333 e era solteiro.

Serviu na Companhia de Comando do III Batalhão do 6° Regimento de Infantaria (CC-3), como segundo anti-tanque. Teve os seguintes números na FEB: 1553 e 2999.

Embarcou com o 1° Escalão em 29 de junho de 1944, desembarcando em Nápoles, onde esteve em treinamento em Bagnoli, Tarquinia e Vada.

Em Bagnoli, o bivaque era na cratera de um vulcão extinto, onde havia uma poeira muito fina que provocara vontade de beber um bom vinho. Então os pracinhas iam até a boca do vulcão compra-lo aos italianos, mas geralmente conseguiam vinho de péssima qualidade e ainda tinham que enfrentar os célebres cabeças-brancas da Polícia da FEB. Disse que a fuga era fácil, quando da perseguição desses policiais, bastava largar o corpo para vir parar lá em baixo no acampamento da Companhia.

O batismo de fogo ocorreu, para ele, na cidade de Camaiore, onde os carros de combate de sua Companhia apoiavam a tropa que assaltava a cidade referida. Disse que a CC-3 apoiou todos os combates do seu Batalhão, o III/6° R.I.

Afirmou que o que muito o impressionou foi a morte de diversos companheiros, quando estourou uma mina anti-tanque, na região em que se travou combate, pois os mesmos morreram horrivelmente mutilados, com pernas e demais membros arrancados e alguns ficaram cegos. Isto ocorreu na região de Filetole.

Dos comandantes, o que mais o impressionou foi o então major Silvino Castor da Nóbrega e quanto aos italianos achou que era gente muito boa.

Dos companheiros que guarda a melhor recordação, além dos camaradas de São José dos Campos, foi o sub-tenente Nelson Pacheco.

Disse que o ferimento recebido pelo soldado Alcides Ferreira dos Santos, ocorrido em Gaggio Montano, o impressionou muito, pois o mesmo teve a parte superior do crânio arrancada. Dos que estão vivos, admira muito o pracinha Francisco Brogliato (Tóti) por ser um grande amigo.

Acha que foi bom o Brasil ter tomado parte na guerra e que gostou da festa de recepção, tanto no Rio, como em S. Paulo e S. José dos Campos.

É casado com Da. Dirce Ragazzini Gomes e pai de três filhos.

Em terceiro lugar foi o entrevistado e ex-combatente:

JOSÉ LOPES CRUZ, natural de São José dos Campos, nascido em 7 de agosto de 1921, na Rua Antônio Saes, filho do Sr. Francisco Lopes Cruz e de Dª Isabel Batista da Cruz. Nasceu numa casa que ficava na área do atual Supermercado Jumbo, pegado ao antigo campo do Esporte Clube São José.

Foi convocado no dia 3 de outubro de 1942 para o 6° Regimento de Infantaria como reservista do Tiro de Guerra 545 (hoje 45), seguindo incorporado aos seus companheiros até à estação da Central.

Antes da convocação trabalhava na Casa Kremer, de Moysés Kremer, uma casa de tecidos, calçados e eletro-domésticos que ficava no local onde hoje está o Barnorte, na Rua XV de Novembro.

Na FEB, onde serviu como padioleiro da Companhia de Saúde do 1° Regimento de Infantaria do Rio de Janeiro (Regimento Sampaio) foi dos que embarcaram no 2° Escalão, partindo do Rio de Janeiro no dia 23 de agosto de 1944, chegando em Nápoles em 22 de setembro de 1944, de onde se deslocou em barcaças até Livorno, acampado na região de Pisa.

Ele foi convocado para o 6° R.I., mas como fez a “tocha”, isto é, deslocou-se do Rio na Semana Santa de 1944, sem licença, foi transferido para o 1° R.I., como punição, porque se julgava que este último Regimento seguiria primeiro, mas no fim o 6° R.I. é que seguiu e a punição acabou sendo prêmio…

Na FEB teve o número 4243.

Antes do batismo de fogo ficou bivacado no campo de caça do rei Victorio Emanuelle na região de Pisa.

Na Itália teve pneumonia dupla e esteve para voltar, mas no fim acabou permanecendo e foi mandado com sua padiola para o combate de Montese.

Disse que estando com muitas saudades dos seus companheiros do 6° R.I., deslocou-se do acampamento do 1° R.I. para o do 6° R.I. em Borgo-a-Mozzano, onde encontrou-se com seu amigo Francisco Brogliato (Toti) e com os demais. Fez a “tocha” até na Itália.

O Batismo de Fogo foi em La Serra, tomado pelo 1° R.I. e pela 5ª Companhia. Tendo sido ferido perto de uma igreja um brasileiro, recebeu telefonema para ir busca-lo, mas chegando lá viu o soldado brasileiro (um goiano) já morto, com um tiro na cabeça e pondo os miolos para fora. O soldado levou um tiro no capacete, bem na frente, morrendo de modo horrível, pois o capacete afundou no lugar do tiro, abrindo-lhe a cabeça.

Tomou parte do combate de Castelnuovo, quando o 1° R.I. apoiou um movimento do 6° R.I. Nesse combate socorreu um soldado alemão que tinha o braço estraçalhado, ao qual aplicou uma injeção de morfina, mas quando lhe quis dar café quente, ele recusou, pois preferia-o amargo e frio. Esse alemão lhe mostrou o retrato da esposa e de seus quatro filhos, o que muito o compungiu, e disse que simulara uma patrulha para poder se render aos brasileiros. Disse que quando escoltava o alemão até o posto de prisioneiros, teve um trabalho imenso para fazê-lo chegar lá com vida, pois os italianos com os quais iam cruzando pelo caminho, queriam linchá-lo.

Disse o pracinha José Lopes Cruz que tomou parte nos três combates pela posse do Monte Castelo, em novembro, dezembro de 1944 e fevereiro de 1945, nos quais recolheu muitos de seus companheiros feridos, debaixo de grandes bombardeios.

No fim da guerra ficou em Salcio-Maggiore, balneário da região de Piacenza, mas depois foi para a própria Piacenza.

O Comandante que mais o impressionou foi o que teve no 6° R.I. o capitão Atratino, seu antigo comandante, que cumpriu na guerra o que ensinara na paz aqui no Brasil, sendo muito valente.

Gostou dos italianos, pois parecia que se estava entre familiares. Disse que no Natal de 1944 foi muito bem tratado por uma família em Porreta-Terme, que lhe preparou uma ceia de Natal da qual até hoje tem saudades.

Dos colegas lá do 1° R.I. do Rio de Janeiro guarda grandes recordações do tenente Dr. Gonzaga Ribeiro (já falecido), seu comandante e do ex-combatente João Vaz, que foi presidente da Associação dos Veteranos da FEB no Rio de Janeiro.

Gostou muito da festa de retorno no Rio de Janeiro.

Hoje José Lopes Cruz que é mais conhecido por Passarinho, é um vovô feliz, cercado de seus netos e de sua esposa e filhos. É naturalmente alegre e brincalhão e tem um imenso círculo de amigos aqui, no Rio e em Caçapava.

ELISEU DE OLIVEIRA

O pracinha joseense, Eliseu de Oliveira, filho do sr. Agenor de Oliveira, que por muito tempo foi proprietário do Bar Paulistano, na esquina da Rua XV de Novembro com a Rua Sebastião Hummel (onde hoje há uma pastelaria) e de Dª Trindade de Oliveira, viveu uma verdadeira epopeia na 2ª Guerra Mundial, pois foi aprisionado, tendo sofrido horrores nos campos de concentração nazistas, a partir do dia 31 de outubro de 1944. Sobre o assunto ele deu depoimento ao jornalista Altino Bondesan, o qual escreveu o livro “Um pracinha no inferno de Hitler”.

Eliseu de Oliveira, quando foi convocado, era reservista do 4° Regimento de Infantaria e do 6° R.I. de Caçapava, tendo dado baixa das fileiras neste último.

Voltando do 4° R.I, montou com seu primo José Bráulio um armazém no bairro do Sertão, mas foi convocado e seguiu para o 6° R.I. no dia 16 de outubro de 1942. O 6° R.I, tinha o I Batalhão em Taubaté, o II em Caçapava e o III em Lins e, deste, a 8ª Companhia estava em Araçatuba. Ele serviu nesses três Batalhões do Regimento, mas quando a FEB se deslocou para o Rio de Janeiro, ele estava na 3ª Companhia do I Batalhão, do Taubaté.

Ele conta como foi o embarque em Taubaté, em março de 1944, quando a população inteira compareceu à estação, trazendo flores e chorando a partir dos pracinhas, inclusive houve discurso do prefeito taubateano, respondido pelo major Celso Lobo.

No Rio ficou alojado com seus companheiros no Batalhão Escola na Vila Militar e, como os demais febianos, tomou parte na “tocha”, viagem sem licença para visitar familiares, por ocasião da Semana Santa de 1944.

Embarcou para a Itália no “General W. S. Mann”, navio norte-americano, no dia 29.6.44, indo para Bagnoli depois do desembarque em Nápoles, seguindo depois para Tarquínia e Vada.

Entrou para o front em Filetole, passando mais tarde por Pisa e Chiatre, Piazzano, Santa Maria e à 23 de setembro de 1944 tomou parte no combate pela posse do Monte Valimona, quando fez parte de uma patrulha e aprisionou quatro alemães. Sua próxima participação foi em Casciano, perto de Luca. Depois esteve em Fornaggi e Borgo Mozzano.

Tomou parte no combate de Barga, na tomada de Colle S. Chirico, tomando, com seu grupo um casarão ali existente, no dia 30.10.1944, posição insustentável, onde, com mais 16 companheiros, foi aprisionado, depois de resistir até o último cartucho, impondo pesadas baixas aos alemães.

No casarão, além dele, estavam o 3° sargento José Carlos Borges, os cabos José Rodrigues (Piolim) e Waldemar Reinaldo Cerezoli e os soldados José Otaviano Soares (Noronha), Osvaldo Maurício Varela, Alcides Ricardini Neves, Anézio Pinto Rosa, Hilário Furlan, Osvaldo Casemiro Muller, Alcides Lourenço da Rocha, Geraldo Flausino Gomes, João Muniz dos Santos, Hamilton Rodrigues da Silva Costa, João Santana (Bigode), Manoel Correa e Antônio Júlio.

Em S. Chirico o inimigo era tremendamente superior em homens, armas e munições. Com grande dificuldade alguns pelotões da 3ª Companhia do I Batalhão do 6° R.I. conseguiram chegar até seus objetivos. O grupo do sargento Geraldo Moacir Marcondes Cabral conseguiu chegar até uma casa de três pavimentos (em baixo era abrigo de animais, no pavimento do meio havia dois quartos e no de cima a sala e mais alguns quartos). Era uma residência rural, cujos três pavimentos tinham saída para terra, por ser entranhado em um barranco.

No dia 30.10.1944 o grupo do sargento Cabral matou alguns alemães e feriu outros tantos, embora perdendo o soldado Vicente Batista, com um tiro na cabeça e mais o soldado Toledo, ferido nos joelhos e, ainda, mais dois soldados que o levaram para a retaguarda.

No dia seguinte, 31.10.1944, os alemães dominaram toda a área. Na casa estavam também os capitães Aldenor da Silva Maia, comandante da 3ª Cia e Atratino Cortes Coutinho, além do tenente José Maria Pinto Duarte, o soldado José Ribeiro Bastos e o Gambá, este gravemente ferido com uma rajada de metralhadora no rosto.

Lá pelas dez horas do dia 31, apareceram para falar com o capitão Aldenor, o cabo Waldemar e soldado Eliseu, cujos companheiros estavam quase totalmente situados no casarão que ficava mais à frente, o que causou espanto a todos, pois parecia impossível que alguém ainda estivesse com vida por lá. Eles vieram para perguntar se deviam ou não permanecer lá. Infelizmente o capitão mandou que permanecessem. O resultado foi a morte do soldado Hamilton Rodrigues da Silva Costa e ferimentos graves no soldado alcunhado Noronha.

Na casa onde Eliseu veio estavam como ele bem recordou, os capitães Aldenor da Silva Maia e Atratino Cortes Coutinho, o tenente José Maria Pinto Duarte, o 1° sargento Rodoval, o 3° sargento Geraldo Moacir Marcondes Cabral (Sargento Cabral) e José Ribeiro Bastos, além de outros, cujos nomes não lembrou mais.

Voltando para o casarão, sucedeu a morte do Hamilton e Noronha foi gravemente ferido; João Santana empreendeu bem sucedida fuga, quando foi ameaçado de fuzilamento. Piolim e Noronha ficaram ocultos, mas depois foram descobertos pelos alemães e levados para a retaguarda, este último estava com 43 estilhaços no corpo.

Disse Eliseu, que no tiroteio travado contra os alemães, cinco deles foram mortos e 25 feridos gravemente.

No fim tiveram de se render e com as mãos sobre a cabeça foram levados a um local e postos em fileira para fuzilamento, porque os alemães estavam furiosos com as baixas sofridas (o local era a área de Castelnuovo no Vale do Rio Sercchio). Por sorte, enquanto os alemães confabulavam a execução, surgiu um oficial nazista que gritou “Brazilianisch incht caputi” (brasileiro não devem morrer) e assim a execução foi suspensa e os brasileiros começaram a transportar os feridos alemães, por quilómetros, debaixo de sol escaldante, depois de 60 horas sem dormir e sem comer, nem beber água.

Em seu depoimento, Eliseu deixou esta advertência aos meninos brasileiros: “tomem nota disto que estou contanto, os que porventura vieram a ler estas linhas. Imaginem o sofrimento de soldados mutilados, caminhando sob inclemência do sol, após dois dias e uma noite, sem descanso, levando o peso de feridos inimigos e peça a Deus que no mundo de amanhã, no “seu mundo”, não exista na face da terra essa coisa brutal e desumana e cruel que se chama guerra!”.

Continuando em suas palavras, disse Eliseu que a fome torturou os brasileiros, no local em que estavam presos, até que uma gorda italiana lhe trouxe pão preto e marmelada alemã em doses minúsculas. A sede era cruel, mas com paciência conseguiram um pouco d’água. Uma outra italiana, que veio trazer alimento para os italianos ali também aprisionados, lhes deu uma xícara de sopa rala, prometendo um cafezinho. Foi nessa altura que os alemães trouxeram também o Piolim e o soldado Anézio, que haviam conseguido ocultar-se, por ocasião da rendição.

De Castelnuovo os prisioneiros seguiram para Serrizoli, levando em uma maca o soldado Noronha, ainda com os estilhaços no corpo e sofrendo horrivelmente. Dias depois o médico alemão encheu-lhe a boca de gaze e arrancou a sangue frio o 43 estilhaços. Conta Eliseu, que muitos deles, inclusive o Noronha, quando regressaram ao Brasil, foram a pé cumprir promessa em Aparecida.

Em Serrizoli (PC alemão), os prisioneiros receberam alimentação muito boa, sobra do que comiam os oficiais alemães e, ali, foram interrogados por um tenente que falava o português. O soldado Muller conseguiu esconder sua descendência alemã (ele falava o alemão corretamente) foi de grande valia para os brasileiros presos, traduzindo todas as conversas em que os alemães mofavam dos brasileiros.

Nessa cidade os brasileiros tiveram de trabalhar na conservação de estradas, sob rigoroso inverno e com parca alimentação.

Dali seguiram para Parma, no norte da Itália, onde os brasileiros, juntamente com os alemães, foram bombardeados por avião americano quando o comboio se deslocava. Ficaram alojados na escola dessa cidade italiana e escreveram nas paredes seus nomes, para deixar pista de seus paradeiros aos que viessem a tomar a localidade, pista que teve muito valor quando tropas da FEB entraram ali. De Parma foram para San Giovanni e, no trajeto, foram insultados por italianos tiroleses que lhes atiravam pedras, diziam palavrões, faziam gestos obscenos, chamando-os de “braziliani, raça de cani”. Tiveram de voltar a Parma onde passaram a carregar caminhões de tábuas, as quais lhes machucavam as mãos. Por fim seguiram para Mãntua, recebendo bombardeio aéreo pelo caminho e, numa das vezes, tiveram de se esconder atrás de um rico prédio, onde os italianos, seus moradores lhes deram boa comida e vinho espumante.

Em Mãntua passaram fome, pois não havia alimentos suficientes. Um oficial alemão descendente de português, chamado Armando lhes dizia que tivessem paciência, pois iam ser transferidos para a grande Alemanha, onde não havia a fome.

O campo de prisioneiros de Mãntua era cercado de arame eletrificado e os soldados defecavam numa lata dentro das barracas. A cidade era constantemente bombardeada por aviões aliados. Ali os brasileiros foram convidados a falar pelo rádio, concitando os elementos da FEB a se renderem, o que recusaram terminantemente, embora ameaçados de represálias.

Em Mãntua partiram de trem cargueiro lacrado, para a Alemanha o qual estava superlotado e trancado a sete chaves, dando solavancos constantes. No caminho o comboio foi atacado por aviões. A viagem durou três dias, dois deles sem alimentos e sem água. Só no 2° dia deram pão preto em pequena quantidade e um pedaço de salsicha. Nesse trem chegaram a Munich e foram para o campo da localidade de Moosburg, no qual iriam sofrer novo Calvário, recebendo alimentação fraca e parca, composta de pacotes enviados pela Cruz Vermelha, mas dos quais os alemães retiravam a maior parte dos alimentos.

Eliseu disse que dali mandara um cartão de boas festas no Natal de 1944, para sua mãe Dona Trindade, mas o mesmo demorou muito a chegar, dando tempo para que recebessem um fajuto telegrama do Ministério da Guerra, dando-o como morto.

De Moosburg vinham trabalhar em Munich removendo neve das ruas e da estação ferroviária. Num barzinho dessa estação trocavam cigarros por xícara de café.

      Contou que devido aos constantes ataques da aviação aliada, a cidade de Munich foi transformada em montões de entulho e a tal ponto era o arrazamento que parte da população passou a dormir ao relento. Em Munich os brasileiros servirão também como criados em casas particulares, onde às vezes recebiam pedaços de pão preto – uma grande dádiva para quem vivia constantemente com fome.

Depois passaram a trabalhar em Lamdsnut, junto ao rio Isar, afluente do Danúbio (em março de 1945).

Um prisioneiro norte americano conseguiu montar um rádio, escrevendo em papel as mensagens que passava aos demais prisioneiros. Essas mensagens contavam o avanço das tropas aliadas em a certeza de que o fim da guerra estava próxima. A disciplina no campo de concentração começou a ser relaxada e agora os brasileiros já podiam pegar água aos baldes.

Em abril de 1945 começou a soar a hora da libertação a cidade de Moosburg começou a ficar deserta e as famílias alemãs começaram a alimentar os prisioneiros.

No dia 28 de abril um prisioneiro sul-africano chegou ofegante, gritando no acampamento: “Domani! Domani saremo in libertá” (amanhã, amanhã estaremos em liberdade).

A alegria tomou conta de todos que dançavam e pulavam de alegria. No dia 29 de abril de 1945, os prisioneiros começaram a ouvir o barulho das armas aliadas das metralhadoras ponto 50; muitos subiram nas partes elevadas das redondezas do campo de concentração e viram surgir no horizonte os primeiros tanques norte americanos do General Patton.

Os prisioneiros invadiram as barracas dos guardas alemães e de lá retiraram copiosos alimentos fornecidos pela Cruz Vermelha, que eles roubavam, enquanto os prisioneiros passavam fome…

Os soldados norte-americanos chegaram e deram aos prisioneiros alimentos, materiais de higiene pessoal, roupas e dali os retiraram para a França, via Reims até París.

De París, Eliseu falou pelo Rádio e em São José, Baimu ouviu e foi dar a notícia à sua mãe, Dona Trindade.

De Paris, os brasileiros seguiram para Marselha e dali para Pisa na Itália, onde por comboio de caminhões seguiram para Alessandria e Voghera, onde a FEB se preparava para partir rumo a Nápoles de onde dar-se-ia o regresso para o Brasil.

Em Voghera onde estava a 3ª Companhia todos se espantaram por ver o Eliseu tão gordo. É que os aliados primeiro cuidaram da saúde dele e de seus companheiros, para depois manda-lo para a FEB.

Hoje Eliseu de Oliveira mora em São Paulo. É casado e já é vovô. Vem sempre a São José visitar sua velhinha mamãe Trindade que mora na rua Sebastião Humel.

TESTEMUNHO DO EX-COMBATENTE GERALDO MOACIR MARCONDES CABRAL

Tomando o depoimento de alguns ex-combatentes, estes me pediram que desse o meu testemunho também, o que vou fazer em homenagem a eles, pois fui da turma de Jacareí, vindo residir em São José dos Campos em 1948, trazido pelas mãos desse grande amigo, o Eliseu de Oliveira, quando o Vale do Paraíba estava numa terrível recessão e era difícil arranjar um emprego.  Quando ocasionalmente, em 1948, desci do ônibus no Marron para tomar café, encontrei-me com o Eliseu, o qual logo me soube de minhas dificuldades, se prontificou a empregar-me e franqueou-me a casa de seus pais.

Vim para São José dos Campos e fui trabalhar na COCTA, que tocava as obras no CTA.

Eu vinha em 1941, como reservista do 5° Regimento de Infantaria (Companhia de Metralhadoras), cujo 2° Batalhão estava sediado em minha terra natal – Pindamonhangaba, para trabalhar para o Salomão Becker, em Jacareí. Como ganhava muito pouco, resolvi ir tentar a vida em São Paulo, onde acabei trabalhando na Tecelagem Semper Idem, na antiga rua dos Prazeres (hoje tem outro nome) que era uma travessa do fim da  rua Cachoeira, após a rua Cutumbi.

Morava, então, numa pensão na esquina da Cutumbi com a Cachoeira, porque ficava perto da fábrica e me permitia trabalhar horas extraordinárias para reforçar o salário que era de 220 cruzeiros mensais. Trabalhava, das 6 às 18 horas, tendo recebido a promessa do gerente e dono, o suíço Hugo Bruderer, de que em dezembro de 1942, passaria a ganhar quatro vezes mais, passando a chefe da seção de expedição.

No dia 11 de outubro, muito cansado, fui deitar mais cedo e dormia como uma pedra, quando a porta começou a ser espancada. Acordei tonto de sono e fui abrir a porta: era o estafeta do Telégrafo com o telegrama convocando-me para as fileiras do 6° R.I.

No dia seguinte fui à fábrica e acertei as contas e parti para Caçapava, mas a incorporação só ocorreu em dezembro desse ano. Fui designado para servir como terceiro sargento na 7° Companhia do III Batalhão de Lins, na Noroeste. Lá precisei operar a hérnia na Santa Casa, motivo pelo qual acabei sendo transferido para Taubaté, para a 3ª Companhia do I Batalhão, com a qual segui em março de 1944 para o Rio de Janeiro e dali para Nápoles, embarcando no 1° Escalão no dia 29/6/44. Quando entramos para os beliches no navio “General Mann”, tudo estava escuro, um não enxergava o outro. De manhã, quando acordei, o companheiro ao lado era o meu irmão José Dimas, que como arrimo de família, jamais deveria ser convocado, nem seguir para a guerra.

No navio, logo de manhã, soou a campainha para a primeira refeição. O serviço estava mal organizado e só ao meio dia consegui tomar o meu café. Nas imensas filas, todos nós suávamos em bicas, tal era o calor que fazia. Quando sai do refeitório, a campainha já estava tocando o almoço. Já estava alimentado e não liguei.
A tarde entrei na fila que ainda era a do almoço, e acabei jantando às 18 horas. Nos dia seguinte foram tomadas providências e as refeições passaram a ser servidas rapidamente.

Cada um de nós recebia um cartão numerado, que ia sendo picotado a cada refeição servida. Recebemos, todos os salva-vidas, logo apelidado de “asa de morcego”, cujo uso era obrigatório.

Com tanto calor, resolvi tomar um banho, peguei o sabonete e me ensaboei, mas o chuveiro era de água do mar, foi aquela tristeza, o sabão não saia mais do corpo. Era proibido tirar água dos bebedouros (água potável) para tomar banho, não houve outro remédio, senão transgredir o regulamento, indo roubar água para completar o banho.

Depois de 14 dias de viagem, chegamos em Nápoles, indo para o vulcão extinto de Bagnoli, onde a poeira era fina como trigo e a falta d’água era uma realidade. Tomar um banho era problema e ainda por cima a gente era obrigado a fazer a educação física no meio daquela poeira. Com tanta poeira e com a falta d’água, todo mundo ficou encardido.

No segundo dia houve formatura para hasteamento da Bandeira, e depois de hasteada, comecei a sentir uma estranha sensação de amor por aquele pedaço de pano que flutuava no ar.

A primeira refeição servida em Bagnoli deixou todo mundo desanimado: eram latinhas de carne com feijão mas temperadas com açúcar e sal, tempero que repugnava ao paladar brasileiro. Notando o problema os americanos mandaram servir refeições quentes a moda brasileira.

As saídas, sem licença, desse acampamento, dos nossos soldados fizeram com que o comando tomasse as suas providências. Como todos estavam alojados em barracas, foi feito um cercado de madeira (pau a pique), para servir de prisão, logo batizado de “chiqueirinho”. A qualquer falta, vinha a ameaça de mandar para o chiqueirinho.

Muitos perguntavam se a gente gostou de ir para a guerra. De minha parte respondo que sim, pois a participação do Brasil na 2ª Guerra Mundial desafrontou os nossos marinheiros e soldados que foram torpedeados no mar, quando trabalhavam em missão pacífica. Depois, essa participação trouxe resultados políticos e econômicos para o Brasil, o que foi muito bom. Por fim tornou o Brasil mais conhecido no Exterior, o que não é de se desprezar.

De Bagnoli seguimos para Tarquinia e depois para Vada. Nesses locais tomamos conhecimento com as armas que iríamos usar e recebemos treinamento que muito nos ajudou a vencer no campo de batalha, sem perder muitos homens do 6° R.I. morreram apenas 54, enquanto o 2° escalão perdeu mais de 300 por não ter passado pelo mesmo treinamento.

Em Vada os treinamentos foram mais intensos e até chegamos a simular um combate, ás vistas de generais norte-americanos, que gostaram e mandaram que a tropa estivesse pronta para o batismo de fogo.

Não se passaram muitos dias para que estivéssemos na luta, começando por Filetole até chegar a Camaiore, onde obteve a FEB um dos maiores sucessos. Tomei parte na tomada do Norte Valimona, onde nossa 3ª Companhia garantia o flanco direito da tropa que atacou Camaiore. Nesse combate morreu o joseense Névio Baracho.

Da região de Camaiore partimos para o combate de Barga, onde o insucesso foi total, devido a falta de apoio e de reforços. A maior parte teve de recuar e os que ficaram foram salvos por milagre ou foram mortos e aprisionados.

Trata-se do combate pela posse de Colle San Chirico. O comando da FEB não soube calcular a importância desse setor, pois se fosse tomada essa posição, os brasileiros enfiariam uma cunha nas tropas alemães e queimariam etapas rumo ao norte da Itália, coisa com a qual os nazistas jamais concordariam, tanto que colocaram ali tropas escolhidas, inclusive SS. Para se tomar uma posição como aquela, era necessário não só uma coluna de tanques, como apoio aéreo, pelo menos de observação.

Ocorria, ainda, que a região estava infiltrada de fascistas, que passavam todas as informações para o inimigo.

No dia 30 de outubro de 1944, o II Batalhão do 6° R.I. recebeu ordem de avançar sobre Colle San Chirico, como mochila e munição aliviadas! ás 13 horas a 3ª Companhia partiu no ataque. Meu grupo conseguiu chegar até o objetivo, mas sofreu uma baixa, o soldado Vicente Batista, que morreu nos meus braços, após receber um tiro na cabeça. O soldado Toledo foi ferido no joelho por perfuração de bala e eu tive de ceder um soldado pra acompanhar o padioleiro que o socorreu.

Nós chegamos ao pico do morro depois de uma forte descarga de morteiros inimigos e no fim estávamos desmuniciados, com frio (porque chovia) e com fome, além de cansados.

Passamos a noite toda na parte baixa da casa onde nos alojamos vendo os alemães atirarem dos lados e até em nossa retaguarda, na realidade estávamos cercados.

No dia seguinte, 31 de outubro, juntamente com o comandante do Pelotão, tenente Figueiredo, fomos reconhecer a situação e recebemos rajadas de metralhadoras quase a queima bucha. O tenente recuou com meu grupo, enquanto juntamente com o comandante da Companhia, procurávamos de dentro da casa, reconhecer o inimigo. Por fim ficamos sitiados dentro da casa, que por ser encravada no morro, tinha saída de seus três andares para terra. Éramos oito dentro da casa. Ás seis horas vimos o soldado apelidado de Gambá ser alvejado pela metralhadora alemã, que lhe arrancou a metade do rosto. Com grande dificuldade conseguimos trazê-lo para dentro da casa, mas pouco pudemos fazer por ele, senão derramar-lhe sulfa em pó no ferimento, mas ele não tinha a bochecha, a sulfa ia para sua boca. Não havia gaze nem algodão. Restava dar-lhe aos poucos alguns goles de água.

Na porta lateral de metralhadora em punho estavam o soldado José Ribeiro Bastos, eu e o cap. Atratino Cortes Coutinho. Em dado momento, um alemão se encaminhou para o nosso lado e o capitão Atratino o abateu a tiro de carabina. Lembro-me que um soldado alemão que vinha um pouco atrás gritou Wilherm, para advertir mas Guilherme já estava morto.

Foi o quanto bastou para que os alemães concentrassem fogo sobre a casa e, em dado momento, alguns entraram no 3° andar da casa e começaram a rolar granadas de mão sobre nós. O único recurso era saltar pela janela, que dava passagem a um de cada vez. O primeiro a saltar foi o cap. Atratino; em 2° saltou o tenente José Maria Pinto Duarte e foi serrado no ar. Pela metralhadora. Como eu era o mais magro, saltei em 7° lugar, deixando com grande tristeza, no interior da casa o soldado Gambá, que nervosamente tentava levantar-se. Caí ao chão e quando fui atravessar a cerca tomei um estrepe mourão da cerca, que depois me produziu uma enorme inflamação, obrigando-me a ir para o hospital, com ameaça de gangrena.

Depois que atravessei a cerca, vi o tenente Duarte esvaindo-se de sangue e quis socorrê-lo, mas o cap. Atratino gritou-me para sair daquela área. Levantei-me rezando à Nossa Senhora e passei a abandonar o local, mas alguma coisa me segurou, quando uma bala passou zunindo nos meus ouvidos e pegou o bico da minha botina. Naquele dia nasci de novo. Dali segui pelo campo escondendo-me nas parreiras e quando corria era perseguido por tiros de metralhadoras e petardos de morteiro. Enfim consegui chegar a um local sem perigo, mas a pele dos meus calcanhares tinham saído, meu pé era uma chaga, tanto o direito como o esquerdo. Encontrando um riozinho fui lavar as feridas e quase virei com vertigem.

A primeira pessoa que encontrei foi um soldado que estendia a linha telefônica ao qual pedi cigarros; ele pegou o seu maço, rachou-o pelo meio e me deu com uma caixa de fósforos.

Voltando ao dia 31 de outubro de 1944, isto é, à situação em Colle S. Chirico, nós que estávamos na casa, vimos entrar o Eliseu e o cabo Waldemar, muito admirados dos mesmos terem vindos de posição ainda mais à frente, pois nós que estávamos um pouco retirados já estávamos em posição insustentável. Eles descreveram a situação e pediram ao capitão Aldenor uma solução recuar ou permanecer. Quando ouvi que deviam permanecer, senti o drama que ia se desenrolar: a morte ou a prisão daqueles moços, o que realmente veio a acontecer. São situações em que a gente é capaz de prever a consequência, mas não se pode intervir, por que está em patente menor. Ora, o cap. Aldenor não contava com nenhum meio para garantir a nem a nossa vida na casa, como poderia, então, dar uma ordem daquela!

Depois que recebi os cigarros, continuei e podia andar porque transformei minha botina em chinelo, cortando o contraforte para não machucar meu calcanhar que era uma ferida viva. Quando cheguei ao subúrbio de Barga, um oficial do Posto de Comando do 6° Regimento me pôs num jipe e me levou para esse PC, para interrogatório, visando culpabilizar o cap. Aldenor pelo insucesso do combate de Colle. Como militar consciente, inocentei o capitão e só não disse o nome dos verdadeiros culpados, por receio das represálias, porque se havia culpado, ele ou eles estavam no Q.G. da FEB, que não enviaram reforços em tempo hábil.

Passei 48 horas sem comer e nem beber água e quando me vi no QG com comida, a estafa da fuga me tirou a fome. Quando cheguei na 3ª Companhia, meus soldados que estavam tristes, pois o posto de observação de retaguarda tinha-me dado como morto, vieram me abraçar aliviados. Descobri logo o engano: o célebre soldado alcunhado de Gambá, tinha mais ou menos o mesmo corpo e a mesma altura minha. Logo que pulamos, nós todos da casa, e saímos da área de Colle, o Gambá saiu pela porta e resistiu aos alemães e foi morto. Do observatório isto foi visto, pensando tratar-se de mim.

De Barga fomos para a linha onde estava a Artilharia, onde pernoitamos por algumas horas. Embora estropiados às 3 horas da madrugada todos foram acordados para retirada daquele local, que estava sendo ameaçado pelos nazistas. Lembro-me que quando saia de Barga, no dia anterior, encontrei-me com Laudelino Nogueira, moço joseense tão jovial, que gostava muito de caçoar de minha magreza, dizendo que os tiros dos nazistas nunca me pegariam, porque era difícil acertar tiro a um fio de barbante… De fato, eu pesava 38 quilos e havia dado baixa em maio de 1941 por incapacidade física, num tempo em que as baixas das fileiras do Exército estavam proibidas, mas os médicos da FEB acharam que eu estava bom e eis-me na guerra… Enquanto conversava com Laudelino, não podia adivinhar que dai a algumas horas ele estaria morto. Ele morreu no dia 1° de novembro de 1944; sua morte foi assistida por um correspondente de guerra, que contou a sua aflição por não poder rever seus pais e seus irmãos.

Daquela região descemo-nos para o eixo rodoviário de Bologna, entrando para a cidade de La Venturina, em Porreta-Terme. O estrepe do mourão de cerca de Colle San Chirico fez meu braço esquerdo inflamar tanto e um vergão preto corria por todo o braço, que o médico da Companhia me encaminhou ao Posto de Saúde Americano de Porreta Terme. Dali fui enviado para Florença, depois para Pistoia e, finalmente, para Livorno, neste último vi a chegada de muitos brasileiros com tiros nos pés. O 6° R.I. tinha entrado para as posições defensivas ao longo de Palazio, Torre di Nerone, Soprassasso e Monte Cavaloro, onde os franco-atiradores alemães faziam suas sortidas, visando congestionar os hospitais de feridos.

Na véspera do Natal de 1944 fui devolvido ao front dos Apeninos. Cheguei a Porreta Terme para aguardar meu destino. Estando na rua, um jipe me levou até o PC do Regimento onde recebi a notícia de que iria emprestado à 9° Companhia. Fui a posição onde ela estava e, no caminho, já com meu novo grupo, ouvi o assovio choco de uma granada de propaganda, isto é, que trazia propaganda do inimigo. Ela explodiu e soltou dezenas de panfletos exortando os brasileiros a se rederem. Num desses papéis haviam fotografias de moças nuas e dizia: “renda-se e você irá abraçar muitas delas na Alemanha”.

Na 9° Companhia tocou-me o front onde os postos dentro de um cemitério. Num dos bombardeios que dali suportamos, as sepulturas foram abertas e os cadáveres revolvidos ficaram expostos. Fiquei ali só alguns dias e já no dia 31 de dezembro estava com minha 3ª Companhia, guarnecendo com meu grupo o km. 120 da estrada de Bolonha, bem em frente ao Monte Cavaloro, onde observei dois fatos tristes, que depois vou contar. Na noite do dia 31 de dezembro, os alemães prometiam uma surpresa para a passagem do ano novo. Por esse motivo, os postos foram reforçados, mas a surpresa foi à meia noite: todas as metralhadoras alemãs começaram a atirar para o ar, com balas traçantes (balas luminosas). Milhares de balas incandescentes iluminavam o espaço, um espetáculo maravilhoso naquele cenário tétrico da guerra.

Quando estava nesse km. 120, recebi ordem deixar passar uma patrulha norte-americana, que ia explorar a frente, onde havia uma tulha. Vieram aqueles moços louros, grandalhões, galhofeiros e passaram pelo posto, muito alegres, no cair da tarde. Á noite, começou um tiroteio de pistolas lá na frente e os alemães puseram fogo à tulha ou paiol. Houve uma debandada de americanos, pois eles se esconderam dentro desse paiol que foi incendiado, uma parte foi aprisionada e os que voltaram estavam muito assustados e taciturnos. Alguns dias depois, veio uma patrulha brasileira, para explorar a linha de Castelnuovo, que ficava além do Monte Calaloro, uma posição muito fortificada. Quando a patrulha chegou perto das posições alemãs, estes saíram em perseguição aos brasileiros, mas dando tiros de pistola, o que é muito pejorativo para qualquer tropa, isto é, correr de tiros de arma de cano curto. Da posição eu podia observar tudo, mas não podia atirar, porque brasileiros e alemães estavam misturados.

Passamos todo o inverno lá nos Apeninos, com frio de até 20 abaixo de zero, tendo que suportar grande parte desse frio ao ar livre. O frio doía tanto que dava vontade de chorar.

Passado o mais pesado do frio deslocamos para a região de Monte Castelo, mas antes estive baixado ao hospital de Pistoia, com reumatismo apanhado nesse inverno. Fiquei lá somente uns 3 dias. Depois vim para Porreta Terme e enquanto esperava a condução que me levaria ao front, vi um enorme comboio de caminhões, cujas molas estavam ringindo ao peso das cargas. Quando o comboio parou, suspendi a lona de um dos caminhões e reconheci a triste carga pelos sacos que envolviam cadáveres. Aquele comboio levara cerca de mil mortos do combate dado pelos americanos contra o Monte Belvedere, que flanqueava o Monte Castelo. Naquele mesmo dia o 1° R.I. deu o terceiro ataque sobre o Monte Castelo, tomando-o. Segui para Gaggio Montano, onde estava a 3ª Companhia e dali para Abetaia, nas fraldas do Monte Castelo, meu grupo foi destacado para Monte La Torracia, atrás do Castelo, onde a Cia. teria de suportar contra-ataques alemães.  Nessa posição, toda noite uma coruja vinha piar e os soldados achavam que isto era um mau agouro. Percebi que se a coruja piava, era porque havia cadáveres por ali. No dia seguinte mandei os soldados vasculharem a área e foi encontrado o corpo de um norte-americano, com a cabeça decepada por um tiro direto de canhão de tanque, um quadro horrível e mal cheiroso, pois já estava em putrefação. Comunicado o fato ao PC norte-americano, seus padioleiros vieram busca-lo e a coruja parou de piar.

De La Torracia partimos para a ofensiva de Primavera, atravessamos o rio Panaro, entramos em Zocca, Giuglia e foi travado o combate de Collechio, onde o sangue alemão chegou a correr pela sarjeta, devido ao maciço bombardeio dos tanques que apoiavam a ofensiva. Quando a tropa brasileira e os tanques afloraram pela estrada, os alemães saíram das casas para ocuparem seus próprios tanques e foram mortos no caminho, crivados de estilhaços de balas de metralhadoras. Foram pegos de surpresa. Seguiu-se a batalha pela posse da região de Fornovo di Taro, que foi um dos maiores sucessos do 6° Regimento de Infantaria da FEB, recebendo a rendição de 15.000 alemães com todos os seus equipamentos. Isto ocorreu no dia 29 de abril de 1945. Ali a guerra acabou para nós brasileiros.

Depois fomos para o Vale do rio Pó, a 3ª Companhia ficou onde Voghera, de onde depois partiu para Francolise na região de Nápoles, porto em que se deu o embarque de retorno em 02/07/1945.

Em Voghera a Cia. recebeu de volta os seus prisioneiros, entre eles o Eliseu de Oliveira, o 2005 famoso. Vendo-o tão gordo não se acreditava que estivesse preso dos alemães, mas ele explicou que receberam tratamento, por um mês, sob rigoroso controle médico de comandos britânicos e americanos, onde a ordem era comer e beber. Disse que todo dia era obrigado a comer um frango inteiro, vários bifes, carnes concentradas, queijos, manteiga, doces, bolachas, etc.

É certo que aqui não contei tudo quando ocorreu na guerra, pois os combates foram muito mais do que os mencionados e a defensiva de inverno foi cheia de outras peripécias. Para contar tudo, seria necessário escrever um livro, mas este não é o caso.

Em Francolise os boatos eram aos milhares, todo mundo vivia com os nervos a flor da pele. O nervosismo fazia a turma fumar demais, mas os cigarros passaram a ser racionados, um maço a cada dois dias. A poeira era que nem trigo, não adiantava a gente tomar banho, porque um minuto depois o corpo já estava de novo sujo. Um dos boatos que corriam era de que iríamos para a frente japonesa, nós que estávamos exaustos por uma ano ininterrupto de guerra, sem nenhum descanso… No fim tudo era papo furado e viemos para o Brasil.

A viagem que se iniciou no dia 2 de julho de 1945, durou 16 dias, mais do que na vinda, que foi de 14 dias. No dia 18 estávamos no Rio de Janeiro. A baía de Guanabara estava repleta de embarcações todas embandeiradas e apitando em saudação ao nosso retorno, mas o desembarque demorou muito. Quando descemos recebemos um lanche e fomos desfilar na avenida Rio Branco, mas o povo se misturou com a tropa e, praticamente, não houve desfile. A tropa tinha de sair em São Cristóvão, onde os trens de subúrbio estavam a espera-la, mas acabou indo para a estação D. Pedro. A chegada que deveria ocorrer ás 15 horas na Vila Militar acabou acontecendo ás 18 horas e, para decepção geral, o 6° R.I. acabou sendo alojado nas baías de cavalaria da referida Vila. No dia seguinte, a maioria embarcou sem passagens para suas residências, retornando dias depois para embarcar rumo a S. Paulo onde a tropa composta de paulistas desfilou novamente, com o povo entrando pelo meio e levando os soldados nos ombros.

Em São Paulo a recepção foi outra e desmanchou a má impressão das cavalariças do Rio. Após o desfile fomos para o Pacaembu, onde, para cada pracinha, havia uma cama nova, com roupas novas, cobertores novos, toalhas novas, sabonetes, pastas de dentes, pentes e uma carta de saudação com versos da poesia de Guilherme de Almeida – a Canção dos Expedicionários. Lá no Ginásio do estádio, um restaurante servia a la carte e quanto mais esquisita a comida pedida mas alegria havia nos garçons. Na quadra de basquete, toda enfeitada, moças da sociedade dançavam com os pracinhas. Nas ruas, industriais e comerciantes pegavam os pracinhas, levavam para casa e lhes davam banquetes e presentes caros. No subsolo do viaduto do chá havia lanchonete e bailes, com comissão de recepção.

Depois de tudo acabado, houve as festas nas cidades de origem. Minha terra, a pequenina Moreira César, bairro de Pindamonhangaba, que sozinha deu onze expedicionários para a FEB, deu-nos uma festinha e se sentia orgulhosa pelo número de seus filhos, que assim faziam honra ao grande Cel. Moreira César, que motivara o nome do lugar, que foi um valente soldado que pereceu na guerra de Canudos.

Meus colegas de São Paulo, da Indústria Semper Idem, também me proporcionaram uma festinha no Clube da Polícia Militar, ali na avenida Celso Garcia, onde fui saudado pelo Padre Calazans, o mesmo que depois foi senador da República.

Em 1947 casei-me com a profª Noemia Tavares de Oliveira Cabral, de cujo consórcio nasceram meus filhos Fernando José Marcondes Cabral, Luiz Eduardo Marcondes Cabral, profª Marta Aparecida Marcondes Cabral, Rosa Cecília Marcondes Cabral, Geraldo Moacir Marcondes Cabral Jr. e Marlene Cristina Marcondes Cabral. Meus falecidos pais foram o sr. Otaviano Marcondes Cabral e dª Maria Olímpia Machado Cabral e nasci em Pindamonhangaba aos 10 de fevereiro de 1920.



[1] Jornal Valeparaibano. Especial – Vale do Paraíba. 27 de julho de 1979. Pg. 47,48.

SAIBA MAIS EM:

Memórias de um prisioneiro de guerra

Nota de Falecimento: Eliseu de Oliveira


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12 comentários

  1. Josué Severo /

    Parabéns, é uma grande iniciativa compartilhar conosco o conteúdo

  2. Luis Carlos /

    nem todas as cidades tem um núcleo de pesquisa

  3. Vinicius /

    acabei de baixar o TCC dele

  4. Douglas de Almeida Silva /

    Obrigado a todos pelas palavras de incentivo.

  5. Guilherme Rogerio Barbosa /

    Parabéns pelo trabalho!

  6. isalete leal /

    Parabéns pelo trabalho que ficará eternizado, mostrando como foi a luta desses brasileiros que lutaram pela Paz.

  7. Gabriela Lucchesi Cabral Lopes /

    Olá Douglas! Acabo de ler seu trabalho e confesso que fiquei emocionada ao ler o depoimento do meu avô, o Srº Geraldo Moacir Marcondes Cabral, que me contava as suas histórias da guerra, mas nunca com essa riqueza de detalhes. Me orgulho muito, não só do soldado que meu avô foi, mas de tudo o que ele representou pra São José e pra nossa família. Tenho fotos dele na guerra e unir as imagens, ainda que antigas e quase apagadas, á esse depoimento me fizeram reviver um tempo que não vivi. Obrigado por me proporcionar essa viagem ás minhas raízes. Gabriela

  8. OLA Douglas muito obrigado fiquei emocionada pelo seu depoimento ao meu Pai Geraldo Noacir marconde cabral morro em tte e gostari de ter mais contato com vc tenho fac que e marlene_tte@hotmail.com muito obrbrigado por dar esta alegria a toda minha Familia eu eminha familia desejo a vc que deus te abençoe

  9. Douglas de Almeida Silva /

    Gabriela e Maria Cristina.

    É motivo de grande alegria para qualquer pesquisador, vislumbrar os resultados de seu trabalho. Fico extremamente agradecido por terem feito esse contato. Vamos continuar conversando sobre o assunto.
    Abraços.

  10. carlos eduardo de lima cabral /

    Parabéns por resgatar à atualidade os feitos heróicos desses brasileiros que lutaram para que o mundo não fosse dominado pelos nazi-fascistas, permitindo o nascer de um mundo menos conflituoso e o despertar do respeito aos direitos humanos.

  11. Douglas de Almeida Silva /

    Carlos Eduardo

    É uma honra contar a história dos nossos heróis.

    Abraço.

  12. João Victor Rodrigues Martins /

    Oi Douglas! Eu faço parte de um projeto chamado Linhas do Vale (http://linhasdovale.com.br/), que procura resgatar a historia do Vale do Paraíba através da historia oral, e gostaria de saber se você tem acesso ao nome dos pracinhas que integram o trabalho do seu avô, ou dos pracinhas joseenses em geral. Qualquer informação já seria de grande ajuda! Muito obrigado pela atenção.

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