Correspondente entrevista autor de livro sobre amazônidas na FEB

PESQUISADORES PARAENSES PUBLICAM LIVRO SOBRE OS PRACINHAS DA AMAZÔNIA

Por André Viana*

Graças ao apoio de historiadores sérios e de pessoas que valorizam a história da Força Expedicionária Brasileira, a memória dos feitos dos pracinhas ainda pode ser encontrada. Porém, há ainda muitas informações a serem conhecidas e talvez um perfeito exemplo disso seja a história dos expedicionários vindos da região amazônica, uma história de fato pouco conhecida que agora conta com um preciso registro que constitui o Livro e o DVD “POR TERRA, CÉU e MAR – Histórias e memórias da Segunda Guerra Mundial na Amazônia” de autoria do Prof. Hilton P. Silva e equipe e publicado pela editora Paka-Tatu de Belém do Pará.

O livro trás importantes testemunhos dos pracinhas amazônidas e de suas experiências durante a guerra, além de trazer também registros pouco conhecidos do período como a história do Campo de Concentração de Tome-Açú para onde grande parte das famílias de imigrantes japonesas foram enviadas e permaneceram até o fim do conflito. Para conhecermos mais essa obra especial, tivemos a honra de entrevistar o Prof. Hilton Silva que nos falou sobre o livro.

P.FEB: Professor, poderia nos falar sobre qual foi o objetivo do livro, de onde surgiu o projeto e o que o senhor e os outros membro s de sua equipe descobriram?

Prof. Hilton: O livro é parte de um projeto maior que envolveu uma dissertação de mestrado voltada para a questão de saúde de populações octogenárias, no caso os ex-combatentes. A idéia surgiu em 2009 após vermos uma reportagem por ocasião do sete de setembro na qual os ex-combatentes locais diziam que não iriam mais desfilar no desfile de 2010, pois eles estavam se sentindo esgotados e desrespeitados e que por isso, não iriam mais desfilar.

Então nessa ocasião, eu fui com o Elton Souza que é dos co-autores que na ocasião estava em busca de um tema para sua dissertação de mestrado e ele é professor de educação física. Então conversamos sobre o tema e como ele também é um aficionado pela segunda guerra mundial, essa reportagem chamou muito a nossa atenção e com isso decidimos conversar com os pracinhas e tentar compreender o porquê deles não irem mais desfilar, se seria uma questão de saúde em função da idade ou se seriam outras questões sociais ou econômicas voltadas para aspectos antropológicos.
Assim começamos a ter nossos primeiros contatos com eles e demos andamento ao projeto que resultou na dissertação dele e ao livro que tem como objetivo o resgate da memória deles que surgiu por uma solicitação deles. Durante a pesquisa que resultou no livro durou cerca de dois anos, entrevistamos cerca de 20 ex-combatentes, nós percebemos que havia uma angustia muito grande por parte deles porque eles estavam sendo esquecidos, porque ninguém mais se lembrava deles.
Tem um relato muito emocional para mim, que é de um deles que me disse que quando eles desfilavam no caminhão, ele já ouvia as pessoas perguntando ou falando coisas como, quem são esses velhos, o que eles estão fazendo ai? O que eles têm haver com os militares? E isso os magoava muito.

Por isso este livro é parte de um esforço para trazer de volta ou pelo menos garantir a sobrevivência das falas deles, das perspectivas deles mesmo quando eles não estiverem mais aqui. Hoje a média de idade deles é de noventa e um anos. Então, a expectativa de vida deles daqui em diante infelizmente é muito pequena, então esse livro para mim, ele é para mim um tributo, uma homenagem a eles, a essa história que ainda precisava ser contada, nos fizemos um levantamento bastante exaustivo, pois não existia nenhuma documentação como essa, a partir das memórias deles copiladas em um volume só.

Existem alguns relatos isolados publicados por alguns ex-combatentes, mas particularmente sobre a participação de pessoas da Amazônia ou na região amazônica na segunda guerra, existe muito pouca coisa publicada ou divulgada, e nos achamos que seria importante fazer isso enquanto eles ainda estão aqui para poder perceber essa valorização e o respeito que pelo menos algumas pessoas têm a essa memória e a essa história.

P.FEB: O senhor nos falou que o livro surgiu a partir do interesse em saber como está a saúde da população octogenária. No que diz respeito aos pracinhas paraenses, como eles estão?

Prof. Hilton: Os ex-combatentes que conseguimos entrevistar, eles conseguiram superar uma série de barreiras e os que conseguem sobreviver até essa idade, são pessoas que tem uma resistência muito grande e geralmente estão bastante saudáveis em relação à média da população. Então, os que nós entrevistamos têm uma boa qualidade de vida, tem famílias estruturadas, tem uma boa renda e isso faz com que eles tenham a possibilidade então de persistir inclusive na sua memória, na sua capacidade de argumentação e assim por diante.

Infelizmente, o reconhecimento dos pracinhas só veio com a constituição de 1988 quando eles passaram a receber alguma compensação do estado. Então, a grande maioria deles morreu muito antes disso, abandonados a sua própria sorte, então o que o trabalho mostra, de forma particular o trabalho do Elton Sousa mostra e que será publicada em breve, é que os nossos hoje nonagenários estão com a mesma qualidade de vida que outras populações da mesma faixa etária de países desenvolvidos.

Então, dadas as condições adequadas, os brasileiros, os paraenses e os amazônidas podem ter a mesma qualidade de vida e a mesma longevidade que populações de países desenvolvidos . Então do ponto de vista da questão do envelhecimento, essa é a principal lição que fica, que a longevidade tem fundamentalmente haver com qualidade de vida e experiência de vida e quanto melhor for essa experiência, maior vai ser a longevidade.

O livro propriamente dito, ele parte de uma perspectiva antropológica que é basicamente dar às pessoas a oportunidade de contar a sua história. Então, nos fazemos um pouco de uma historiografia com base em uma análise etnográfica. E é basicamente estimular as pessoas, no caso os ex-combatentes, para que eles contassem sua história e a partir disso nos vamos encadeando a história a partir da perspectiva deles. Então, entrevistamos pessoas do exército, da marinha e da aeronáutica.

Inclusive pessoas que não foram combatentes, como é o caso do Sr. Hajime Yamada que foi interno do campo de concentração de Tome-Açú e que mantém a memória do município nesse período.

A história geralmente era construída a partir dos grandes heróis, dos generais, dos comandantes.

Então a nossa perspectiva é de que queremos ouvir a história a partir do soldado. De quem saiu daqui como a maioria deles sem saber para onde iam. Muitos saíram de municípios do interior como Bragança, Acará, Salinópolis e outros lugares, poucos ouviram falar do estrangeiro, alguns nem sabiam onde era a Itália e saem daqui para enfrentar um frio de menos 20° em um país com outra língua, contra um inimigo que não conheciam e assim por diante. Então a gente quis contar um pouco dessa história.

P.FEB: Para o senhor, qual a importância da publicação desse livro?

Prof. Hilton: Para mim e os demais membros da nossa equipe, nossos co-autores. É muito importante a publicação desse livro porque exatamente ele busca dar uma voz para esses combatentes que nunca haviam sido ouvidos antes. Eles não haviam contado às histórias que contaram para nós nem para os seus netos e nem para os seus filhos. Então até para a família deles toda essa história é uma surpresa, então o livro foi feito, apesar de com rigor acadêmico pela própria natureza do trabalho, mas ele é um livro muito voltado para o público em geral e particularmente para o público jovem.

O nosso objetivo, é que esse livro atinja os adolescentes, as pessoas que hoje vêem história do Brasil mas que desdenham da nossa própria história e que fundamentalmente desconhecem a nossa história regional. Particularmente, a nossa região amazônica é muito ignorada. Basicamente, quando se fala da participação da região na segunda guerra o que vem a mente são os soldados da borracha, porém a história como se pode ver no livro é bem mais extensa. E não pode ser esquecida.

P.FEB: De tudo que foi pesquisado, o que o senhor daria especial destaque?

Prof. Hilton: Bom, nos temos um conjunto de gravações em vídeo com eles que chegam a mais de dez horas de material que gostaríamos de ter apoio e pessoas interessadas em editar esse material e gostaríamos de transformá-lo em outros documentários. Uma parte desse material serviu para editarmos o DVD do livro, ambos foram feitos sem apoio externo, basicamente foi nossa própria iniciativa e nossos próprios recursos com exceção da Editora Paka-Tatu que apoiou a publicação do livro.

Em resumo, temos um valioso material que precisa ser aproveitado, há inclusive depoimentos que foram transcritos mas não entraram na edição final do livro, com o qual esperamos cumprir a missão a qual nos propusemos junto aos pracinhas, apesar de nosso projeto ser da área de antropologia e não da área de história. O que a gente espera com isso é cumprir a missão de deixar um registro e um resgate dessa memória.

P.FEB: Com todo esse trabalho realizado, com livro e DVD publicados, o que o senhor vislumbra para o futuro?

Prof. Hilton: Bom, nós estamos abertos a pessoas que estejam interessadas em continuar esse trabalho. O que eu tenho vontade e que estou tentando agora fazer, é que se consiga fazer uma tiragem maior e conseguir distribuir o livro nas escolas. O meu sonho é que o livro e o DVD pudessem ser distribuídos nas escolas ou pelo menos nas bibliotecas ou para os alunos. Sê se consegui-se fazer uma tiragem grande para reduzir os custos de maneira que as pessoas que vão ao desfile militar pelo menos uma parte delas, dos jovens pudessem chegar lá e reconhecessem naqueles idosos que passam no carro de abertura, pessoas que tem uma história importante para contar e que fazem parte um momento crucial na história do Brasil.

Eu queria muito que esse trabalho pudesse ser disseminado pelas redes de ensino público e privado de maneira que os amazônidas, sejam adulto, jovens ou crianças conhecessem um pouco mais sobre a sua história.

.

O livro Por Terra, Céu e Mar: História e Memórias da Segunda Guerra Mundial na Amazônia já está disponível para venda no site da Editora Paka-Tatu, pelo email: contato@paka-tatu.com.br, ou por telefone, ligando para (91) 3242-5403.

*Contato com o nosso correspondente: 

Jornalista André Viana

andremarquesviana78@gmail.com


COMPARTILHE ESSE ARTIGO!

Facebook Twitter Email Plusone



VEJA ALGUNS ARTIGOS QUE POSSAM LHE INTERESSAR!

Deixar um comentário

Weboy