Continência à Morte: Edição Comemorativa dos 70 anos do Dia da Vitória

Professor Jefferson Biajone*

Continência à Morte! Um título poderoso, expressivo, convidativo às maiores e profundas reflexões.

Foi assim, sob tais impressões, que em meados de julho de 2011, eu organizava o conteúdo hipertextual relativo à participação do 1° Tenente José Ribamar de Montello Furtado, ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira (FEB) e oficial reformado do Exército Brasileiro, em uma das páginas do então em vias de criação “Portal dos Ex-Combatentes de Itapetininga

De fato, foi no curso do levantamento de seus dados escritos no verso de sua fotografia da Galeria de Ex-Combatentes da FEB existente no Tiro de Guerra de nossa cidade (TG 02-076) que li, pela primeira vez, o título da obra que publicou em 1951, qual foi, Continência à Morte!

Recordo-me que este título me impressionou o bastante para que eu não mais o esquecesse nos anos seguintes.

De fato, três anos depois, quando da reinauguração do Monumento aos Pracinhas de Itapetininga, a 19 de julho de 2014, na sede do Tiro de Guerra, recordei-me do livro e indaguei ao amigo Afrânio Franco de Oliveira Mello se era do conhecimento dele a existência e o paradeiro de tal obra.

Para minha grata surpresa, Afrânio não só reconheceu a obra de imediato, como declarou ter sido amigo de José Ribamar de Montello Furtado e de sua família há anos, tendo deles recebido de presente um exemplar de Continência à Morte! para o acervo de sua biblioteca.

Outrossim, meses depois naquele mesmo ano de 2014, mais precisamente a 12 de novembro, Afrânio, Edmundo José Vasques Nogueira e eu lançamos pela Gráfica Regional nova edição do clássico Heroísmo Desconhecido de Edmundo Prestes Nogueira, esta comemorativa dos 90 anos da Revolução de 1924. A noite de autógrafos deste livro ocorreu na Câmara Municipal de Itapetininga tendo sido coroada por discursos e homenagens realizadas por autoridades e familiares ao seu saudoso autor falecido em 1994.

cobrafumandoQuando dessa solenidade, imaginei que poderíamos fazer publicar uma edição comemorativa também de Continência à Morte! A justificativa, muito providencial, colocava essa nova edição em uma situação toda favorável para a sua publicação: em 2015, o Dia da Vitória das Forças Aliadas na Segunda Guerra Mundial, comemorado desde 8 de maio de 1945 ao redor do mundo, completaria setenta anos.

E foram nessas circunstâncias muito fortuitas que concebida foi a ideia de trazer a lume para as gerações presentes e futuras do século XXI a obra poética de Continência à Morte!

E com ela o testemunho em versos de José Ribamar de Montello Furtado, um cidadão brasileiro, itapetiningano não de nascimento, mas de coração, que de fio a pavio participe foi do maior conflito armado do século anterior, a Segunda Grande Guerra Mundial.

E na leitura de seus versos, prenhes de idealismo, realismo e reflexão, percebe-se emergir o soldado patriota que não hesitou em tomar das armas e defender a Liberdade e a Democracia ameaçadas por regimes totalitários.

Foram esses mesmos ideais que nortearam trinta e um outros itapetininganos, que como José Ribamar, voluntariamente ingressaram na FEB para o desconhecido de toda uma odisseia de sacrifícios que o conflito armado em escala mundial haveria de lhes impor, fosse pela presença constante da morte nos combates, fosse a crescente incerteza se estariam vivos ou não nas horas seguintes.

De fato, esses trinta e dois itapetininganos, cujas fotos desde 1995 ilustram galeria de honra existente na sala de instrução de nosso Tiro de Guerra e, desde 2011, páginas hipertextuais no Portal dos Ex-Combatentes, foram, na sua maioria, jovens ao redor dos dezoito a vinte anos que integraram os três regimentos organizados pelo Exército
Brasileiro para compor a FEB em 1944.

contra capa

Com efeito, do 1° Regimento de Infantaria “Regimento Sampaio” da FEB, o 1° RI, pertenceram Argemiro de Toledo Filho, Benedito Ayres de Campos, Benedito Nunes da Costa, Domingos Barreira Sobrinho, Guiomar da Costa Pinto, José de Ribamar Montello Furtado, Joaquim Antonio de Oliveira, José Rolim de Oliveira, Luiz Folegatti, Manoel Evaristo de Moura, Nelson Barreiros, Nelson Medeiros e Pedro Gomes
de Oliveira.

Do 6° Regimento de Infantaria “Regimento Ipiranga” da FEB, o 6° RI, pertenceram Aniceto Vieira Branco, Benedito Bento Mariano, Davino da Costa Calhares, Higino Mendes de Andrade, José da Silva Reis, João Domingues, João Leonel de Medeiros, João Luizon, Luiz Braitt, Mario de Souza, Reinaldo Rolim e Sebastião Garcia.

E, por fim, do 11° Regimento de Infantaria “Ipiranga”, o 11° RI, pertenceram Amasilio Paulo de Campos, Benedito Morelli, Francisco Mathias de Campos, Honorio Negrisoli, Itaboraí Marcondes Machado, Joaquim Arcanjo de Carvalho, Leandro Paulino da Cruz, Miguel França e Victório Nalesso.

Todos esses itapetininganos, na sua grande parte prestando o Serviço Militar Inicial no 5° Batalhão de Caçadores, unidade sediada em prédio onde hoje se encontra a 2° Diretoria Regional do Departamento de Estradas de Rodagem (DER), saídos foram de Itapetininga para os escalões de embarque que seus respectivos regimentos tomaram com destino à Itália, entre os meses de julho a setembro de 1994, nos navios General Mann e General Meigs.

De fato, incorporados à FEB, grande unidade divisionária forte em 25.334 homens que nos meses de embarque cruzaram um oceano de dúvidas e incertezas em duas semanas que antecederiam sete meses e dezenove dias de campanha de guerra total contra o jugo nazifascista naquele país.

Uma campanha que inscreveu nos Anais da História Militar mundial o nome do Brasil em fortes matizes de abnegação, luta, sacrifício, desprendimento, coragem, bravura e heroísmo revelados em combates que nossos pracinhas empreenderam na libertação de Massarosa, Camaiore, Monte Prano, Monte Acuto, San Quirico d’Orcia, Gallicano, Barga, Monte Castello, La Serra, Castelnuovo, Soprassasso, Montese, Paravento, Zocca, Marano Sul Panaro, Collecchio e Fornovo di Taro. Combates esses em que tombaram em ação quatrocentos e cinquenta e quatro integrantes da FEB e cinco pilotos da Força Aérea Brasileira, além de duas mil mortes resultantes de ferimentos em combate, e de mais de doze mil baixas originadas por mutilação e/ou variadas outras causas incapacitantes, completando assim essa expressiva estatística da epopeia de sacrifícios que a campanha na Itália custou ao Brasil.

Dois de nossos trinta e dois pracinhas itapetininganos estiveram entre aqueles que tombaram em ação.

Foram eles, o soldado Joaquim Antonio de Oliveira, do 1° RI, a 29 de novembro de 1944, em combate ao 197° Regimento de Infantaria Alemão quando do segundo de três ataques empreendidos às posições inimigas fortemente alojadas no lendário Monte Castello.

E o soldado Sebastião Garcia, este do 6° RI, a 28 de abril de 1945, em combate ao 348° Regimento de Infantaria alemão na libertação de Collechio.

A morte de Sebastião Garcia foi provavelmente uma das últimas sofridas pela FEB, porquanto a 29 de abril de 1945, em Fornovo di Taro, toda a 148ª Divisão de Infantaria Alemã se rendeu aos brasileiros, perfazendo um total de 14.779 prisioneiros, 4.000 cavalos, mais de 1.500 viaturas, 80 canhões de diversos calibres e vasta quantidade de fuzis e munição.

Da extraordinária captura de toda uma divisão inimiga ao término da guerra passariam apenas mais algumas semanas, dado que a 6 de julho de 1945 embarcava com destino ao Brasil o 1° escalão dos agora ex-combatentes da FEB, a qual por fim dissolvida foi em 1° de janeiro de 1946.

Os anos que seguiram ao retorno de nossos pracinhas ao Brasil correram céleres. Associações de Ex-Combatentes como a de Itapetininga – esta em 1955 – foram fundadas em várias localidades no Brasil e, mais recentemente, com o advento da Internet e das redes sociais digitais, portais de resgate da odisseia expedicionária foram criados, a exemplo do Portal dos Ex- Combatentes de Itapetininga, a 28 de agosto de 2011.

Com o passar dos anos pós-guerra, foram-se também, um a um, os ex-integrantes itapetininganos da FEB do nosso convívio, prestando cada qual a sua derradeira continência à morte.

José Ribamar de Montello Furtado a prestou em 27 de maio de 1983, outros companheiros de FEB houve que o antecederam e o precederam.
Mais recentemente, outros dois o fizeram. Os pracinhas Amasilio Paulo de Campos, em 6 de outubro de 2013, aos 93 anos de idade, e Higino Mendes de Andrade, com a mesma idade, a 29 de junho de 2014.

Dos trinta e dois pracinhas itapetininganos que partiram para a Itália, Victório Nalesso (93 anos) e Argemiro de Toledo Filho (92 anos) são os dois remanescentes em vida e que conosco estão nas comemorações dos 70 anos do Dia da Vitória neste ano de 2015.

Victório e Argemiro são os herdeiros das tradições de seus camaradas combatentes da FEB. Dignos heróis de Itapetininga, a quem devemos nosso respeito, reconhecimento e todo elogio.

São a eles dois em vida e à memória de seus outros trinta companheiros falecidos que faço dessa nota de abertura de Continência à Morte: Edição Comemorativa dos 70 anos do Dia da Vitória, um preito de agradecimento e reconhecimento pelo que realizaram na defesa dos ideais da Liberdade e da Democracia num dos momentos mais decisivos da história de nosso Brasil e do mundo.

Que esta obra poética de José Ribamar de Montello Furtado e as fotos de todos os seus camaradas pracinhas que a ilustram possam permanecer os próximos setenta anos do Dia da Vitória no conhecimento e no imaginário das gerações presentes e futuras na imorredoura certeza de que no Brasil de ontem, hoje e sempre, o filho não foge à luta e nem teme a quem adora a própria morte.

Nesse sentido, contribuem abrindo caminho nesta edição comemorativa de Continência à Morte seis prefaciadores de escol, iniciados por Ana Paula de Ribamar Furtado Araújo Neves, neta de José de Ribamar Montello Furtado e representante de toda sua digna família; o 1° Tenente Edomar Wiedtheuper, delegado do Serviço Militar em Itapetininga nos anos de 2013 e 2014, representando o Exército Brasileiro; Afrânio Franco de Oliveira Mello,  amigo de décadas de José Ribamar de Montello Furtado e de sua família, vice presidente-fundador do Núcleo MMDC de Itapetininga, entre outros méritos; Padre Mário Donato Sampaio, nosso pároco mais expressivo e presidente da Academia Itapetiningana de Letras; o intrépido jornalista Helio Rubens de Arruda e Miranda, presidente do Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Itapetininga; Edmundo José Vasques Nogueira, jovem e dedicado jornalista, vice presidente do Portal dos Ex-Combatentes de Itapetininga, paladino da verdade como fora seu saudoso pai, Edmundo Prestes Nogueira e, por fim, o entusiasta Derek Destito Vertino, gestor do Portal FEB um dos maiores e mais expressivos portais de resgate e divulgação digital da saga Febiana na Segunda Guerra Mundial.

Abalizada por essa plêiade de colaboradores, não poderia Continência à Morte estar melhor apresentada e iniciada aos leitores do século XXI, aos quais esta obra, certamente nos seus versos mais incisivos, fará retumbar em seus corações sua energia e vibração, como o fez no meu, a certeza de que Unidos viveremos.

E quando a morte chegar espatifando a vida, unidos partiremos para o seio paternal de Deus, em busca do reino universal do Amor. E é nesse amor que José Ribamar de Montello Furtado soube tão bem nortear seus versos de guerra em Continência à Morte que reconheço o seu profundo e dedicado amor à Pátria Brasileira, o mesmo que o escritor e capitão da Guarda Nacional João Simões Lopes Neto (1865-1916), anos antes da Epopeia da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial, já soube tão bem definir e aquilatar seu significado e relevância para o Brasil de outrora, de hoje e sempre:

 

O homem morre, as gerações se sucedem, mas a Pátria fica, sobrevive e segue adiante, e mais e sempre, ancorada na saudade dos que a construíram e já tombaram e nas esperanças dos que nascem.

Nenhum povo pode ser grande sem esse sentimento. Nenhuma nação pode ser forte sem nele apoiar-se. E o amor a Pátria é o mais sólido elo da nacionalidade e o mais forte estímulo aos cidadãos.

Que o amor à Pátria se desenvolvia e se fortalecia com o conhecimento de seu passado e presente e com fé em seu futuro.
João Simões Lopes Neto

(1865 – 1916)

 

Os interessados poderão adquirir o livro enviando um e-mail para: jbiajone@gmail.com

(*) Jefferson Biajone é professor, historiador e membro da Academia Itapetiningana de Letras e do Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Itapetininga. Oficial da reserva do Exército Brasileiro, é membro colaborador da Delegacia da Federação das Academias de História Militar Terrestre do Brasil “Aluisio de Almeida” em Sorocaba e Região. É presidente fundador do Núcleo “Paulistas de Itapetininga! As Armas!!” da Sociedade Veteranos de 32 – MMDC e do Portal dos Ex-
Combatentes de Itapetininga.


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3 comentários

  1. Nicolau /

    Os criminosos “democratas” anglo-americanos trouxeram para nós na Europa do Leste o assassino comunista do seu aliado Stalin!

  2. Fico feliz em ver o nome de meu Bisavô aqui no site. Itaborai era o nome dele.

  3. Parabéns pela obra.

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