As Enfermeiras Brasileiras e o Serviço de Saúde da FEB

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“ Entre os hinos da raça entoados neste instante vibrantes da nossa história, em que o Corpo Expedicionário hasteia as bandeiras gloriosas da desafronta, rumo ao inimigo, lá em Berlim, onde ele se encastela no delírio do crime e no desvario do ódio, da destruição e do obscurantismo, ergue a mulher brasileira a voz da sua revolta e do seu patriotismo, na afirmação solene de marchar lado a lado aos soldados de Caxias, tal como Ana Nery  nas batalhas do passado.” Olímpia Camerino, 1944

O papel feminino nas guerras, tem sido admitido nos últimos tempos. Já trilhamos por momentos em que apenas as heroínas locais, mulheres guerreiras eram glorificadas e se tornaram lendas. Mas, por sorte, prevaleceram os registros indeléveis de suas participações nas histórias de batalhas sangrentas, sejam nas nações do leste como nos países ocidentais.

A partir da primeira Guerra Mundial, a situação da participação feminina é preponderante principalmente nas questões que envolviam o “esforço de guerra”, o voluntariado foi algo que aconteceu paulatinamente e percebeu-se o quanto seu papel era importante nestas funções. Já as mulheres do leste (eslavas) participaram diretamente da frente de batalha, ou em organizações clandestinas.

Na Segunda Guerra Mundial, o papel feminino é reconhecidamente valorizado em várias frentes do conflito. Nos Estados Unidos, França, Inglaterra, Japão e Alemanha, são as pilotas francesas e alemãs, mecânicas inglesas, no abastecimento, operarias, vão complementando um círculo importante de ações e os resultados altamente significativos no esforço de guerra.

Enfermeiras desfilando rio de janeiro em 1944

A princípio, as adesões até por voluntariado não foi algo aceito com naturalidade, mesmo nos Estados Unidos, com a vasta campanha publica encetada pelas mulheres e sua inserção nas forças armadas, esbarrava no Congresso Nacional.

No caso da Alemanha, a presença feminina, com a nova Wehrmacht, tinha apenas o papel de ativistas no partido nacional- socialista. A guerra relâmpago, não pretendia utilizar a força feminina no conflito.Com o caminhar desastroso da campanha do Eixo, ainda em 1944, surgiu o grupo de mulheres militares, que juntou força às motoristas e auxiliares da defesa aérea.

Mas foi no Serviço de Saúde durante as campanhas em que a mulher veio a se destacar. Na Inglaterra e nos Estados Unidos, são os locais onde as mulheres foram amparadas pelos Estatutos Militares, no esforço de guerra substituindo as religiosas. O grande momento foi a criação da Cruz Vermelha que envolveu todos os países beligerantes A Cruz Vermelha Internacional dava seus passos seguros em direção à assistência às vítimas de guerra, estendendo sua atuação em várias partes do mundo, um trabalho respeitadíssimo ainda em nossos dias.

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Nos preparativos do Brasil para guerra, diante de acertos e desacertos em relação à política interna ao governo de Getúlio Vargas, a criação da Força Expedicionária Brasileira em 1943 unida aos aliados, já era uma realidade. As expectativas estavam em torno não somente da preparação dos combatentes para a guerra, seu treinamento e disponibilidades, que levara quase um ano para se formalizar, mas também dos preparativos voltados para o Serviço e Saúde da FEB. Faltavam médicos, enfermeiros, convocados na última hora e seu embarque com a tropa para os campos da Itália, acabou ocorrendo durante o embarque dos 5 escalões que levavam os   25 mil homens combatentes.

Antes da 2 guerra mundial, o Exército Brasileiro não possuía um quadro formal de enfermeiras, a não ser no Hospital Militar do Rio de Janeiro que contava com pouquíssimas mulheres. Já havia a Escola de alto Padrão Ana Nery, mas sem nenhum entrosamento com o exército. Na urgência dos acontecimentos, o presidente Getúlio Vargas promulgou o decreto nº 6.097 que criou o Quadro de Enfermeiras da Reserva do Exército, quando estas foram integradas ao Serviço de Saúde da FEB.

O Serviço de Saúde da FEB foi composto de cerca de 1390 pessoas, dentre os quais 176 médicos de formação eclética, cirurgiões, anestesistas, ortopedistas e outras especialidades, muitos voluntários como Dr. Alípio Correia Neto, celebre em sua época. Além destes, farmacêuticos, padioleiros e as 67 enfermeiras oriundas de várias partes do Brasil, compondo o grupamento feminino da FEB e mais 6 delas nos quadros do Grupo da FAB.

Como éramos aliados aos Estados Unidos, na Itália, o Brasil vai atuar nas seções hospitalares anexadas aos hospitais norte-americanos. No desenrolar da guerra na Europa, aqui no Brasil as enfermeiras brasileiras receberam a convocação em 16 de agosto de 1944, muitas já haviam frequentado cursos preparatórios em suas cidades. Aqui no Paraná, pelos diários das enfermeiras Hilda Ribeiro e Guilhermina Gomes, mais as entrevistas de Virginia Leite e de outras depoentes, temos acesso às notícias dos acontecimentos locais e regionais.  Poucos sabem que os primeiros treinamentos foram feitos aqui no Paraná no Parque Barigui.

Enfermeira Virginia Leite na Italia

No dia 24 de agosto de 1944, as paranaenses (oito no total) embarcam na Estação Ferroviária de Curitiba, rumo ao Rio de Janeiro. Lá chegando, foram submetidas a treinamentos físicos organizados pelo Exército Brasileiro, na Escola de Educação Física. Um curso de emergência foi preparado para estas jovens, o estágio ocorreu nos hospitais e policlínicas militares, por meio de oficiais médicos. A ambientação militar, visou adaptá-las aos regulamentos militares.

A 19 de outubro deu-se a saída do Rio de Janeiro, os grupos já divididos, as primeiras jovens em número de 18, fizeram escala na Bahia, depois Recife e em Natal no Rio Grande do Norte, cumpriram os primeiros protocolos para o embarque ao exterior. No dia 31 de outubro, partiam as paranaenses e outras companheiras, rumo a África onde escalas foram feitas em diversos lugares como Dakar, Casablanca e Argel. Nestes locais tiveram os primeiros contatos com o mundo da guerra, línguas e costumes diferentes, marcaram profundamente suas reflexões.

Somente no dia 4 de novembro de 1944, o primeiro grupo de enfermeiras brasileiras chegou ao seu destino na cidade de Nápoles. Impressionadas pelo aspecto da cidade destruída, chamava a atenção a situação calamitosa da cidade, miséria e pobreza, povo desguarnecido de qualquer moral ou ética, impressionaram as jovens enfermeiras.

Aguardavam as brasileiras a indicação pelas autoridades norte-americanas em relação aos hospitais onde prestariam serviços. Os norte- americanos sabiam como deviam funcionar suas seções hospitalares, tudo era extremamente rigoroso e prático e funcionava como uma grande empresa. Eram 4 seções hospitalares, e cada qual exercia uma atividade especial, no caso temos o S1 ( lotação do pessoal)o S2 (  burocrática) o S3(  deslocamento das unidades e o S4 (  sanitário).

Os grupos hospitalares eram em número de cinco, formados por equipes medicas e cirúrgicas, brasileiros e norte-americanos formavam uma cadeia hospitalar. São eles: O Hospital de Campo, recebia os feridos mais graves e ficava na cidade de Valdibura, o Hospital de Evacuação, realiza cirurgias e atendimentos médicos, nas especialidades de oftalmologia, doenças infecto contagiosas entre outras. O Field Hospital recebia os feridos mais graves. O Evacuation funcionou em vários lugares, mas mais centrado na cidade de Pistóia ( com atuação prévia  em Pisa, Corvella e Marzabotto).Havia ainda outras unidades hospitalares, com o de Convalescentes  e os Hospitais de Retaguarda em Nápoles.

Além dessas seções e hospitais havia ainda um Posto Avançado de Neuropsiquiatria dos Grupos Hospitalares, sob o comando do médico brasileiro Mirandolino Caldas e o Serviço de Prótese Dentaria, visto a precariedade dentária da grande maioria dos jovens recrutas.

As enfermeiras brasileiras atuaram em grupos e hospitais diferentes, mas a grande concentração deu-se no 7ºStation na cidade de Livorno. Lá chegaram os que haviam sido atendidos em caráter emergencial e fariam o restante de tratamento nesta unidade hospitalar.

O cotidiano dos enfermeiros brasileiros, homens e mulheres seguiam os padrões norte- americanos. As barracas geralmente ocupavam um espaço coletivo, seja para refeições ou banhos, uma adaptação difícil para todos. No 7º Station, as enfermeiras ocupavam as barracas de lona, com piso de madeira para evitar o frio intenso entre os meses de dezembro de 1944 e janeiro e fevereiro de 1945. Havia luz elétrica, uma estufa para aquecimento a amenizar o sofrimento de exposição em campo aberto.

Adaptaram-se os uniformes no sentido de dar mais conforto a estas jovens, elas usaram calças compridas de lã com jaqueta no mesmo tecido, ou as famosas field jacket iguais dos homens. O trabalho diário com os doentes, ia desde aplicação de penicilina, uma novidade que salvou tantas vidas, ao emprego de medicamentos, a cura das suturas cirúrgicas e outros ferimentos. Tal rotina dizia respeito não somente ao tratamento dos soldados brasileiros, mas também dos soldados de outras nacionalidades e a população italiana que recorria à ajuda das brasileiras.

São muitos os depoimentos dos médicos brasileiros, que registrados em seus diários ou prontuários, ainda nos emocionam:

A zona de luta continua nos dias seguintes a nos enviar mais homens portadores de lesões graves e intransponíveis ao nosso trabalho, vai sendo continuado dia em oite, sem distinção, a cortar a remendar, em esforço permanente de praças, sargentos, enfermeiros, médicos, sem direito de descansar, apenas usando os intervalos para nos alimentarmos ás pressas, comida fria e fora de hora. Alípio Correia, dezembro de 1944.

Sobre os feridos brasileiros enviados para tratamento no exterior são poucos os documentos que se tem acesso, os testemunhos, sejam os doentes ou os participantes do Serviço de Saúde da FEB, escreveram muito pouco, talvez com receio de represálias. O Retorno dos combatentes nestas condições, ocorreu em diversas etapas, vindos de navio. Os que permaneceram nos E.U.A ( Hospital de La Garde em Nova Orleans), os mutilados em número superior a mil, a incógnita ainda é ainda maior, são poucas as referências e seu retorno ao Brasil e deu-se uma ano após a guerra.

Também o depoimento da capitã enfermeira Olímpia de Araújo Camerino que chefiou o grupamento de enfermeiras brasileiras no 7º Station em Livorno, nos dá uma ideia dos acontecimentos finais da guerra para as abnegadas enfermeiras do Brasil.

Encerrada a missão naquele hospital, assistimos o seu desmontar: camas amontoadas, colchões empilhados, aparelhos cirúrgicos agrupados, tudo espalhado pela área do Hospital. As enfermarias vazias e silenciosas. Ambiente de tudo havia acabado, o nosso acampamento deserto. As nossas barracas desmontadas. Era mesmo o fim. A recordação de tudo, a saudade do que vivi naquele Hospital muito me magoaram. Quando vivo em minha memória o grande cenário, no qual tanto lutávamos para salvar vidas e curar doentes.

Fazendo um balanço deste escrito sobe “As mulheres na guerra (1939-1945): As enfermeiras brasileiras e o Serviço de Saúde da FEB (1944-1945)”, finalizo este artigo, consciente de que não falei tudo, na verdade fiz um pequeno resgate do papel feminino durante a 2ª Guerra Mundial. Não tratamos aqui das donas de casa, que teimosamente viviam nas fronteiras da guerra, do que podia ser vivido e suas terras inseguras.

Ressaltamos aqui as mulheres em campanha, desacreditadas de início, mas mostrando competência, foram admiradas tanto pelo Eixo como pelos Aliados, atuaram nas mais diversas frentes, como pilotos, mecânicas, motoristas, operarias, na indústria bélica e outras especialidades, sejam elas italianas, japonesas, inglesas, alemãs, norte- americanas ou do leste europeu.

Também o mérito as nossa 67 enfermeiras da FEB, jovens que deixaram suas famílias, a zona de conforto de uma país que não vivenciou a guerra em seu território para ajudar no esforço de guerra. Foram lembradas pelos seus pacientes durante longas jornadas de pura emoção, aquelas sentidas por quem participou desses horrores. Jamais deveríamos esquecer dos sacrifícios e vigílias pelas quais elas passaram no bom desempenho de suas funções juntamente com as esquipes mistas, brasileiras e americanas.

Uma ode às enfermeiras da FEB.

Levastes no caminho de vossas mãos, na doçura de vossa presença na coragem de vossa cooperação, no devotamento do vosso patriotismo, os anseios de todas aquelas que não puderam seguir com eles, de todas essas que aqui ficaram, os olhos postos em vós, com reconhecimento e confiança, a alma posta em Deus, com a esperança da proteção e a certeza da vitória. Maria Eugenio Celso.

REFERÊNCIAS.

BERNARDES, Margarida Maria Rocha. O grupamento feminino de enfermagem do exército na FEB durante a 2ª Guerra Mundial. Dissertação de Mestrado, Rio de Janeiro: UERJ, 2003.

CAIRE, Raymond. A mulher militar- das origens aos nossos dias. Tradução de Joubert de Oliveira Brízida. Rio de Janeiro: Bibliex, 2002.

CAMERINO, Olímpia de Araújo. A Mulher Brasileira na 2ª Guerra Mundial. Rio de Janeiro:  Capemi Editora,1983.

FONSECA, Lygia. Contando Histórias. Pouso Alegre (M.G):Tipolitografia-Escola Profissional,1980,

GOMES, Guilhermina. Diário Manuscrito, Curitiba, 2002.

LEITE, Virginia. Entrevista concedida a Carmen Lúcia Rigoni, Curitiba:  2003.

PORTOCARRERO, Virginia. Apud, BERNARDES, Margarida, op cit.

RIGONI, Carmen Lucia. Anjos de Branco, o Serviço de Saúde da FEB na Itália salvando vidas (1944-1945). Curitiba: Editora Progressiva,2010.

Carmen Lúcia Rigoni.

IHGPR- Curitiba, 29 de setembro de 2017.


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