Anjos de Branco – 2º Tenente Enfermeira Zilda Nogueira Rodrigues

Algumas vezes precisamos suportar o insuportável.

Um breve relato extraído do livro “O último trem de Hiroshima”, de Charles R. Pelegrino, publicado pela editora Leya, páginas 128 e 129,  ilustra bem como um ser humano é capaz de resistir a condições extremas:

 Nancy Cantwell já havia passado pela primeira de várias mudanças de nome. Ela nasceu Namsum Koh, e como jovem enfermeira coreana levada a trabalhar num hospital militar japonês, sofrera menos que a maioria a arrogância racial dominante naqueles tempos; mesmo assim, sofrera um pouco. Os coreanos derrotados eram considerados uma casta inferior de escravos. O trabalho atribuído a Namsum era extenuante, mas ela impressionou uma enfermeira-chefe com sua disposição a trabalhar ainda mais duro ao dizer: “Porque eu certamente não morrerei de trabalhar”.

A enfermeira transferiu Namsun a um novo hospital nos subúrbios de Hiroshima e lhe deu um novo nome que soava japonês: Minami. O hospital estava rodeado de morros altos e de um parque fora convertido em fazenda. Durante os meses que antecederam o bombardeio, todos os carregamentos de comida foram suspensos e os militares ordenaram que o hospital tirasse seu sustento da terra da fazenda. Minami e os outros da equipe médica dobraram sua carga de trabalho e se tornaram agricultores e cuidadores de soldados feridos e infectados pela tuberculose.

Naqueles tempos de Segunda Guerra Mundial era comum que pessoas convivessem com situações que desafiavam os limites físicos e psicológicos. Felizmente, a carioca Zilda Nogueira Rodrigues não precisou dobrar sua carga de trabalho para plantar, mas o fez para atender a crescente e incessante demanda de feridos que chegava aos hospitais de campanha.

Neste cenário, Zilda descobriu que havia em si mais dos seus pais do que supunha. O casal Deocleciano Raymundo Rodrigues e Josepha Figueiredo Nogueira era acostumado a superar as adversidades com uma resignação e lucidez que impressionavam parentes, amigos e a filha.

O exemplo filial ajudou Zilda a subjugar os preconceitos; fortaleceu a decisão para escolha da profissão; encorajou o desejo de alistar-se e enrijeceu a pretensão para suportar as exigências do Curso de Emergência de Enfermeiras da Reserva do Exército (CEERE).

Zilda tinha uma maturidade que a fazia olhar a vida com menos ilusão; aceitar com menos resistências às situações que o acaso lhe apresentava, porém sem resignar-se; entender com mais consciência e querer com mais vontade. A carioca, do então Distrito Federal, quando foi nomeada Enfermeira 3ª Classe, pela Portaria nº 6944, leu o documento com o sentimento de alegria por mais uma conquista pessoal.

Convocada para o Teatro de Operações no front Italiano no dia 02 de agosto de 1944, fato documentado na Portaria nº 6.975, Zilda partiu junto com o 15º Grupo, em 29 de outubro de 1944, até Nápoles e via marítima até Livorno. Ela colocou na bagagem o atributo mais importante para executar da melhor maneira sua missão naquela guerra. Estava bem consigo mesmo, e isso era e é até hoje um requisito essencial para quem deseja a excelência em seu serviço.

Classificada em Clínica Médica nos hospitais de Nápoles e anestesista, em Livorno. Trabalhou nos seguintes Hospitais de Sangue Norte-Americanos:

– 45th General Hospital, em Nápoles;

– 185th General Hospital, em Nápoles;

– 300th General Hospital, em Nápoles;

– 7th Station Hospital, em Livorno;

– 16th Evacuation Hospital, em Pistóia.

Em cada um dos hospitais que serviu Zilda viu o inimaginável e suportou o insuportável.

Viktor Frankl escreveu uma frase que diz “Quem tem um “porquê” enfrenta qualquer “como”.

Teria um “porquê” mais nobre do que salvar uma vida. Pois era essa uma das motivações que conduzia as ações da Enfermeira.

De volta ao Brasil, em 7 de julho de 1945, quando recebeu a noticia de seu licenciamento, descrita na Portaria 8.553 de 14 de agosto de 1945, nossa heroína tinha a doce sensação do dever cumprido. A certeza dos relevantes serviços prestados veio com condecoração outorgada pelo Exército Brasileiro:

Medalha de Guerra e Medalha de Campanha

Talvez não soubesse, mas Zilda plantou um fruto agradável aos olhos e ao espírito das gerações futuras. Ela amava sua profissão e a colheita não poderia ser mais dignificante. Seu trabalho se perpetuou na continuidade da árvore genealógica dos diversos militares que ajudou salvar e curar.

Isso não tem preço.

E por isto a sociedade deu a ela o título de Heroína. 

Fonte de apoio e consulta:

VALADARES, Altamira Pereira. Álbum Biográfico das Febianas. Batatais – SP: Centro de Documentação Histórica do Brasil. 1976. 116p.

Colaborador: Vanderley Santos Vieira, é Jornalista, especialista em Comunicação, Oficial R2 (Infantaria) do Exército Brasileiro, Tecnólogo em Administração de Empresas, Escritor, Pós-graduado em Planejamento Estratégico e possui o Curso de Política e Estratégia da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra. Atualmente desempenha a função de Gerente em uma Multinacional, Voluntário da Defesa Civil de Campo Grande – MS e Sócio Especial da ANVFEB/MS.

Possui as seguintes honrarias: Medalhas: de Serviço Amazônico; Mérito da Força Expedicionária Brasileira; Marechal Machado Lopes; Medalha Cruz da Paz; Marechal Cordeiro de Farias; Mérito da Força Expedicionária Brasileira da Câmara dos Vereadores de Campo Grande – MS; Mérito Legislativo de Campo Grande e Mérito Rondon – Academia de Estudo de Assuntos Históricos – MS.


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