Anjos de Branco – 2º Tenente Enfermeira Nícia de Moraes Sampaio

Existem coisas que fazemos por interesse,

Outras, sem qualquer interesse.

Mas existem aquelas que fazemos com o coração,

e com a convicção de que fazer é a coisa certa.

 

– É uma bela formatura de despedida.

– Se não fossem elas, muitos teriam perecido.

– E olhe que tinha gente que achava que um grupo de apenas 73 enfermeiras não faria diferença aqui no front.

– Verdade. Conhece alguma?

– Quase todas.

– Alguma em especial.

– Todas são especiais. Corajosas, dinâmicas, dedicadas, dotadas de uma força de vontade exemplar. Foi uma honra servir com elas.

De repente o toque de atenção do corneteiro cala o diálogo dos dois oficiais médicos no palanque de formatura.

Impossível guardar tantas palavras ditas naquele dia.

Difícil segurar as lágrimas de uma dupla alegria pelo dever cumprido e pela certeza do reencontro com os entes amados que aguardavam ansiosamente o retorno das bravas heroínas da Força Expedicionária Brasileira.

Nícia de Moraes Sampaio era uma dessas mulheres que agiu com o coração.

Nascida no Distrito Federal à enfermeira aperfeiçoou seus conhecimentos no Curso de Voluntária Socorrista e no Curso de Emergência de Enfermeiras da Reserva do Exército (CEERE). Essa habilitação era o passe para Nomeação que veio por meio da Portaria nº 6.963, de 29 de julho de 1944.

Nascida no Distrito Federal, a filha de Ermidio Neves Sampaio e Antônia de Moraes Sampaio sabia muito bem o que queria da vida. A convicção de atuar na área de saúde era uma certeza que a conduziu naturalmente para as fileiras da Força Expedicionária Brasileira. Quando a esperada Portaria nº 6.975 foi publicada no dia 02 de agosto de 1944, trouxe em seu conteúdo uma importante informação que em resumo dizia:

 

“Faz saber que NICIA DE MORAES SAMPAIO, Enfermeira 3ª Classe, fica convocada e designada para compor o efetivo do Corpo de Saúde da Força Expedicionária Brasileira”.

 

Preparou-se.

Carregava consigo uma satisfação sem precedentes pela importante missão que iria cumprir no além mar. Sabia dos enormes riscos, entretanto, na despedida, manteve aquele olhar tranquilo e sereno que só as Enfermeiras têm. Algo mágico, e por mais que alguém tentasse dissuadi-la daquela ideia maluca, não teria como sustentar uma argumentação diante daquela expressão convicta de que estava fazendo a coisa certa.

Nicia partiu com o 15º Grupo no dia 29 de outubro de 1944 desembarcando na famosa cidade Italiana de Nápoles. Foi recebida e designada para servir no 7th Station Hospital, em Livorno. Arregaçou as mangas e cooperou da maneira que pode com a equipe para aliviar o sofrimento daqueles que ali chegavam à procura de cuidados para as suas feridas.

Um elogio coletivo proferido as enfermeiras da F.E.B. pelo Excelentíssimo General U.S.A. J. I. Martin, Chefe do Serviço de Saúde do 5º Exército, sintetiza a importância do trabalho realizado por Nícia e as demais enfermeiras:

“Com o término vitorioso da campanha Italiana. Desejo aproveitar esta oportunidade para me dirigir a vós. Meu coração está cheio de orgulho pelas vossas soberbas realizações. Durante 20 meses desta campanha de provações, encontrastes e magnificamente transpusestes toda sorte de obstáculos possíveis de tolherem os passos de um Serviço Médico Militar. Aparastes os homens da linha de frente com os mais firmes e infatigáveis esforços de admiração que dedica a vós, assim como a confiança que em vós eles depositam, tem sido gravadas, inúmeras vezes, nos anais militares desta guerra. Devido aos vossos feitos, a palavra ‘Saúde’ já se tornou uma insígnia de glória, o mais alto padrão de militares desprendidos de si mesmos e dotados de infinita devoção ao dever. Passados já através a prova crucial das batalhas, bem podeis e orgulhosamente vos chamar “Soldados da Saúde” tudo o que já sucedeu: Salermo, Nápoles, Casino, Anzio, Roma e a marcha para o Norte, a linha Gótica, tudo isso, afinal, foi um rico manancial de lições para todos vós do Serviço de Saúde. Naquelas batalhas, escrevestes um livro sobre assistência médica em campanha, um livro que já se tornou um guia para os nossos Exércitos através do mundo. Em dias sombrados pelos maiores perigos, nenhuma vez sequer, vacilastes no cumprimento de vossa missão. Conservar a potencia combativa do 5º Exército. Depois de grande infiltração, como enorme maré de indestrutível poder, através da “Terra prometida” do Vale do Pó, estais, afinal, usufruindo o agradável sabor de uma Vitória longamente disputada e, enfim, merecidamente conquistada como nenhuma outra em toda a história da arte bélica. Vossa missão como soldados da Saúde não cessará enquanto houver um soldado ferido ou doente a tratar. Agora, porém, vós podeis retomar vosso fôlego e tendes tempo para aquilatar o que sucedeu desde 9 de Setembro de 1943, quando a Saúde se incluía entre aquelas primeiras tropas americanas a pisarem o solo do Continente Europeu. É minha tarefa lembrar-vos os vossos próprios empreendimentos; a habilidade técnica e a devoção daqueles outros que salvaram incontável número de vidas e aliviaram os sofrimentos dos homens do 5º Exército; o sacrifício e a coragem daqueles de vós que tiveram a honrosa missão de acompanharem, na luta, os vossos camaradas; agora, também, nós podemos lembrar aqueles do Serviço de Saúde que caíram ao calor das batalhas e que doaram as suas vidas inteiramente, para que outros homens pudessem viver e continuasse a lutar. Estaremos sempre em débito com aqueles galantes e denodados homens e mulheres, cujo sacrifício foi a nossa constante inspiração. Como Chefe do Serviço de Saúde tem sido para mim um privilégio dirigir a vós no cumprimento de vossas tarefas. Nunca esquecerei: sentir-me-ei sempre tocado de humildade todas as vezes que recordar os vossos tremendos serviços prestados ao nosso País e aos seus ideais. Do fundo do meu coração, agradeço muito e muito a todos vós e, em qualquer parte a que vos conduza o futuro esteja convosco a boa fortuna  também convosco esteja a benção de Deus”.

Nicia regressou da Europa no dia 10 de junho de 1945 com o 4º Grupo, via aérea. Certamente lembrou-se de uma frase transcrita no elogio:

Vossa missão como soldados da Saúde não cessará enquanto houver um soldado ferido ou doente a tratar”.

Sendo desmobilizada da Força Expedicionária Brasileira, a enfermeira veterana sabia os conhecimentos adquiridos na guerra tinham que ser compartilhados. Retornou então a ativa como Enfermeira do Hospital Central do Exército e lá serviu até sua reforma.

Como lembrança material dos serviços prestados à gloriosa Força Expedicionária Brasileira Nicia de Moraes Sampaio, foi condecorada com a Medalha de Guerra e Medalha de Campanha e ainda, o Distintivo “Meritorium Service” concedida pelo Governo dos Estados Unidos da América.

Dessa bela história guardamos a seguinte lição: 

Existem coisas que fazemos por interesse, Outras, sem qualquer interesse.

Mas existem aquelas que fazemos com o coração,

e com a convicção de que fazer é a coisa certa.

 

Fonte de apoio e consulta:

VALADARES, Altamira Pereira. Álbum Biográfico das Febianas. Batatais – SP: Centro de Documentação Histórica do Brasil. 1976. 116p.

Colaborador:  Vanderley Santos Vieira, é Jornalista, especialista em Comunicação, Oficial R2 (Infantaria) do Exército Brasileiro, Tecnólogo em Administração de Empresas, Escritor, Pós-graduado em Planejamento Estratégico e possui o Curso de Política e Estratégia da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra. Atualmente desempenha a função de Gerente em uma Multinacional, Voluntário da Defesa Civil de Campo Grande – MS e Sócio Especial da ANVFEB/MS.

Possui as seguintes honrarias: Medalhas: de Serviço Amazônico; Mérito da Força Expedicionária Brasileira; Marechal Machado Lopes; Medalha Cruz da Paz; Marechal Cordeiro de Farias; Mérito da Força Expedicionária Brasileira da Câmara dos Vereadores de Campo Grande – MS; Mérito Legislativo de Campo Grande e Mérito Rondon – Academia de Estudo de Assuntos Históricos – MS.


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