Anjos de Branco – 2º Tenente Enfermeira Maria de Lourdes Mercês

O que a vida me ensinou!

Apesar de ser ainda muito jovem a vida me ensinou algumas coisas como:

– Dizer bom dia, boa tarde, boa noite, mesmo para pessoas que nunca vi antes;

– Calar-me para ouvir os mais velhos;

– Aprender com meus erros;

– Lutar para realizar meus projetos mesmo que para os outros não faça sentido;

– Ser solidário e ouvir a todos que precisam apenas desabafar;

– Tolerar e perdoar aqueles que tentam de alguma forma me frustrar;

– Sonhar. Isso ainda nos é permitido não importa a raça, religião ou condição social;

– Entender que o sentido da vida está na simplicidade das coisas;

– Não conter as lágrimas quando a dor ou a emoção as exigirem;

– Aproveitar o presente fazendo minhas próprias escolhas.

– Reconhecer e agradecer uma boa ação ou trabalho realizado;

– Compartilhar e servir ao próximo e outras lições.

Qual a fonte dessa sutil sabedoria?

Pais, amigos, professores, idosos e pessoas como a carioca MARIA DE LOURDES MERCÊS, que contagiava as pessoas com seu sorriso livre e sincero. Assim como o de uma criança.

Uma mulher marcante surpreendentemente humana que tinha o dom de escutar calmamente cada palavra de seus interlocutores. Ela não media esforços para colaborar com o próximo e talvez tenha sido esse o motivo que fundamentou a carreira profissional na área da Saúde.

Quando ouviu a notícia da guerra Maria não se importou em apontar culpados. Antes de agir ela desejou que o conflito acabasse e que os homens que definiam as estratégias dos combates fossem guiados pelos conceitos que representam a palavra civilização. Desejou que os instintos não superassem o desejo de paz. Infelizmente nem tudo o que se anseia se torna realidade.

Como a paz se recusava a dar o ar de sua graça, era preciso fazer algo. Tinha que ser alguma coisa ao seu alcance. Tinha que ser representativo. Tinha que ser diferente. Tinha que ter sinergia entre seus conceitos morais. Tinha que ser exemplar.

Não precisou de muita reflexão para chegar a uma resposta convincente. A filha do Sr. Alfredo Mercês e Maria Mercês decidira por se alistar e rapidamente transformou pensamento em ação.  Obteve referências que chancelara sua aptidão no Curso de Enfermagem Samaritana da Cruz Vermelha Brasileira e Curso de Emergência de Enfermeiras da Reserva do Exército (CEERE) – 1ª Turma – DF – 1ª Região Militar.

Foi nomeada Enfermeira 3a Classe, pela Portaria nº 6.292 (D.O. de 6.4.44) e convocada para o Teatro de Operações da Itália, através da Portaria nº 6.382 (DO 22.4.44). No dia em que partiu para o front, com o 14º Grupo, em 19.10.1944, lembrou-se de tudo o que vivera até ali. Recordou sua doce infância em Petrópolis. E idealizou o que faria para minimizar os danos da guerra quando chegasse no front.

No 16th Evacuation Hospital em Pistóia, Maria se deparou com dezenas de feridos e entendeu muito rapidamente que a continuação da guerra significaria mais derramamento de sangue, mais mortes, mais crueldade, mais mães chorando a perda de seus filhos, mais tristeza e mais destruição. Então o sorriso de seus lábios sumiu. Sentiu pena da intolerância dos homens e mais uma vez rogou pela paz.

Sentiu-se impotente por um instante. Era quase insuportável ver aqueles homens morrendo e sendo mutilados física e psicologicamente pela estupidez da guerra. Saiu do estado de reflexão por conta de um lamento de um ferido. Maria conteve as lágrimas, resgatou o sorriso das garras da tristeza e atendeu o paciente.

Durante aquele procedimento ela reencontrou suas forças. Maria agradeceu por estar respirando e em ótimas condições de saúde. Era exatamente este estado que lhe permitiria salvar, uma, duas e várias vidas. Então ela se entregou ao trabalho com tanta dedicação que negligenciou a própria saúde. Queria servir. Achava que o desconforto não passava de um simples mal estar passageiro. Essa postura custou-lhe três baixas ao hospital. Teimosa insistia em voltar para ação antes de se recuperar completamente. Por fim, para vencer a insistência, sua chefia decidiu por retirá-la do front e o caminho mais rápido seria via Estados Unidos.

À volta para casa se deu a bordo do Army Hospital Ship. Chegou ao Brasil em 8.7.45 onde foi internada no Hospital Central do Exército para recuperar sua saúde perdida momentaneamente por uma boa causa.

Sua carreira no Exército foi encerrada através da Portaria nº 8.078 (D.O. de 5.4.1945). Nossa heroína foi reformada no Posto de 1º Tenente e pela dedicação recebeu a Medalha de Campanha. Aqui encerramos a história de uma mulher que nunca conheci pessoalmente. Tudo o que sei sobre ela obtive através de leitura e relatos nos encontros de veteranos. Os relatos trouxeram lições já incluídas na relação conhecimentos subjetivos do inicio deste texto.

Maria, onde quer que estejas sinta-se abraçada e homenageada pela exemplar dedicação ao próximo e a vid e receba meus sinceros agradecimentos. 

Fonte de apoio e consulta:

VALADARES, Altamira Pereira. Álbum Biográfico das Febianas. Batatais – SP: Centro de Documentação Histórica do Brasil. 1976. 116p.


Colaborador: Vanderley Santos Vieira, é Jornalista, especialista em Comunicação, Oficial R2 (Infantaria) do Exército Brasileiro, Tecnólogo em Administração de Empresas, Escritor, Pós-graduado em Planejamento Estratégico e possui o Curso de Política e Estratégia da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra. Atualmente desempenha a função de Gerente em uma Multinacional, Voluntário da Defesa Civil de Campo Grande – MS e Sócio Especial da ANVFEB/MS.

Possui as seguintes honrarias: Medalhas: de Serviço Amazônico; Mérito da Força Expedicionária Brasileira; Marechal Machado Lopes; Medalha Cruz da Paz; Marechal Cordeiro de Farias; Mérito da Força Expedicionária Brasileira da Câmara dos Vereadores de Campo Grande – MS; Mérito Legislativo de Campo Grande e Mérito Rondon – Academia de Estudo de Assuntos Históricos – MS.



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