“A vida por um passo”

Veterano da Força Expedicionária Brasileira relata uma das piores noites de sua vida na 2ª Guerra

Veterano Américo Zeolla

Zeolla! Tenho uma péssima notícia para você.

Sussurrou o soldado esclarecedor interrompendo a progressão para o pico do Monte Castelo.

Quando Zeolla viu os olhos arregalados e o suor descer na testa de seu companheiro naquela fria noite na Itália, tentou ainda iludir-se perguntando o que suspeitava saber.

–          O que foi?

–          Acho que perdi….

–          Perdeu o que homem?

–          Perdi a faixa de segurança. Não a vejo.

Zeolla por um instante emudeceu. Naquele momento a última coisa que eles tinham a fazer era ficar ali parados a mercê dos alemães. Não podiam acender lanternas e nem gritar para não denunciar suas posições. Nem podiam continuar a progressão sem o auxílio da faixa que os guiavam sãos e salvos no terreno minado. No alto do morro uma divisão de inimigos alemães entricheirados aguardava pronta para contra atacar.

A situação não era nada agradável. Na escuridão da noite, ambos perderam-se do pelotão e estavam sem comunicação. Cada minuto parado aumentava a indecisão a certeza de um desfecho fatal.

Quando eles, ainda estáticos pensavam no que fazer, o indesejável aconteceu. Gritos sufocados por rajadas de metralhadoras, tiros de fuzis, pistolas e revolveres, salvas de canhões e morteiros. Era o início da temível confusão rotineira da guerra.

–    Abriguem-se! Abriguem-se! Fomos descobertos! Foram às últimas palavras proferidas por um soldado amigo antes de morrer. Na corrida negligente ele pisara inadvertidamente em uma das minas plantadas pelos alemães.

A menos de 10 metros, Zeolla se deu conta da força brutal de um daqueles conjuntos de mecanismos simples guardados dentro de uma latinha mostrados nas instruções do 6º Regimento de Infantaria.

Sem poder se mover, agacharam-se para evitar as balas zunindo sobre suas cabeças, no entanto, para os tiros de morteiros não havia proteção e cada explosão acontecia cada vez mais perto de onde estavam.

“É terrível a sensação de impotência, fragilidade e inutilidade. Estávamos na frigideira e tínhamos que decidir se pulávamos para o fogo”.  Lembrou o veterano.

Olhou para o companheiro deitado ao seu lado. Seus olhos refletiam o terror justificado pela insanidade dos fogos. Para não ser contaminado pelo desespero, Zeolla abaixou a cabeça e segurou forte o capacete de aço. Naquele instante parecia ser a única coisa capaz de resistir aquela feroz salva de tiros, mas, infelizmente, ele não cabia ali dentro.

Sem dó nem piedade

Após um longo período de intenso ataque o cessar fogo calou as armas, mas não conseguiu fazer o mesmo com os gemidos dos feridos. Zeolla e seu companheiro permaneceram impotentes ouvindo os pedidos de socorro de seus amigos. Continuavam impotentes sem poder se movimentar.

O que parecia ruim tornou-se pior e infelizmente o horror não havia cessado. Aos poucos os gemidos eram abafados por tiros seguidos de gargalhadas impiedosas. Um batalhão de alemães descia o morro para terminar o serviço que a artilharia começara.

Zeolla chamou o amigo e disse.

–          Temos que optar: as minas ou um tiro seguido de uma gargalhada nazista?

–          Não sei.

–          Pois eu prefiro arriscar.

–          Mas temos munição. Nossos fuzis estão carregados e ainda nos restam oito granadas!

–          Mas o que temos não é suficiente para derrotarmos um batalhão homem! Estamos sem abrigo! É suicídio ficar! Vou tentar voltar pelo mesmo caminho. Você vem?

–          Não, vou lutar até o último cartucho!

–          Pois que Deus esteja com você.

Antes de partir ouviu um pedido:

–          Zeolla! Se eu não aparecer amanhã na base, por favor, volte para buscar meu corpo.

Zeolla comentou que a canção do expedicionário retrataria bem o que passou no momento em que decidiu correr pelo campo minado: “Por mais terra que eu percorra, não permita Deus que eu morra, sem que eu volte para lá”.

Abraçou o amigo, desceu o morro correndo e no terceiro passo… Gritos e disparos. Zeolla sem olhar para trás continuou sua corrida kamikase. A cada passo sentia a morte murmurando extasiada em seu ouvido.

– Mina ou Tiro? Mina ou tiro?

Cada passo representava um segundo de vida. E assim seguiu até que os tiros e as vozes cessaram.

A sorte acompanha os audazes

Parou atrás de uma árvore exausto, sentou esbaforido e observou. Não fazia a menor ideia de quantos metros havia percorrido. Olhou para trás e observou viu alguém correndo em sua direção. Engatilhou sua arma, fez a pontaria e percebeu que seu provável perseguidor estava tão desesperado quanto ele.

Na escuridão não quis arriscar e deu o primeiro disparo. PUM!

Errou.

Fez nova pontaria e quando estava prestes a apertar o gatilho, ouviu:

–          Zeolla ! Zeolla! Pelo amor de Deus, Não atire!

Era o seu amigo.

– Caramba Zeolla… Não era um batalhão não… Acho que a divisão inteira desceu o morro para terminar o serviço… Eu sou corajoso, mas não sou trouxa, e nem tenho peito de aço.

– Agora eu entendo perfeitamente a expressão: “a sorte acompanha os audazes. Seja bem vindo parceiro!

Ambos caíram na risada e resolveram esperar a chegada do sol para continuar à caminhada em segurança. A sorte já havia feito o suficiente por uma noite. Quando amanheceu, ironicamente, perceberam que passaram o resto da noite ao lado da faixa de segurança.

61 anos depois do término do conflito os vestígios da guerra ainda permanecem em Zeolla.

– O clarão, a explosão, o grito de dor e a imagem do soldado sendo jogado para morte permanecem em minha memória. A batalha de Monte Castelo foi à prova de fogo e a mais árdua missão. Deus permitiu-me sair ileso e não foi por acaso. Precisei de 30 anos para aceitar e entender que naquele dia Américo Zeolla nasceu de novo”,  refletiu o Veterano.

Quando enfim caiu as defesas alemãs, o dia 21 de fevereiro transformou-se numa das datas mais importantes para Zeolla e os outros veteranos, pelo simples motivo de terem sobrevivido à batalha que mais vitimou brasileiros na 2ª Guerra Mundial. A Tomada de Monte Castelo consolidou o valor e transformou definitivamente em heróis os soldados brasileiros que ali lutaram, alguns tombaram, mas no final, venceram.

Colaborador:  Vanderley Santos Vieira, é Jornalista, especialista em Comunicação, Oficial R2 (Infantaria) do Exército Brasileiro, Tecnólogo em Administração de Empresas, Escritor, Pós-graduado em Planejamento Estratégico e possui o Curso de Política e Estratégia da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra. Atualmente desempenha a função de Gerente em uma Multinacional, Voluntário da Defesa Civil de Campo Grande – MS e Sócio Especial da ANVFEB/MS.

Possui as seguintes honrarias: Medalhas: de Serviço Amazônico; Mérito da Força Expedicionária Brasileira; Marechal Machado Lopes; Medalha Cruz da Paz; Marechal Cordeiro de Farias; Mérito da Força Expedicionária Brasileira da Câmara dos Vereadores de Campo Grande – MS Mérito Legislativo de Campo Grande e Mérito Rondon – Academia de Estudo de Assuntos Históricos – MS.

E-mail: vandsav@hotmail.com


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4 comentários

  1. Parabéns pelo artigo. Super detalhado :D

  2. Maria do Socorro Sampaio M. de Barros /

    Amigo Vanderley você tem o dom da escrita! É fácil sentir a ação dessa história pois a narrativa “entra” pelos sentidos tranquilamente.
    Estou feliz por vc estar colaborando nesse site. Bem vindo!
    Abraços socorrosmbarros@yahoo.com.br

  3. Jansen Nunes /

    Estou me formando em História e preciso entrar em contato com parentes de veteranos da FEB que serviram em Aquidauana-MS, sede do 9º BE. Meu trabalho será de contar as histórias pessoais baseadas em fotos, jornais, cartas ou qualquer outro documento, principamente dos falecidos e acidentados em combate. Grato!

  4. Que tal entrar em contato com o e-mail fornecido do colaborador ao final do artigo?

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