A atuação da FEB em Montese (Itália) e a Ofensiva da Primavera

A atuação da FEB em Montese (Itália) e a Ofensiva da Primavera*

(Abril de 1945)

 

A cidade de Montese, na Itália, está localizada nos contrafortes dos Apeninos, a 841 metros acima do nível do mar. É formada pela própria sede (em Montese) e por dez pequenos povoados ao seu redor: Maserno, Castellucio di Moscheda, Iola, Salto, San Martino, San Giacomo Maggiore, Montalto, Semelano, Montespecchio e Bertocchi. Todas essas localidades são pontos de referências dos brasileiros que combateram em Montese.

A capital, Modena, está localizada a 58 quilômetros de Bolonha. Para alcançar Montese o caminho é acidentado. Atualmente as estradas são asfaltadas, mas ainda há muita dificuldade para os veículos que sobem a serra, pois os caminhos são estreitos.

Os bosques de plantas silvestres foram recuperados após a Segunda Guerra Mundial. Hoje, encontramos algumas variedades como castanheiras e árvores chamadas quércias.

A história de Montese se perde um pouco no tempo, e um dos documentos mais antigos se reporta ao ano de 1197, quando a pequena cidade, por motivo de proteção, aliou-se à cidade de Modena, conforme documento firmado entre a população e seus vizinhos. Tal ato não envolvia os castelos vizinhos e os que moravam nos locais mais altos (rochas), isto é, os militares e homens armados; esses últimos eram isentos das taxas ou dízimos.

Para a pessoa que visita Montese na atualidade, chama a atenção os antigos casarios, e o mais preponderante desses é La Rocca (a rocha) com sua torre, local estratégico para as populações antigas e um marco nas construções medievais, onde os habitantes procuravam proteção. Em La Rocca foi construído um castelo por volta do século XIII, e até 1945 o lugar formava um conjunto arquitetônico, juntamente com o campanário e a igreja, mas, em grande parte, foram demolidos pelos bombardeios ocorridos em abril daquele ano.

Hoje, desse conjunto restam a igreja, que foi recuperada, e a torre. Do local, é possível descortinar o panorama em torno da cidade ‑ com seu visual nos reportando à Idade Média. As casas localizadas logo abaixo do morro, onde estão situados o castelo e a igreja, também não foram poupadas de serem devastadas pela guerra. A História Contemporânea da cidade é fortemente marcada pela Segunda Guerra Mundial, com toda sua tragédia ‑ com muitos mortos e feridos ‑ e pela sua destruição. A cidade foi alvo direto de bombardeios alemães e aliados.

A liberação de Montese está intimamente ligada à história da campanha efetuada naquela localidade pelos brasileiros, em abril de 1945. O episódio de liberação da cidade recebeu o nome de Ofensiva da Primavera. Para os brasileiros, até aquele momento a campanha apresentava um saldo positivo, e a tomada do Monte Castello, ocorrida no dia 21 de fevereiro, nas proximidades de Montese, colocava os soldados brasileiros numa posição de tropa veterana e ofensiva.

No dia 20 de março, o general Mascarenhas de Moraes compareceu à Conferência no quartel-general do IV Corpo, em Castelnuovo, onde foi discutido o novo plano de operações desse IV Corpo ‑ inserido nas manobras do XV Grupo de Exércitos. Era o início da Ofensiva da Primavera. O plano tinha estes objetivos: libertar a cidade de Bolonha, a travessia do Rio Pó e bloquear o Passo de Brenner (fronteira da Itália e Suíça e principal rota de retraimento do inimigo).

O comandante da FEB, gen. Mascarenhas de Moraes, participaria ainda de mais duas conferências na pequena cidade de Castelluccio, realizadas nos dias 27 de março e 8 de abril de 1945, quando foram esboçadas, em linhas gerais, as manobras a serem efetuadas pelo IV Corpo do Exército.

Aqui cabe ressaltar que essas manobras envolviam a 10.ª Divisão de Montanha americana, uma tropa de elite, cujo comandante era o gen. George Hays, a quem foi dada a missão de romper as linhas inimigas, em direção ao Monte della Spe-Tolè, num envolvimento direto com o maciço de Montese. Tal situação era preocupante, pois naquele momento não se dispunha de informações seguras sobre as reservas inimigas situadas nas proximidades.

Para atingir o eixo principal do ataque, de acordo com o esquema tático, a 10.ª de Montanha passaria pela cidade de Montese pelo flanco oeste. Esse era um setor desconhecido e sobre o qual não havia informações precisas. O comandante da divisão americana expôs a preocupação aos demais generais e, por sugestão do gen. Mascarenhas de Moraes, foi feita uma reorganização das divisões americana e brasileira, cabendo à tropa brasileira o ataque frontal à cidade de Montese, cobrindo, dessa forma, o caminho para a 10.ª de Montanha atingir seu objetivo.

Em suas memórias, o gen. Mascarenhas de Moraes retrata o fato, ao narrar seu diálogo com o comandante da 10. ª de Montanha:

 “General Hays: ‘Tem a Divisão Brasileira a certeza de tomar Montese?’

Gracejando, respondeu o general Mascarenhas:

‘Sim, tenho, mas quero também saber se o general Hays tem a certeza de aproveitar o sucesso brasileiro sobre Montese.’

Um movimento de aplausos da seleta assistência acolheu as palavras do nosso chefe divisionário, afirmando que a sua tropa estava em condições de conquistar Montese (liberando as unidades empenhadas sucessivamente nesse flanco para a ação principal de ruptura) e progredir na direção de Zocca-Vignola.” (MATTOS, Carlos de Meira. O Marechal Mascarenhas de Moraes e sua época).

Enquanto era desencadeada a ação conjunta contra os alemães que estavam dentro da cidade de Montese, o 14 de abril de 1945 assinalava uma data importante na história da guerra italiana. As forças do V e VIII Exércitos convergiram sobre Bolonha, e a guerra caminhava para o seu fim.

O 11.º Regimento de Infantaria Brasileiro, já na encosta de Montese ‑ principalmente na baixada do monte Montaurígola ‑, enfrenta uma jornada difícil, sob fortes bombardeios. Às 11:07 horas desse dia, uma patrulha de reconhecimento brasileira se encontrava detida por um campo minado, com a apresentação de muitas baixas.

Esse fato e tantos outros são lembrados pelos montesinos, no livro “Montese ‑ fascismo, guerra, ricostruzione”. Nessa obra, foram reunidas as pesquisas organizadas pelo grupo cultural Il Trebbo e publicadas em 1990, trabalho que consiste em uma fonte importante para a ordenação deste artigo, pois ali estão ordenados, de uma forma cronológica, os fatos ocorridos nessa cidade no período de 1943 a 1945, que diz respeito à participação brasileira na liberação da cidade. (BELLISI, PICCINELLI, MORSIENI et al. Montese – fascismo, guerra, ricostruzione).

Estão registradas nessa obra as diversas fases históricas da cidade. Reconstituída, ali, pela observação dos seus autores sobre essas fases, englobando a época do fascismo vivido pelos seus habitantes, a guerra e destruição e, por último, a reorganização da cidade na reconstrução.

Os depoimentos encontrados na comunidade nos ajudaram a reconstituir a história ligando brasileiros e montesinos. Ao recompor esses fatos ‑ os dos momentos marcados e vivenciados pela população civil e pelos soldados ‑, aproximamo-nos da materialização de dois monumentos que homenageiam os brasileiros como libertadores da cidade.

Os testemunhos dos sobreviventes italianos, de pessoas que não saíram de suas casas e delas fizeram abrigos, e o relato dos soldados brasileiros participantes das ações bélicas de Montese ‑ nas jornadas dos dias 12 a 17 de abril de 1945 ‑ conduzem a momento críticos e fragmentados de uma história. São narrativas que se completam e que recompõem episódios singulares que levam seus participantes ao não esquecimento.

O episódio ocorrido em Montaurígola ‑ o campo minado, que fez muitas vítimas brasileiras e italianas ‑ também é visto pelos memorialistas brasileiros. Reportamo-nos aqui à narrativa de um dos participantes da campanha de Montese:

Tomando conhecimento das pesadas baixas ocorridas naquele pelotão, o Dr.Yvon acompanhado d”o tenente Ary […] iniciaram uma longa e perigosa caminhada cortada de campos minados e varrida incessantemente pelo fogo alemão, até alcançar estreita e rala ravina entre Montaurígola e as faldas de Montese, quando foram também detidos por fortes rajadas de “lurdinhas”, morteiros e artilharia. (ALMEIDA, Adhemar Rivermar de. Montese ‑ Marco glorioso de uma trajetória).

Às 18 horas do dia 14 de abril, a cidade de Montese estava em poder dos brasileiros. E os correspondentes brasileiros que estavam nas proximidades acompanharam os grupamentos brasileiros, que faziam o reconhecimento no interior da cidade ‑ casa por casa ‑ e organizavam os prisioneiros, que se entregavam.

Escreve Joel Silveira, correspondente brasileiro de O Globo:

Para os brasileiros a vitória é ainda incerta. Os nazistas, esparsos pelos morros aos redores, despejam sobre a cidade, minuto após minuto, uma chuva de morteiros… Há quatro dias que a cidade está em mãos dos brasileiros, mas ainda é um longo tempo sem paz. As ruas estão desertas. Ontem, um morteiro alemão derrubou mais uma parede da torre. Uma bomba incendiária acertou o posto de socorro brasileiro, que ainda queima… (BELLISI, PICCINELLI, MORSIENI et al. op. cit.).

Montese foi a cidade da província de Modena a mais devastada na Segunda Guerra Mundial. As estatísticas levantadas logo após a liberação da cidade pelos brasileiros mostram que foram destruídas 1.121 casas; os feridos e mutilados por estilhaços e minas superaram o número de 700 pessoas; e os mortos, entre homens, mulheres e crianças, passaram de 189.

Como outros tantos pequenos povoados italianos, Montese sofreu diretamente as ações agressivas causadas pela guerra, que culminaram em destruição e mortes na sua pequena população. E agora tem procurado rememorar essas ocorrências de diversas formas. Não são apenas os eventos comemorativos de caráter cívico, mas vai além. Trata-se de um trabalho conjunto com a administração da cidade, na qual são desenvolvidos projetos culturais intimamente ligados aos acontecimentos do passado.

Um dos projetos organizados recentemente diz respeito à sinalização da cidade quanto ao seu itinerário histórico. Esse roteiro conduz o turista pelos prédios antigos da cidade, chamando a atenção para o complexo formado pelo castelo e sua torre, todos da época medieval.

As igrejas históricas e os pequenos oratórios destacados são parte da rede de caminhos denominados de “singulares residências” ‑ segundo Luciano Mazza, antigo prefeito de Montese. Ao referir-se a essas construções os descreve como testemunhos de uma riqueza histórica, da espiritualidade e da fé religiosa entre outras, que se associam aos eventos legados por uma tradição cultural.

Mas o passado da guerra traz marcas profundas para a cidade e além dela. São os pequenos burgos que compõem o quadro referencial das batalhas ali ocorridas, com todos distando a poucos quilômetros do centro de Montese. Esses são os caminhos que interessaram também a esta pesquisa.

As marcas que assinalam o passado histórico da cidade estão registradas na Montese Carte dei Sentiere, ou melhor, no mapa dos caminhos. O guia turístico chama a atenção do visitante que chega, pois o slogan diz: Montese, un territorio da conoscere. Segundo o roteiro, ali estão os indicativos de que os passeios podem ser feitos a pé, a cavalo ou de bicicleta.

Os sentieri, ou caminhos, contêm os itinerários históricos naturais e didáticos. A Linha Gótica é o roteiro didático histórico, que compreende as localidades de Montello, Maserno, Riva de Biscia (lugar onde tombou Max Wolff Filho) e Montespecchio. Todas essas localidades estão ligadas aos combates ocorridos ali com a presença dos brasileiros, sempre lembrados.

As trilhas são numeradas, tanto na carta como nos caminhos, através de placas indicativas, orientando os caminhantes.

O itinerário histórico não diz respeito apenas a Montese. Lá encontramos também o Itinerário diddatico della memoria, que compreende a localidade da serra de Ronchidoso, onde estão situados a centenária Igreja dos Imigrantes, o Monte Castello e Belvedere, relacionados à história da Segunda Guerra Mundial ‑  sempre com a presença de soldados americanos e brasileiros.

Outro roteiro importante para a cidade e seus visitantes recebe o nome de “Itinerário diddático della Linea Gotica”; a direção é Montello. Chegando a esse local, um grande cartaz orienta para o percurso que pode ser percorrido em 1 hora de caminhada a pé por um trecho de 2,5 quilômetros, onde é possível ver as posições alemãs, que ainda se encontram juntas à cinta de pedra que protegia a cidade na época medieval.

Montello está ligada à memória brasileira e ela é lembrada também no circuito histórico da Linha Gótica, pelo grande letreiro colocado no início da trilha, e demonstra o grau de dificuldade enfrentada pela FEB nos dias que seguiram à tomada de Montese. (Extraído da dissertação “La Forza di Spedizione Brasiliana’ (FEB): Memória e História”: Marco da Monumentalística Italiana”).RIGONI, Carmen Lúcia, UFPR.2003

Fatos e lugares a demarcar um tempo para não ser  esquecido jamais, histórias vibrantes dos combatentes brasileiros, um dia jovens, saindo de sua pátria para defender as liberdades.

Carmen Lúcia Rigoni é doutora em História Cultural.

Pertence-AHIMTB e IHGPR

Abril de 2013.

Curitiba- Paraná



* Artigo publicado no Boletim  do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná( 2003) e no Jornal da ASMIR( Associação dos Militares da Reserva.)


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7 comentários

  1. Rui Nascimento /

    O brasileiro tem uma memória cívica muito deficiente. O caso da FEB na tomada de Montese, em plena Ofensiva da Primavera deveria estar nos compêndios de História do Brasil, não apenas como uma referência (como em alguns)mas deveria ter um registro mais extenso mostrando o valor do soldado, do homem brasileiro. FEB tão desacreditada de início, até pejorativamente tratada, foi um importante aliado para o 5º Exérceito americano abrindo caminho, em Montese, para os americanos descerem para Módena e apressar o fim do conflito. Gloria aos nossos patrícios, herois anônimos de uma guerra cruel.

  2. shambruno /

    lindo texto perfeito e sobre a morte do ary rauer no sul de montese durante ao ataque frontal a cidade merece de se transformar em um filme de cinema ele passou o mesmo sufoco que os aliados em omaha beach no desembarque na normandia o primeiro pelotao chorou no campo minado o ary foi levar um medico com o segundo pelotao e tambem caiu tudin sob fogo de lourdes e artilharia e morteiros o fronte italiano foi muito horrivel para a infantaria tankes naum subiam o morro era bombardeio aereo e artilharia

  3. Texto excelente. Informativo e rico em detalhes.
    Gostaria de aproveitar esse canal para pedir licença para uso da imagem acima. Escrevi um conto, inspirado nesse episódio da liberação de Montese. Trata-se de um pequeno conto, que será publicado na plataforma Wattpad, e gostaria de usar essa imagem como capa do conto. Imagino que não haja restrição, mas gostaria da anuência desse Portal.
    Obrigada,

  4. Edison Barbieri /

    Os soldados da FEB foram e vão sempre ser verdadeiros Heróis que o Brasil deveria sempre homenagear como exemplo de conduta, superação e bravura

  5. Alcir Tabone /

    Todos os anos, as crianças de Montese se reúnem em uma praça e cantam o hino da FEB em português, homenageando, assim, os “pracinhas brasiliani” que libertaram a região do jugo nazista.
    Estive presente em uma dessas homenagens.
    Tenho dupla nacionalidade: sou brasileiro e sou italiano.
    Fui cumprimentado por muita gente, inclusive pelo “sindaco” ( prefeito ).
    Foi verdadeiramente emocionante.

  6. Edilene Barbosa /

    Eu não sabia desse ato heróico dos valentes brasileiros,o que é uma pena, deveria sim ser ensinado nas escolas de forma abrangente. Estou orgulhosa de todos eles.

  7. carlosfantini /

    Meu avô (Expedicionário Ricardo Fantini) participou da tomada de Monte Castelo, conseguiu sobreviver e formar família no Brasil.

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