70 anos da conquista de Monte Castello na Itália – Os traços de Mary Vieira

Mary Vieira, a sensível artista brasileira na concretização do Monumento Liberazione

Por Carmen Lúcia Rigoni
Doutora em História Cultural, membro do IHGPR e AHIMTB.

Prólogo

O objetivo deste texto é recordar não somente os 70 anos da participação brasileira na 2ª Guerra Mundial, vai além, é recordar também a trajetória de Mary Vieira, artista plástica brasileira, na busca da realização da sua homenagem maior aos combatentes brasileiros ao projetar o grande monumento Liberazione, localizado no Monte Castello na Itália. A pesquisa e os dados relatados neste texto estão contidos em meu acervo particular desde 1995, muitos desses documentos me foram repassados pela própria Mary Vieira, em confiança, tais como: álbum de fotografias com suas obras, jornais italianos, releases de entrevistas concedidas no Brasil e na Itália que retratam a artista que nós brasileiros pouco conhecemos, mas de grande expressão internacional. Meu primeiro contato com a notícia da intenção de Mary Vieira e seu projeto de construir o Monumento Liberazione em Monte Castello foi por intermédio de uma entrevista estampada na Folha de São Paulo em 1995. Diante de tantas dificuldades burocráticas, seja no Brasil ou na Itália, assumi o compromisso de ajudá-la, o que foi feito diversas vezes entrando em contato com o Ministério da Cultura, por meio do Gabinete do Ministro e Assessoria Internacional, onde foi preponderante a pessoa do embaixador Wladimir Murtinho.

Quando as negociações entre Brasil e Itália se arrastavam, Mary Vieira solicitou a divulgação do seu trabalho no Brasil, pedido que levamos adiante ao promover uma exposição de fotos e do projeto da artista no Aeroporto internacional Afonso Pena e ao manter a correspondência contínua, acompanhar os despachos, seguir a tramitação da legislação pendente por mais de dois anos e muitas conversas telefônicas com Mary Vieira em Milão, local onde preferiu residir até os seus últimos dias. Faz-se necessária a divulgação deste texto, para que a memória de Mary Vieira seja lembrada pelos seus compatriotas, como um preito de admiração e amizade que nos uniu até a sua morte.

Em 1976, quando o geólogo italiano Claudio Avanzato, durante uma pesquisa a 60 quilômetros de Bolonha, ao nordeste da Itália – em busca de construções antigas ao redor do Monte Castello –, lançou luzes sobre um território tão caro aos brasileiros que lá combateram nos idos de 1944-1945.

monumento
Monumento Liberazione ao fundo Monte Castello, localizado na cidade de Gaggio Montano (BO – Itália).

Sem uma preocupação histórica, o geólogo fez um levantamento topográfico no local e organizou um mapa revelador com projeção pictográfica que mostravam no morro as ruínas de uma antiga cidade. No período medieval, a Itália ainda não era unida territorialmente, como um país, mas constituindo uma série de propriedades pertencentes aos senhores feudais, que as defendiam de toda a sorte de invasões. As cidadelas, construídas nos altos dos morros possuíam um muro alto, verdadeiramente um contraforte, onde as sentinelas avistavam ao longe qualquer sinal de perigo. Era a lei do mais forte, e o mando estava a cargo de um senhor, temido pelos vizinhos. Já existia o chamado pedágio para atravessar suas terras. Nesse aspecto, as disputas e, consequentemente, as guerras eram constantes.

A cidadela recebeu o nome de Castello Leone, e os primeiros dados da sua existência remontam a 1227, sendo demarcado inúmeras vezes por períodos de guerra e de paz. No alto do morro, a cidade, como outra qualquer, possuía uma pracinha com uma igreja no centro, aposentos para os habitantes que a defendiam – sejam para os soldados bem como as cavalariças.

O chefe era o podestá, que ditava as leis e os costumes, cobrava taxas dos que habitavam ao redor do Castello e ainda exercia o papel de militar, civil e judiciário. A população era escassa e habitava nas cercanias.

Hoje, dessa construção resta pouco, são partes de um muro de pedra com 1,90 m de altura, fragmentos um pouco menores e uma pia batismal encontrada no pós-guerra.
Nesse mesmo local, os aliados durante a 2ª Guerra Mundial, dentre os quais os brasileiros, vivenciaram momentos angustiantes, depois de várias tentativas de assaltos à tropa alemã, que estrategicamente ocupava o seu alto. Ponto vulnerável na campanha, pois ali perto estava a estrada Porretana 64, o maior entroncamento de estradas no período da guerra ao norte. Quem se apoderasse desse trecho, provavelmente exerceria um papel preponderante no local, e a guerra poderia ter outro destino. Eis o porquê da luta tão renhida e dos sofrimentos dos que lá combateram.

monte castello
Entorno do Monte Castello, vista parcial da cidade de Gaggio Montano (BO- Itália), 2006.

Muitos monumentos foram criados pelas comunes italianas em homenagem aos brasileiros no pós-guerra, mas nada se iguala ao Monumento Liberazione, situado em frente do Monte Castello, projeto original da artista Mary Vieira, cujo nome está no esquecimento.

Além de artista, foi professora e nasceu em São Paulo. Descendente de tradicional família paulistana, muito jovem ainda frequentou os cursos de desenho e pintura na Escola de Belas Artes no parque municipal de Belo Horizonte; seu professor foi Alberto da Veiga Guignard, um artista conhecido em Minas Gerais. Nas palavras da autora:

“Com entusiasmo fiz boas aquarelas, ótimos desenhos em diversas técnicas, mas nada diminuiu o meu interesse pelo espaço, pelas formas tridimensionais”.

Pela explicação de Mary Vieira, ela teria ingressado na Escola de Belas Artes em 1942. Nos anos subsequentes, entre 1942 e 1948, produziu seus primeiros trabalhos plásticos denominados “monovolumes”. Em Minas Gerais, organizou seus atelieres em Araxá, Poços de Caldas. Mais tarde em Petrópolis e Salvador, onde trabalhou seus primeiros “multivolumes” e “polivolumes”. Alvo da crítica internacional, quando a tendência eram as formas estáticas e unívocas, a arte internacional se rende a Mary Vieira e aos seus polivolumes, como um momento basilar, uma tendência cinevisualista na América Latina (1944).

Liberazione
O Liberazione com suas linhas arquitetônicas  modernas, projetado por Mary Vieira em 1996.  

À procura de aperfeiçoamento, Mary transferiu-se para a Suíça em 1952. Desconhecendo o idioma alemão, ela se aproveitou dessa ausência de comunicação para forçar uma concentração e interiorização de suas ideias. Trabalhou com o ensino na Escola Superior de Arte e Técnicas da Gráfica e Desenho Industrial na cidade de Basileia, com uma experiência nessa área por mais de 24 anos.

São dezenas as suas obras públicas no Brasil, uma das mais conhecidas é o monovolume Liberdade, projetado na praça central de Belo Horizonte. Da construção desse monumento, acreditamos, Mary Vieira tenha tirado inspiração, dada a similaridade desse trabalho, na interpretação da autora, com o monumento Liberazione, projetado para a Itália.

Outra  obra de envergadura encontra-se no saguão de honra no Palácio Itamarati, em Brasília. Em São Paulo, outro monumento, localizado no Ibirapuera, é o polivolume que homenageia o diplomata Pedro de Toledo.

No exterior, Mary Vieira frequentou um círculo de amizades de grande expressividade cultural, formado por artistas, pintores, escultores, escritores e poetas. Um grupo europeu que marcou época no mundo das artes, por esse convívio recebeu vários prêmios internacionais, conferidos pelos governos da França, Grécia e Itália.

Mas qual foi a ligação de Mary Vieira com o Monte Castello e o seu monumento Liberazione? Em 1995, quando esteve em São Paulo para uma visita ao país, ela teria manifestado seu desejo de construir um monumento aos brasileiros que haviam lutado na 2ª Guerra Mundial. Tal informe apareceu depois em uma entrevista dada aos jornais de Milão por meio de uma entrevista.

Entre a criação e a execução da obra, a artista vinha trabalhando a ideia desde 1993. O momento era propício, pois em 1995 se festejaria o cinquentenário do término da 2ª Guerra Mundial. Tal pensamento a levou a apresentar o projeto aos dois governos: o brasileiro e o italiano.

topografia
Vista aérea da região do Monte Castello e seu entorno, destacando a topografia local.

A obra, em mármore branco de Carrara e granito preto brasileiro, seria edificada no convale do Monte Castello, na região mais conhecida como Guanella, na pequena comuna de Gaggio Montano. Em 1996, a artista dá entrada ao projeto na Prefeitura de Gaggio Montano, que, devidamente registrado, recebeu a assinatura do sindaco. Tratava-se da planta do monumento, em diferentes perspectivas. Nesse documento é citado o nome do comendador e advogado Francesco Berti, proprietário das terras, que quando jovem, como partigiano durante a guerra, ajudou a libertar a cidade de Gaggio Montano, e, pelo convívio com os soldados brasileiros na época, tornou-se grande admirador do Brasil.

Os entraves foram muitos entre o desejo de construir o monumento, conseguir a doação do terreno, ter a aprovação das autoridades brasileiras, e tornaram a caminhada difícil. No processo de construção do monumento, a pessoa de Berti foi preponderante, pois este conviveu com a guerra praticamente às portas de sua casa, pois o Monte Castello está localizado a poucos metros dali, onde ele nasceu.

guanella

Carmen Lúcia, o cap. Renato Eicoff e o veterano José Leski, diante da Casa Guanella (parte de uma fortificação séc. XII que serviu de localização e partida para várias tentativas de assalto a Monte Castello). Pertence hoje ao comendador Francesco Berti.

Somente em 1998 foi resolvida a questão da doação definitiva do terreno da família Berti aos brasileiros. No comunicado à imprensa, a Embaixada em Roma assim se manifestou: “Para o Brasil o ato de aceitação da cessão de espaço onde surgirá a prestigiosa obra plástica, foi firmado pelo embaixador do Brasil em Roma, Paulo Pires, na presença dos adidos militares brasileiros, das autoridades e personalidades da arte e da cultura brasileiras e italianas”.

O lançamento da pedra fundamental ocorreu no dia 21 de fevereiro de 1999, com a presença do ministro da Cultura brasileiro Francisco Weffort e o prefeito Roberto Melosi, de Gaggio Montano, com a presença de Mary Vieira, que discursou em italiano:

“Neste gélido fevereiro de 1999, a pedra fundamental do “Monumento Liberazione: monovolume a ritmo aberto”, que projetei em 1994, hoje inicia a laboriosa construção. Curvam-se os céus do território de Monte Castello, onde os pracinhas venceram uma épica batalha na 2ª Guerra Mundial. Honra aos heróis. Glória aos conquistadores do Monte Castello, sob a luz de um monumento da liberdade estrutural, que tenho a honra de escrever neste espaço excepcional evento, na tensão mínima do recordo historicizado”.

Na época, o Ministério da Cultura assumiu o projeto que seria financiado pela Lei Rouanet e contando ainda com as associações de veteranos da FEB. Do projeto da autora criado em 1994 sete anos se passaram, até 2001, quando da morte de Mary Vieira uns meses antes, que acabou por acelerar o processo.

Ainda viva e já muito doente, Mary Vieira compareceu, por diversas vezes, ao local onde se encontra hoje o monumento, orientando outros arquitetos e trabalhadores que atuaram na construção do monumento.

Tinha consciência do seu estado de saúde, pois se mostrava abatida, quando, em nosso último encontro na Itália, almoçou conosco em Porreta Therme. A própria viagem de trem de Milão a Bologna, para proporcionar esse encontro, a deixou profundamente fragilizada. Mary Vieira faleceu em fevereiro de 2001.

A obra: o monumento mede 7 metros de altura e 14 metros de largura. Foi inserido num círculo de 35 metros de diâmetro, bem ao meio de terras cultiváveis no vale do Monte Castello. O projeto, de linhas arrojadas, são dois arcos que se cruzam em mármore de Carrara e a base em granito preto baiano; fiel aos princípios matemáticos, a escultura esclarece que os arcos prolongados em suas extremidades encontrariam o infinito.

Um dos arcos brancos, que aponta para a terra, simboliza a morte; o outro aponta para o céu, isso é, para a transcendência que essas mortes significaram, definindo assim, por consequência, a “forte carga simbólica”.

Não foi observada a complementação do projeto apresentada pela escultura em época anterior, ou seja, a elevação de um muro que seria integrado ao monumento, com a construção de uma rampa onde as pessoas pudessem caminhar pelo próprio monumento.

Hoje, o monumento tem o cuidado especial da Prefeitura Municipal de Gaggio Montano, sem o muro, foi organizado um pequeno jardim ao seu redor.

A inauguração do monumento, em junho de 2001, suscitou declarações de vários órgãos da imprensa italiana e brasileira, como o jornal italiano Le Voce dei Combattenti Reduci”, de Bologna: “Vendo o grande complexo monumental, nascem tantas as esperanças conquistadas com infinito sacrifício; no íntimo do coração, certamente nasce um credo que exorta a considerar a custódia de garantia de um grande bem precioso que se chama paz”.

REFERENCIAS.
BERTI, Francesco Arnoaldi. Entrevista concedida a Carmen Lúcia Rigoni.Gaggio Montano(BO), Itália,  maio de 1999.
BRUNI, Caterina. Entrevista concedida a Carmen Lúcia Rigoni Gaggio Montano(BO)Itália, junho de 2001.
DOGLIANI, Patrizia. Luoghi dela memoria e monumenti. In CASA, Brunella Dalla. PRETI, Alberto (orgs). Bologna in Guerra. 1940- 1945.Milão:Editora Franco Angeli,1995.
DUBY, George. História e Nova História. Tradução de Carlos Veiga Ferreiro. Lisboa: Teorema, 1996.
FERREIRA, Carlos Antero. Arquitetura e Monumentalidade as origens. Lisboa- Portugal, 1964. Dissertação. Escola Superior de Belas Artes- Portugal.
FREIRE, Cristina. Além dos mapas: os monumentos no imaginário urbano contemporâneo .SESC São Paulo: Anablume, 1997.
GUALANDI, Fabio. Crônica. In. Gente di Gaggio Montano, Bolonha, nº 23, jul, 2001.
NORA,Pierre. Entre Memória e História. A problemática dos lugares. Tradução: Iara Aun Khoury. São Paulo: Projeto História, 1993.
PATICCHIA, Vito. Proggeto regionale. “ Linea Gotica” Itinerario Guanella- Monte Castello- Ronchidoso- Gaggio Montano, Italia, ago 2002.
POLLAK, Michael. Memória e esquecimento, silêncio. Estudos históricos. Rio de Janeiro, v.2, n.3, pp.3-15,1989.
PORTELLI, Alessandro apud NEVES, Lucila  de Almeida. Memória, história e sujeito. Revista de História Oral,nº 3, São Paulo,2000.
RIEGL, Alois. Apud MARX, Murilo. O teu Monumento é a tua escola, Atlas dos Monumentos Históricos de São Paulo. São Paulo: FENAME,  1975, pp.21-24.
RIGONI, Carmen Lúcia. Bravos Combatentes da FEB: memórias, monumentos, testemunhos perpétuos de uma história ( Itália 1995/2005). Curitiba: Imprensa Oficial, 2006.
VIEIRA, Mary Entrevista: Conversando com Mary Vieira- comunicado à imprensa. Milão, Itália. s/ data.
____Progetto Monumento Commemorativo “ Liberazione”. Comune de Gaggio Montano, Bolonha, Itália , 1996.


COMPARTILHE ESSE ARTIGO!

Facebook Twitter Email Plusone



VEJA ALGUNS ARTIGOS QUE POSSAM LHE INTERESSAR!

1 comentário

  1. Maria do Socorro Sampaio M. de Barros /

    O Monumento impressiona pela plasticidade e referência inicio/fim (terra e céu) projetada em seus arcos. Esses arcos unidos nos falariam do infinito ciclo da VIDA!
    Nossa querida Dra Carmem lucia Rigoni nos brinda em excelente relato a trajetória de Mary Vieira, renomada artista plastica internacionalmente aplaudida e sua tão significativa criação em jubilo à Força Expedicionaria Brasileira, O Liberazione.

Deixar um comentário

WordPress Themes