2º Tenente Enfermeira Roselys Belem Teixeira – Anjos existem?

 

Expurgar é a ordem natural de Deus.

Perguntem-se: o que veio depois da Peste Negra?

Todos sabemos a resposta.

Renascimento.

Tem sido sempre assim. A morte é seguida pelo nascimento.

Para alcançar o Paraíso, o homem deve atravessar o Inferno.

Foi esse o ensinamento do mestre.

BROW, Dan. Inferno. Editora Arqueiro. 2013. 448 pg.

 

Tem que ser assim?

Para alcançar o Paraíso precisamos mesmo atravessar o inferno?

Entre 1939 e 1945 o caos, mais uma vez, se fez presente para aterrorizar a humanidade.

Pior é que o Mal, de uma hora para outra, literalmente mudava de lugar.

De repente a Normandia.

Em outro momento, Monte Castelo.

Enquanto isso, o requinte da maldade absoluta acontecia nos campos de concentração de Auschwitz-Birkenau.

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Entrada para Auschwitz II-Birkenau, o campo de extermínio do complexo de Auschwitz.
Patrimônio Mundial da UNESCO

 

O “grand finale” macabro do conflito atingiu a alma do orgulhoso Governo Japonês.

Nunca, na história da humanidade, nenhum país se atrevera a utilizar armas nucleares em guerra.

– Que sejamos o primeiro então.

Supomos que tenha sido essa a conclusão daqueles que aprovaram o uso da bomba.

A primeira tinha o nome código de Little Boy (“menininho”, ou “rapazinho”, em português). A segunda-feira, do dia 6 de agosto de 1945, foi à data marcada para o lançamento. O tenente-coronel Paul Tibbets, conduziu o artefato de um avião modelo B-29 Superfortress, denominado Enola Gay. O engenho explodiu aproximadamente às 8h15 da manhã (hora local) a cerca de 600 m do solo. Estima-se que 70.000 pessoas morreram no exato momento da explosão e um número igual sofreu com os ferimentos.

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Como se não bastassem os resultados da primeira bomba, três dias depois, precisamente a 9 de agosto de 1945, Nagasaki seria a segunda cidade da história a ser atingida pela bomba atômica de código Fat Man (em português, “Homem Gordo”). Lançada pelo bombardeiro B-29 Bockscar, pilotado pelo Major Charles Sweeney, a arma nuclear causou danos menos extensivos que os do ataque à Hiroshima. Nesse fatídico dia, felizmente, as condições climáticas desfavoráveis fez com que o artefato atingisse um vale ao lado do municipio fazendo com que parte da carga energética da explosão fosse contida. Ainda assim, os aproximadamente 40.000 pessoas faleceram e mais de 25.000 ficaram feridas.

Triste. Cruel. Insensível. Desumano. Injusto. Inferno.

De repente a humanidade se viu diante de um complicado paradoxo.

Aliados ou Forças do Eixo?

Certo ou errado?

Moral ou imoral?

Justo ou injusto?

Bem ou mal?

Anjos existem?

A escolha tinha que ser feita.

O planeta teria pela frente seis anos de trevas. Mais cedo ou mais tarde o destino bateria fortemente na porta de quem viveu aquele período negro da história. A pergunta era simples, direta e objetiva.

– E então? Decidiu?

Não havia tempo para hesitação ou conflitos de consciência.

– Qual lado da moeda? Eixo ou Aliados? Vai lutar ou fugir?

Quando chegou a hora da decisão para mineira da cidade de Araguari, filha de Antonio Teixeira e Raulina Belém Teixeira, ela não teve dúvidas.

– O que preciso fazer?

Apresentou-se voluntariamente. Fez o curso de Enfermagem: Voluntária Socorrista da Cruz Vermelha Brasileira e o Curso Emergência de Enfermeiras da Reserva do Exército (CEERE), da 4ª Região Militar. Queria ação e ela começou a se concretizar quando veio à notícia transcrita no “DAE” – Portaria 7.018 de 09.08.1944.

Quando faltava um mês para completar 30 anos, ROSELYS BELÉM TEIXEIRA partiu rumo ao continente onde a destruição havia se instalado. Desembarcou no front e imediatamente se dirigiu a sua chefia no 45th General Hospital em Nápoles.

Fez o que sabia fazer de melhor.

Cuidou dos seus pacientes como se fossem pessoas de sua família. Tinha um semblante que inspirava calma. Limpou feridas. Fez centenas de curativos. Compartilhou com diversos médicos a responsabilidade de conduzir procedimentos cirúrgicos complicadíssimos. Chorou, mas também sorriu com as piadas de soldados que, mesmo feridos, não perdiam o senso de humor. Cumpriu o que prometera em seu juramento diante do Pavilhão Nacional. Durante os momentos de descanso lembrava sempre da frase do seu conterrâneo, o pensador Guimarães Rosa:

 

“…O correr da vida embrulha tudo.

A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.

O que ela quer da gente é coragem..”

Deixou os campos de batalha em 15 de junho de 1945, com o 6º Grupo (via aérea). Recebeu, por justo merecimento, do Exercito Brasileiro, as condecorações: Medalha de Guerra e Campanha. Entrou para história e podemos orgulhosamente chama-la de corajosa heroína.

Nos dias de hoje, a Enfermeira Roselys não tem participado dos eventos cívicos/comemorativos, optando apenas pelo convívio familiar. Contudo ela ainda mantem uma estreita ligação com sua amiga Enfermeira Carlota Mello, ambas mineiras.

Nos Congressos Nacionais das Enfermeiras (1978 e 1982) sua presença foi singular tanto por sua beleza como pela primorosa educação (fino trato) com que a todos brindava, assim também, por sua tenacidade ao esperar pacientemente o reconhecimento merecido às Veteranas da F.E.B.

Carlota Mello e Roselys Gazzinelli (nome de casada) em entrevista à Revista QUEM – Brasília – DF em outubro de 1982

A vida é mesmo uma caixinha de surpresas. Ela nos ensina que mesmo que não possamos mudar o que ficou para trás, fica claro o tempo inteiro que ela nunca privará de nós a oportunidade de escrever uma bela história digna de registro para posteridade. Quer um exemplo, eis Roselys. Sim, anjos existem!

Nota dos autores:

73 enfermeiras participaram do conflito.

Hoje, apenas três delas estão entre nós. em ordem alfabética em letras garrafais, são elas:

CARLOTA DE MELLO.

ROSELYS BELÉM TEIXEIRA

VIRGINIA MARIA DE NIEMEYER PORTOCARRERO.

 

Verdadeiros patrimônios históricos vivos que merecem digna homenagem. Pode ser um simples aperto de mão, um abraço sincero, fotos, crônicas, artigos, reportagens, poemas, vídeos, continências, reverências, cerimonias, formaturas, flores, chocolates, aplausos, canções e até aquele singelo aceno de cabeça com o olhar do mais puro agradecimento.

Fonte de consulta e apoio:

VALADARES, Altamira Pereira. Álbum Biográfico das Febianas. Batatais – SP: Centro de Documentação Histórica do Brasil. 1976. 116p.

Foto 1 – extraído do site: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Auschwitz-birkenau-main_track.jpg. Acesso em 05 de junho de 2013, às 19h15min.

Foto 2 – extraído do site: http://9d03.blogspot.com.br/2011/06/depoimento-de-sobreviventes-da-bomba-de.html. Acesso em 10 de junho de 2013, às 10h.

Colaboradora: Maria do Socorro Sampaio M. de Barros. Filha da Cap Enf. da FEB ARACY ARNAUD SAMPAIO.

É Psicóloga, membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – DF ( AHIMTB ), Coordenadora de Ação Social UNIPAZ-DF, membro da Ordem Franciscana Secular ( OFS ).

Colaborador:  Vanderley Santos Vieira, é Jornalista, especialista em Comunicação, Oficial R2 (Infantaria) do Exército Brasileiro, Tecnólogo em Administração de Empresas, Escritor, Pós-graduado em Planejamento Estratégico e possui o Curso de Política e Estratégia da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra. Atualmente desempenha a função de Gerente em uma Multinacional, Voluntário da Defesa Civil de Campo Grande – MS e Sócio Especial da ANVFEB/MS.

Possui as seguintes honrarias: Medalhas: de Serviço Amazônico; Mérito da Força Expedicionária Brasileira; Marechal Machado Lopes; Medalha Cruz da Paz; Marechal Cordeiro de Farias; Mérito da Força Expedicionária Brasileira da Câmara dos Vereadores de Campo Grande – MS; Mérito Legislativo de Campo Grande e Mérito Rondon – Academia de Estudo de Assuntos Históricos – MS.


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1 comentário

  1. Marcos Caldas /

    Excelente post. Só uma correção. A foto da menina correndo (foto 02) que ilustra esse artigo é na verdade da Napalm Girl. Ela nasceu em 1963 e ainda está viva. Essa foto foi feita após um ataque a sua vila com Napalm (bomba incendiária) durante a guerra do Vietnã.

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