2º Tenente Enfermeira – Alice Neves Maia

Se entregar não é para qualquer um, isso é coisa de heroína!

55 milhões de mortos, 35 milhões de feridos, 20 milhões de órfãos e 190 milhões de refugiados. O apocalipse provocado pela brutalidade generalizada do mais sangrento e maior conflito armado que o mundo presenciou marcou uma época para sempre e deu início a uma nova fase na história do planeta.

A Segunda Guerra Mundial apresentou a mais cruel face das tragédias humanas. Transformou mais da metade do mundo em lugar de sofrimento.  O conflito maltratou, humilhou, paralisou, apavorou e matou. Consigo trouxe doenças, fúria, ódio, destruição, luto, agonia, fome e destruição. Honra e desonra, juntas, lutavam para ver quem se sobressaia. O medo, indesejado, habitava os corações de homens, mulheres, crianças e idosos.

Porém, no meio do apocalipse, para igualar o fiel da balança, havia cura, amor, renascimento, reconstrução, fé, coragem, abnegação, persistência e alianças. O bem não se entregaria facilmente para o mal instalado. O Brasil ouviu o chamado e reagiu. O valor cobrado pela ousadia do país tropical custaria alto, e indiferente aos perigos, ele foi à luta. Mascarenhas de Moraes, General comandante da Força Expedicionária Brasileira definiu com uma frase a participação no conflito dos personagens:

- É bem verdade, e vale afirmar, que preço bem alto pagamos por esse resultado. O sangue dos nossos bravos camaradas tingiu de vermelho as belas verde-escuras montanhas dos Apeninos e algumas centenas dos nossos companheiros não retornaram a Pátria, pois dormem o sono eterno.

Cabe ressaltar que a guerra não foi feita apenas por homens. O considerado sexo frágil também atuou de forma significativa. 73 enfermeiras brasileiras cruzaram o oceano atlântico e arriscaram suas vidas no front. Eram mulheres como Alice Neves Maia, Mineira de Cataguazes, filha de Eloy Nogueira Neves e Etelvina Pereira Neves, que foram preparadas para enfrentar condições adversas. Ela não se entregou ao medo; não ficou paralisada com o horror; não sucumbiu a doença e ainda, encarou abnegadamente, dentro dos hospitais, a insaciável morte que insistia querer levar os enfermos.

Alice Neves Maia foi selecionada, treinada, nomeada Enfermeira de 3ª Classe e convocada para o Teatro de Operações. Partiu em 19 de outubro de 1944 para Itália. Classificada em cirurgia, clínica médica e doenças contagiosas, dedicou-se e seu profissionalismo rendeu elogios como o descrito no Boletim nº 9, da Chefia do S.S. da Força Expedicionária Brasileira:

Alice Neves Maia, trabalhadora, educada e discreta. Atendeu bem aos esforços, dando-lhes assistência e cuidados. Espírito conciliador procurou sempre distribuir entre as colegas, camaradagem e estima. Pelos bons serviços prestados, esta chefia agradece e elogia. (Bol do Serviço de Saúde da F.E.B. de 14 de junho de1945).

As tragédias humanas são imprevisíveis. Quando acontecem é preciso tomar partido. É preciso escolher um lado. É preciso decidir pela ação ou omissão. Enquanto algumas pessoas são dominadas pela insensibilidade outras são envolvidas pela justiça e senso de cooperação. Alice era uma dessas pessoas e não se furtava de suas responsabilidades quando elas se apresentavam.

Os ensinamentos adquiridos no curso de Enfermagem Voluntária Socorrista da Cruz Vermelha Brasileira, Ortopedia e o curso de Emergência de Enfermeiras da Reserva do Exército (CEERE) tinham objetivos direcionados que precisavam ser postos em prática. E o melhor lugar para isso era a Europa. Cada minuto no Brasil representava uma vida perdida na batalha.

A atuação da enfermeira Alice Neves Maia teve o justo reconhecimento do Exército Brasileiro e do Governo dos Estados Unidos da América. Os dois países concederam a ela a Medalha de Campanha e Medalha de Guerra – Brasil e o Distintivo de “Meritorium Service” – EUA.

Quando voltou para o Brasil era preciso refletir o que vira. O sofrimento que presenciara havia cessado. Não fez contas de quantas vidas salvou. Não se vangloriou pelo que fez, mas precisava relaxar e aliviar aquela pressão. Alice fez isso de uma maneira inusitada. Voltou para os hospitais brasileiros para aplicar tudo o que aperfeiçoara na guerra. Incorrigível e humana ela percebeu que em seu país outras pessoas precisavam de seus cuidados. Sem hesitar, mais uma vez, ela se entregou e isso não é para qualquer um. Isso é coisa de heroína!

Fonte de consulta e apoio:

VALADARES, Altamira Pereira. Álbum Biográfico das Febianas. Batatais – SP: Centro de Documentação Histórica do Brasil. 1976. 116p.

Colaborador:  Vanderley Santos Vieira, é Jornalista, especialista em Comunicação, Oficial R2 (Infantaria) do Exército Brasileiro, Tecnólogo em Administração de Empresas, Escritor, Pós-graduado em Planejamento Estratégico e possui o Curso de Política e Estratégia da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra. Atualmente desempenha a função de Gerente em uma Multinacional, Voluntário da Defesa Civil de Campo Grande – MS e Sócio Especial da ANVFEB/MS.

Possui as seguintes honrarias: Medalhas: de Serviço Amazônico; Mérito da Força Expedicionária Brasileira; Marechal Machado Lopes; Medalha Cruz da Paz; Marechal Cordeiro de Farias; Mérito da Força Expedicionária Brasileira da Câmara dos Vereadores de Campo Grande – MS Mérito Legislativo de Campo Grande e Mérito Rondon – Academia de Estudo de Assuntos Históricos – MS.

E-mail: vandsav@hotmail.com


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