Rememórias, por Dr Genesio Vivanco Solano Sobrinho

R E M E M Ó R I A S (2).

Originalmente publicado na Revista “Em SINTONIA”, de Out/2014, com circulação restrita a Região de Santo Amaro, São Paulo (SP), que reproduz a lembrança que tenho de um herói, meu tio José Vivanco Solano.

Por Genesio Vivanco Solano Sobrinho (Desembargador Federal do Trabalho Aposentado OAB/SP 17.854)

Nesta última sexta-feira, 26, estava eu na Beneficência Portuguesa, atendido por uma gentil recepcionista, com o objetivo de marcação de um exame ecocardiográfico, quando, ao perguntar sobre meu nome, ela se mostrou surpresa e sussurrou: –“Vivanco Solano, eu moro numa rua com esse nome…”.  Eu, então, informei: –“José Vivanco Solano, no Parque Novo Mundo… é o nome de meu tio, irmão de meu pai”.

Interessante observar a reação das pessoas. A minha interlocutora pareceu que estava falando com uma celebridade, por eu ser parente daquele que dava nome a rua em que morou…  Eu, então, expliquei. Trata-se de um Expedicionário que marchou junto aos Voluntários da Pátria na formação do primeiro Esquadrão de brasileiros que foram se juntar as forças armadas que combatiam na Europa contra o Nazismo. E, ao morrer, depois de participar das campanhas heroicas em que a FEB – Força Expedicionária Brasileira  se destacou na tomada de Monte Castelo e outros pontos estratégicos para a vitória das forças aliadas IN MEMORIAM recebeu várias homenagens póstumas, como herói da Pátria. Veio-me, então, a lembrança de mais um daqueles momentos que nos dão prazer e saudade e que são apropriados para que constem de nossas Rememórias. Lembro-me, apesar da tenra idade (tinha eu pouco mais de 3 anos), da última vez em que vi o meu tio.

Ele tinha se alistado no 6º Batalhão de Infantaria – também conhecido como Regimento Ipiranga – localizado em Caçapava (SP), e que se constituiu no primeiro Esquadrão a embarcar para o campo de batalha, e viera a casa de meus pais para a despedida. Tiramos algumas fotos, principalmente uma em que eu me encontro sobre seu ombro, e eu tenho a nítida lembrança dele vir se despedir de mim quando eu brincava em meu velocípede, na calçada da rua. Lindo, jovem, galhardamente vestido na farda verde da Infantaria do Exército Brasileiro.

Lembro que meu pai, irmão mais velho dos cinco irmãos, sendo aquele o caçula e não tinha ainda vinte anos quando se alistou,  não se  conformava com o fato dele ir para guerra. Segundo minha mãe contava aos familiares, meu pai, desesperado, queria provocar a decepação de um dedo do meu tio, aquele apropriado para puxar o gatilho, e forçar sua dispensa. Minha mãe não concordou e  impediu que ele assim fizesse. Não podemos dizer o que foi melhor, pois o destino traçado para as pessoas é indecifrável. Sua morte, por ironia do destino, foi acidental. Após participar das vitórias brasileiras, que ocorreram em setembro de 1944, com a tomada das localidades de Massarosa, Camaiore e Monte Prano, e até o início do ano seguinte, da conquista de Monte Castelo e Castelnuovo, no dia 16 de março de 1945, quando faziam a limpeza do campo conquistado em Castelnuovo, sofreu um acidente, provocado por um disparo feito por um companheiro de armas, Expedicionário Lellis, que manuseava uma automática “Mauser” retirada de um oficial alemão aprisionado ou abatido, então.

Hoje, além da rua mencionada acima, no Parque Novo Mundo, meu tio foi homeageado com a dação de seu nome a uma rua em Sertãozinho, sua cidade natal, e outra em Ribeirão Preto, onde passou toda sua juventude. Ainda em Ribeirão Preto, existe um Museu da II Guerra Mundial “José Vivanco Solano”, que guarda objetos, documentos e peças de vestuário de brasileiros que lutaram pela Força Brasileira na II Guerra Mundial, um dos fatos históricos mais importantes do século XX. O museu foi fundado em 1988 e está localizado a Rua da Liberdade, 182, aberto a visitação pública de 2ª. A 5ª. feira das 8h as 14h30. Remexendo nos pertences que se encontravam com ele, reenviados ao meu pai quando da comunicação de seu falecimento, encontrei uma carta, que foi escrita pelo meu tio em 22-1-1945, ou cerca de 2 (dois) meses antes do trágico acidente, dirigido ao meu pai e onde destaco a seguinte passagem: “Jacob como vai Tita, e os meus dois sobrinhos? Diga ao Genesio que Tio Zeca não foi com o Papai Noel porque não coube no saco, mas que irei”. São essas as rememórias que marcam nossa vida, e nos fazem refletir a respeito.


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4 comentários

  1. Maria Francisca dos Santos Lacerda /

    Meu caro amigo Genésio, muito bom lembrar a nossa história, ainda que carregada de tristes fatos, como a morte acidental de seu tio, pelo visto, muito querido. Linda a passagem do recado que mandou pra você. Deve fazer muito bem ao seu coração. Ótimo texto. Parabéns.
    Fraterno abraço,
    Francisca

  2. É muito compensador receber o carinho dos amigos. Espero que o Papai Noel, este ano, visite a todos, e faça relembrar a alegria da criança, que o tempo distanciou.
    Abs. Genésio.

  3. ANIZ BUISSA /

    Caro amigo e colega SOLANO, da turma de 1960 do CPOR/SP, Arma de INFANTARIA. Exemplos como o do seu tio só fazem aumentar nosso orgulho de ser brasileiros. Atualmente faço parte da nova diretoria da antiga Associação de Ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira em São Paulo, agora CENTRO CULTURAL DA FEB, presidido pelo ex-combatente João Ferreira de Albuquerque e tendo como vice-presidente Jairo Junqueira da Silva Filho, cujo pai, recentemente falecido, também era ex-combatente. Vou repassar a eles este seu excelente artigo.
    Grande e fraternal abraço.

  4. Uma pena não termos a preservação de nossa memória. Poucas pessoas na cidade onde moro (Sertãozinho) sabem quem foram essas bravos soldados.

    A propósito aqui na cidade as ruas Expedicionário Solano e Expedicionário Lellis são paralelas.

    Um grande abraço e obrigado por compartilhar!

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